AS RELAÇÕES DE PODER NO PÓS PANDEMIA

As relações de poder após a pandemia deverão se pautar na ideia de Justiça Global, que leve em consideração, ademais das necessidades imperiosas de alojar, vestir e alimentar populações famintas, os diversos problemas, nuances e pluralidades existentes no mundo atual e que demandarão soluções consensuais, responsáveis e solidárias.

Os desafios a serem enfrentados após a pandemia são inéditos para os governos e, por conseguinte, para a comunidade internacional, e os riscos sociais ainda não estão visíveis e compreendidos plenamente.

Nos três maiores mercados do mundo, o americano, o chinês e o europeu, a extensão dos danos é assustadora. Os efeitos da crise nesses três principais mercados também atingem o Brasil, como o resto do mundo.

Nos EUA, a queda do PIB, no primeiro trimestre, deste ano, foi de 4,8%, em valores atualizados, comparados ao período anterior. A segunda maior economia, a chinesa, enfrentou no primeiro trimestre de 2020 a primeira contração em quase 30 anos. Entretanto, segundo o FMI, mesmo abalada pelos impactos da pandemia, projeta-se para a China 1,2% de expansão comercial neste ano.

A Europa também apresenta projeções de encolhimento de 5% a 12% na zona do euro. O PIB do primeiro trimestre foi 3,3% menor que o de um ano antes. Para o FMI, o produto da zona do euro deve diminuir 7,5% neste ano.

A expectativa, portanto, é de contração para as economias avançadas e também para os países em desenvolvimento.

Com as pessoas fechadas em casa, as famílias cortaram os gastos de consumo, as empresas diminuíram investimentos e as exportações caíram. Do que se conclui que, pelo menos por enquanto, o balanço da crise revela grandes estragos. Ventos de relativo otimismo começam a se fazer sentir na abertura gradual, flexível e responsável que paulatinamente começa acontecer em vários países e regiões do mundo assolados pela pandemia.

O coronavírus, sem dúvida, entra na história da humanidade como o inimigo que, mesmo invisível, derrubou as principais economias em escala impensável antes, cujos efeitos, nos países emergentes, podem ser ainda mais devastadores.

No que diz respeito ao Brasil, sabe-se que a China é nosso principal destino das exportações do agronegócio. A demanda chinesa tem grande importância para o superávit comercial e para a segurança das contas externas brasileiras. Os EUA, por outro lado, é nosso segundo maior importador de mercadorias e têm relevância especial nas vendas de manufaturados. O terceiro maior parceiro comercial individual do Brasil é a Argentina, que já estava em crise aguda em 2019 e não vislumbra melhor destino após a pandemia. Também os países europeus da zona do euro são relevantes parceiros comerciais do Brasil e neles o PIB, como já se disse, vem decrescendo.

Para o Brasil,  segundo o FMI, os cálculos indicam um PIB 5,3% menor que o de 2019. O repique esperado para a economia brasileira, de 2,9% em 2021, é bem menor que o previsto para os países avançados de 4,5% e emergentes 6,6%. Portanto, ao Brasil, passada a pandemia, não será permitido medir esforços para resolver seu problema crônico de baixo potencial de crescimento.

Diante dessa realidade inegável, constata-se, sem grande esforço, que o mundo todo sairá da crise da COVID 19 mais endividado e, ainda, mais desigual. Contudo, a crise já nos trouxe duas mensagens importantes: uma delas diz respeito às carências das nações, que acabaram desnudadas sem pudor; a outra está relacionada ao grande papel que exercem as decisões políticas governamentais nos níveis interno (nacional) e internacional.

Lição clara que já se pode extrair também, ademais dos problemas sanitários, econômicos e políticos, presentes em todas as nações, desenvolvidas ou em desenvolvimento, diz respeito à necessidade de união e efetiva cooperação para enfrentar questões igualmente complexas e urgentes, como a mudança climática e a crescente escassez de recursos hídricos.

Somente uma nova leitura de como enxergamos a humanidade poderá nos auxiliar a fazer a travessia entre o hoje, complexo e caótico, e o amanhã, renovado. Contudo, isso demandará um novo patamar de empatia que deve vir dos governantes, dos agentes econômicos e da sociedade civil. A oportunidade será única para que repactuemos um mundo mais humano, solidário e pacífico.

Nessa tarefa de reconstrução e retomada do crescimento não serão suficientes apenas os esforços nacionais, deste ou daquele país isoladamente, na medida em que ondas de refugiados e imigrantes poderão matizar o mundo nos próximos anos.

As relações de poder na comunidade internacional após a pandemia deverão se pautar na ideia de Justiça Global, que leve em consideração, ademais das necessidades imperiosas de alojar, vestir e alimentar populações famintas, os diversos problemas, nuances e pluralidades existentes no mundo atual e que demandarão soluções consensuais, responsáveis e solidárias.

As dificuldades serão muitas e os obstáculos quase intransponíveis. Contudo, as inúmeras implicações de um mundo globalizado, e cada vez mais interconectado, contarão a favor da mudança de paradigma de moralidade global e de justiça que se assente na responsabilidade dos povos uns para com os outros.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here