TEMPERANÇA

Foto da Brodie Vissers do Burst

Não sei se vocês são acometidos por esse “fenômeno”, mas, não raro, algumas ideias ou pensamentos de teor denso surgem, aparentemente do nada, e se põem a dominar a minha mente.

Existe uma expressão em inglês curiosa para designar aquilo que aparece sem aviso ou inesperadamente: out of the blue ou, de maneira mais enfática, out of the clear blue sky, que, numa tradução ao “pé da letra” seria aquilo que vem “de um limpo céu azul”. Pois bem, o fato é que, como dizia o velho e bom Parmênides ex nihilo nihil fit; ou seja, nada surge do nada.

Esse lance de viver um fato histórico de tamanha monta é novidade para a grande maioria de nós, brasileiros, e o que, de fato, me parece absolutamente essencial nesse momento complexo é exercitar a nossa capacidade de pensar. Não o pensar óbvio, autômato, inerente à racionalidade humana. Eu falo do pensar crítico, cuja ausência ou precariedade tem se revelado (mais) uma das infindáveis mazelas que nos assolam. Notadamente com a utilização maciça das redes sociais, as pessoas nunca expressaram tantas “opiniões”; contudo, paradoxalmente, estas, em boa parte, nunca foram tão rasas e baseadas em achismos.

O que particularmente me assusta – e muito me preocupa – é que o falatório generalizado e acrítico tem se prestado, dentre outras coisas, a disseminar preconceitos, justificar flexibilizações e supressões de direitos e promover a adoção de perigosíssimos posicionamentos extremistas. Tudo isso, me perdoem pelo coloquialismo, “na maior cara de pau”! A liberdade de expressão, constitucionalmente consagrada e tida como um dos pilares do nosso frágil regime democrático, não pode servir de fundamento para a propagação de “achismos” burlescos e temerários.

É quando se fala de extremismos que exsurge, com vigor, a importância de se tratar da ponderação, do bom senso, da temperança… Em seu fabuloso “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, André Comte-Sponville dedicou um capítulo à temperança, nomenclatura não muito usual que particularmente me agrada. Essa moderação, seja em nossos desejos, seja em nosso agir, seria própria dos sábios, vez que seria uma “arte” esclarecida, dominada e cultivada. Esse “regramento”, que por vezes pode parecer sinônimo de prudência, seria um meio para a independência, assim como esta seria um meio para a felicidade.

Na esfera do possível, regular voluntariamente o pulsar da vida, procurando mantê-la em equilíbrio, harmonia e paz faz da temperança uma afirmação sadia do nosso poder de existir, como diria Spinoza. A mim me parece que a maturidade nos dá maiores chances de desenvolver e cultivar essa virtude. O tempo nos ensina (ou pelo menos deveria ensinar) a domar nossos impulsos irracionais. É esse exercício perene que nos conduz à tolerância e à humildade, tão necessárias para a vida em nossas sociedades de abundância, nas quais “se morre e se sofre com maior frequência por intemperança do que por fome ou ascetismo”.

Mas que, fique claro que, com ponderação, existem brigas que precisam ser compradas, bandeiras que precisam ser erguidas e discursos que devem ser firmemente combatidos. Agora, naturalmente, longe de mim pregar que sentimentos devem ser suprimidos. A insensibilidade é um defeito; e dos mais graves. Em matéria de amor, por exemplo, sou partidária, com um pouquinho de temperança, do exagero cantado por Cazuza. Mas isso é tema para uma outra conversa…

 

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