75 ANOS DA ONU E DE AMOR AO MUNDO

Sob os auspícios da ONU, o mundo ficou um lugar melhor e mais seguro, não obstante os problemas que ainda enfrenta e que se avolumam pela insensatez de muitos governantes. Com ela aprendemos a importância do multilateralismo, bem como que as singularidades podem divergir, dialogar, expor suas ideias e, acima de tudo, construir e agir em conjunto. As virtudes da solidariedade, coragem e respeito são imprescindíveis, na medida em que nos convocam a prestigiar as individualidades e diferenças em um mundo sempre mais complexo.

No último dia 24 de outubro passado, a Organização das Nações Unidas (ONU) completou 75 anos de trabalho em prol da paz entre os povos e da segurança internacional. Negociada e criada no pós Segunda Guerra representa nosso mais forte elo com a sobrevida, não apenas dos homens, como também de um planeta extenuado e abatido.

Muitas são as críticas dirigidas à ONU, especialmente contra um de seus órgãos, o Conselho de Segurança, no qual países, que tomam acento permanente, como Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China, têm o poder de veto (e voto) sobre questões fundamentais relacionadas a paz e a segurança internacional.

Certamente, o Conselho de Segurança precisa de reformas com vistas a sanear o alto déficit democrático na Organização. Entretanto, é preciso reconhecer que a ONU é muito maior que seu Conselho de Segurança, e que devemos à Organização 75 anos de relativa paz, segurança e prosperidade.

Sem dúvida, foi graças a ONU que o Apartheid foi contido na África do Sul, dando lugar a eleições multirraciais e democráticas em 1994.

Da mesma forma, credita-se a ONU a derrubada do Muro de Berlim, em 1989,  que pode ser considerado o acontecimento mais marcante do final do século XX. Com a derrubada do muro, deu-se a reunificação da Alemanha, em 1990, quando o território da Alemanha Oriental foi incorporado à Alemanha Ocidental.

Daí foi um pulo para o fim da Guerra Fria entre os EUA e a antiga URSS.

Para melhor desempenhar suas funções, a ONU conta com mais de 15 programas, ou agências especializadas, cuja função é perseguir objetivos específicos de cooperação nas mais variadas áreas de importância para o desenvolvimento dos países-membros, tais como: o PNUD, UNICEF, PNUMA, OMS, FAO, UNCITRAL, UNCTAD, dentre outros.

Hoje, mais de 80 milhões de pessoas que foram expulsas de suas casas, comunidades e países, em decorrência de desastres ambientais, guerras, disputas políticas e perseguições religiosas e étnicas ou, simplesmente, em busca de sobrevida, vivem em segurança protegidas e acolhidas pelo ACNUR, agência da ONU para os refugiados.

Indubitavelmente, os problemas que enfrentamos hoje no mundo não poderão ser resolvidos apenas por uma Organização que prima pelo multilateralismo. Todavia, poder contar com ela já representa muito. Fazer face às dificuldades e erros não nos deve desencorajar de buscar as reformas necessárias, o que pode ser feito no âmbito da Assembleia Geral, o órgão político da ONU, onde estão representados todos os países-membros.

Segundo Hanna Arendt, o exercício da política, não só interna como também internacional, exige “diálogo” e “ação”, contextualizados ao lado de outros fatores igualmente importantes como a “pluralidade” e a “singularidade”.

O amor ao mundo é a consequência ética de toda ação política, diz-nos Arendt. Consiste, portanto, em um genuíno interesse pela vida pública “lato sensu”, cujo exercício promove espaços onde as singularidades podem divergir, dialogar, expor suas ideias e, acima de tudo, construir e agir em conjunto. Dessa forma, as virtudes da solidariedade, coragem e respeito são imprescindíveis, na medida que nos convocam a prestigiar as individualidades e diferenças em um mundo  sempre mais complexo.

Situações tão peculiares, como as atuais, assoladas pelo “medo” e “angústia” e, especialmente, pelas “incertezas do isolamento”, ou “afastamento social”, decorrentes da Covid19, põem em cheque a ilusão de liberdade e o senso comum de humanidade.

A angústia, isto é, o medo do porvir, traz consigo o questionamento se o novo mundo que se vislumbra pós pandemia será melhor ou pior, se a opressão do estado de direito e das leis, assim como aquela do mercado, darão, efetivamente, origem a um mundo mais justo e fraterno.

Antes da pandemia, o nosso tempo era negligenciado e escandalosamente perdido. Passávamos boa parte da vida, como dizia Sêneca, fazendo as coisas mal, uma boa parte sem fazer nada e toda a nossa vida fazendo algo distinto do necessário ou desejado.

Passada a crise, teremos tempo de rever o legado já recebido nos últimos 75 anos das Nações Unidas, assim como refletir sobre o que se espera dela nos anos vindouros. Qualquer que seja nossa reflexão deve ter em mira a necessidade de encontrarmos novas lideranças políticas com senso de proporção moral e responsabilidade intelectual. Agentes públicos que, no serviço das melhores forças e causas, atuem em nome da “res publica”.

E que fiquem registrados, aqui, nossos cumprimentos aos 41 mil funcionários na ONU, provenientes dos mais de 190 países-membros, assim como a todos que já se foram e lutaram por um mundo melhor em todos os cantos do planeta, paradigmas na promoção do diálogo, do respeito e do amor ao mundo, expresso na solidariedade ao próximo – na sua singularidade e pluralidade.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here