A DIPLOMACIA DOS RUGIDOS

Palácio do Itamaraty, Brasília, Brasil - A C Moraes - Flickr

A diplomacia é o instrumento utilizado e desenvolvido pelas nações civilizadas para resolver e desestimular antagonismos, com vistas a resolver divergências sem o uso da violência, da força ou de ofensas. Agir com diplomacia, portanto, é ter respeito pelo próximo, valorizar a discrição, o comedimento, a liturgia e a cooperação.

O objetivo da diplomacia é garantir o bom convívio, a consideração, a deferência e a reverência, assim como privilegiar que as particularidades e interesses de cada um sejam defendidos e representados.

Rugidos, ataques, insultos, ameaças de nada adiantam.

Bramidos diplomáticos revelam, especialmente, imaturidade política e revelam a inexistência de um projeto claro, consistente e eficiente de política externa.

A tradição da política externa brasileira sempre foi a “diplomacia de cooperação”, por meio da qual se identificam as necessidades internas que são imediatamente incluídas na agenda de possibilidades externas. Dai a importância da cooperação, assim como do primado da solução pacífica das controvérsias, a prevalência dos direitos humanos e da não intervenção.

A elegância hermenêutica, tradição diplomática brasileira desde a fundação da Casa de Rio Branco (Itamaraty), é incompatível com a diplomacia de combate – de enfrentamento, de maus modos, impolida, que despreza o protocolo, os ritos e recrudesce as possibilidades de diálogo e a construção de pontes.

Não é difícil constatar, por conseguinte, que a atual condução da política externa brasileira longe está de poder ser considerada adequada ou promissora, frente aos interesses nacionais e, muito menos, reflete preocupações com um cenário internacional cada vez mais complexo, interconectado, com tensões nas altas esferas de poder, além das disputas entre EUA e China, dos conflitos no Oriente Médio, somados aos efeitos nefastos da pandemia, na economia e no comércio mundiais.

O retorno à diplomacia tradicional do Itamaraty, neste momento de grave crise humanitária e econômica mundial, implicaria contribuição importante do Brasil para o bom funcionamento do sistema internacional, haja vista a sua vocação pacífica, agregadora e seus recursos de toda a ordem.

A forma como o Brasil tem se conduzido, no plano internacional, nos últimos dois anos, é algo inédito nos anais da nossa política externa. Pela primeira vez o tradicional consenso e o multilateralismo foram abandonados pelo bilateralismo extremado, especialmente com os EUA de D. Trump, em detrimento de outros parceiros importantes. Da mesma forma que o poder executivo conduz, internamente, sua estratégia de governo, também a política externa prima pela polarização, combate e deselegância.

Mesmo em períodos nos quais a política externa apresentou aspectos de trincadura, como durante o governo Jânio-Jango (1961-1964), de ruptura internacional, ou da dupla Geisel-Azeredo (1974-1979), de pragmatismo responsável, ainda assim as inflexões se faziam necessárias e a população viu seus interesses preservados.

Muito diferente do que acontece agora, período no qual prevalecem a disrupção, o abandono das boas técnicas diplomáticas e do interesse nacional.

Parece não haver dúvidas de que o Brasil não possui um projeto concreto e definido de desenvolvimento nacional, que possa se beneficiar no cenário internacional, bem como capaz de reduzir o arbítrio e o excesso de unilateralismo.

O “ativismo inconsequente”, nefasto em nível nacional, travestido de iniciativas mudancistas no plano externo, implica apenas ilusão de modificação nas relações de força ou na geografia do comércio internacional.

“Ativismo” não se confunde com “ativo” e “altivo”.

Abandonar os “velhos mitos” pode ser tão perigoso quanto não ter uma política externa clara, transparente e consentânea com os interesses nacionais.

“Tempus Horribilis”.

O Brasil enfrenta a pandemia da COVID 19, em meio ao aumento crescente da desigualdade, sem planos para a modernização da sociedade da economia, sem prover melhor educação e saúde. A longo prazo, com tanta miséria, não haverá prosperidade. E mesmo diante desta realidade o país não percebe que a diplomacia e o cultivo das relações internacionais são autoestradas bem pavimentadas para se buscar menos desigualdade, maior prosperidade, mais respeito às leis e às pessoas.

Inadmissíveis dois fatos recentes que nos envergonham e apequenam.

A partir de 1º de janeiro, o Brasil perdeu o direito de voto na ONU por inadimplência. O país não é devedor apenas da maior de todas as organizações multilaterais, como também de muitos outros importantes organismos internacionais.

O segundo episódio diz respeito à rejeição do Senado Federal à indicação do Embaixador Fábio Mendes Mazano para ocupar a posição de delegado permanente do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Em sinal político raro e inequívoco, e recado claro, de que o Senado não vai mais tolerar que a  política externa seja conduzida de forma atabalhoada e em desrespeito aos interesses nacionais.

É evidente que o Brasil precisa rever seus discursos no que diz respeito ao meio ambiente e às graves violações de direitos humanos no país, nelas incluídos os assassinatos de indígenas.

Para tanto, precisa de cooperação internacional para criar na Amazônia atividades econômicas sustentáveis, já que nem mesmo o exército brasileiro consegue defender a floresta. Precisará, queira ou não, entender-se como os EUA, nosso segundo maior parceiro comercial e cuja influência, como potência hegemônica no planeta, deverá voltar a crescer na gestão Biden.

Ademais, as relações com a China, nosso maior parceiro no agronegócio, devem ser retomadas. Delírios ideológicos não combinam com a tradição do Itamaraty.

Urge, pois, que o país mude o rumo e os propósitos de sua política externa, que vem causando insistentemente prejuízos à nação. Caso contrário, não tardará para que o Brasil assuma de vez o lugar de “pária” internacional, como almeja o Ministro das Relações Exteriores do Brasil e, na falta de argumentos, recorra à pólvora.

“Párias”, para quem não sabe ou lembra, são os descendentes de tribos indianas autóctones e insubmissas ao domínio ariano. Neles também se incluem os bastardos (de pais estrangeiros ou pertencentes a castas diferentes), os filhos de meretrizes e os que cometeram graves infrações contra preceitos sociais ou religiosos. Portanto, “pária” é uma pessoa mantida à margem da sociedade ou excluída do convívio social.

Será que é isso mesmo que se quer para o Brasil?

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