A DISFUNÇÃO DEMOCRÁTICA AMERICANA

A falta de temperança e a ambição desmedida são evidências da disfunção democrática que assola os EUA e, também, ecoa em outros cantos do mundo. Ao povo cabe sempre duvidar dos modelos que se repetem e recusar as profecias de salvação e os arautos de catástrofes.

O primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden teria ruborizado o pensador politico francês Alexis de Tocqueville, que estudou profundamente o cenário politico americano e publicou quatro tomos de seu famoso livro “Democracia na América”, entre os anos de 1835 e 1840, no qual examinou pontos de convergência e divergências entre as Revoluções Americana e Francesa. Da mesma forma, teria lamentado profundamente a corrosão da democracia americana o filósofo, também francês, Raymond Aron que, por volta de 1930, pôs em evidência a contribuição de Tocqueville à sociologia política, e reacendeu os debates sobre guerra e paz, assim como sobre o futuro das relações internacionais no período entre guerras e depois delas. Foi Aron que cunhou a expressão “Guerra Fria” ao período histórico que sucedeu a Segunda Guerra Mundial. E, durante o mesmo período, disse a célebre frase: “Guerra improvável, paz impossível”.

Ambos estariam estarrecidos com os golpes que a democracia americana vem sofrendo, já faz algum tempo, evidenciados, e fortemente sentidos, pelo povo norte-americano nas recentes campanhas eleitorais dos Partidos Democrata e Republicano.

Os debates entre candidatos à presidência da Casa Branca são, tradicionalmente, acompanhados mundo a fora, haja vista a importância que assumem historicamente. Todavia, este não é o caso do primeiro debate entre Trump e Biden.

Antes mesmo do advento da televisão e do rádio, os debates entre Lincoln e Douglas, em 1858, ficaram na história do país. Foi uma série de sete encontros, entre dois candidatos a uma vaga ao Senado americano, pelo estado de Illinois, que colocou frente a frente dois gigantes. De um lado, o ex-deputado republicado Abraham Lincoln e, de outro, o senador democrata, que tentava a reeleição, Stephen Douglas. Os debates, que giraram em torno de temas sensíveis como a escravidão, entraram para a história frente à contribuição de ambos a questões sensíveis relacionadas às minorias, à (des)igualdade racial, à guerra e à paz. Douglas acabou sendo reeleito para o Senado, por Illinois, e Lincoln pavimentou o caminho para o futuro, vencendo as eleições presidenciais em 1860. Por mais de um século e meio, os debates entre Lincoln e Douglas são sinônimos de discursos políticos substanciais e tonificados.

Recorrendo à história mais recente, no ano de 1960, o democrata John Kennedy e o republicano Richard Nixon transformaram seu debate em um evento que revolucionou o marketing politico. Segundo todas as pesquisas, Nixon estava na frente. Entretanto, após o primeiro debate, transmitido pelo rádio e TV, para mais de 80 milhões de norte-americanos, o cenário se inverteu. A virada se deu graças a uma série de truques e expedientes de marketing político que jamais foram vistos ou tinham sido utilizados antes e que, a partir de então, passaram a ser copiados pelo resto do mundo.

A TV já estava presente em grande parte dos lares americanos, porém, nunca tinha sido bem explorada por um político até esse famoso debate. Junto com sua equipe, J. Kennedy ensaiou repetidas vezes o que diria, para onde olharia (no caso, as câmeras), quando sorriria, de que forma, e, inclusive, como se moveria e gesticularia no palco. Antes do debate, Kennedy teve seu visual meticulosamente preparado. O terno tinha que se destacar em relação ao cenário, a maquiagem e o cabelo tinham que estar impecáveis e retocados durante os intervalos.

Por outro lado, Nixon não deu a menor importância para o certame, e tampouco se preparou, participando de um comício minutos antes. O fiasco foi tão grande que, assim que saiu da TV, sua mãe telefonou para saber se ele estava doente. Nixon amargou criticas extremamente negativas.

Nos dias seguintes, diversas pesquisas para avaliar quem tinha sido o vencedor foram realizadas e uma curiosidade foi detectada: a maioria dos que acompanharam o debate pelo rádio, afirmou que Nixon foi melhor, por outro lado, a maioria dos que assistiram pela TV foi unânime em apontar a vitória de John Kennedy. Do que se infere que veículos de comunicação diferentes precisam de cuidados específicos, caso contrário a mensagem não chega ou atinge seu destinatário de forma equivocada.

Outro debate que deixou saudades foi aquele travado entre Jimmy Carter e Gerald Ford. Em 1976, diante do então governador da Geórgia, Jimmy Carter, Ford cometeu uma gafe que pode ter custado a presidência. Quando abordado o tema candente, à época, da ação da União Soviética na Europa, Ford não titubeou e disparou: “não existe domínio soviético no leste europeu”. Ademais, subestimou a Guerra Fria em curso entre os EUA e a Rússia. Surpreso, o moderador interrompeu e pediu esclarecimento, contudo, Ford se recusou a explicar seu ponto de vista e admitir o erro. A diferença entre os candidatos, que antes do debate era de 20 pontos, foi reduzida drasticamente para 6 pontos percentuais. Sem o tropeço, e o descaso com a política internacional, Ford, provavelmente, teria superado Carter e vencido a eleição.

Outro debate ilustrativo e decisivo, indubitavelmente, foi aquele realizado durante as primárias do Partido Democrata, em 2007-2008, entre Hillary Clinton e Barack Obama. Ambos prepararam-se por meses para poder se enfrentar e deixar claro qual dos dois seria a melhor opção democrata para enfrentar o candidato republicano John McCain. As discussões foram de tão alto nível que ambos puderam expor seus programas de governo relativos aos problemas domésticos norte-americanos, assim como os relacionados às relações internacionais. Ao ser questionado se estaria disposto a reunir-se de maneira separada, sem condições prévias, durante o primeiro ano de seu governo, com líderes do Irã, Síria, Venezuela, Cuba ou Coreia do Norte, para reduzir as divergências, Obama respondeu: “Sim, eu faria” e, assim, abriu a caixa de pandora de possibilidades de mudar a cara dos EUA para o resto de mundo.
Ainda mais proximamente, os debates entre Donald Trump e Hillary Clinton, em 2016, conseguiram a maior audiência na história dos EUA, especialmente pelo duelo verbal memorável entre os candidatos, a ostensiva troca de insultos desferida pelo republicano contra a democrata, como, também, especialmente, pela presença forte e corajosa de uma mulher concorrendo, pela primeira vez, à Casa Branca. O mundo, e não apenas os norte-americanos, pararam para acompanhar.

De volta ao momento atual, no que diz respeito ao primeiro debate entre Trump e Biden, é certo que nenhum dos candidatos saiu vencedor ou aumentou seu ainda confuso número de apoiadores. Perderam oportunidade importante de explicar seus programas, propostas de governo e evidenciar suas diferenças. Nenhum deles venceu, e seus partidos parecem estar dando de ombros.
O pior é reconhecer que o grande perdedor foi o povo norte-americano que se viu diante de um bate-boca de bar da esquina, entre uma espécie de cantor de rock decadente e um veterano politico ultrapassado em busca de uma última oportunidade de fazer o que ainda não fez, mesmo carregando nas costas uma vice-presidência, por dois mandatos, e mais de cinquenta anos de política congressual.

Por causa de um processo constitucional eleitoral vago e obsoleto, talvez a Casa Branca continuará abrigando uma família disfuncional e um dos presidentes mais fracos da história americana. É provável, inclusive, que a decisão final, sobre o vencedor, caiba à Suprema Corte americana, tendo em vista os tais votos pelo correio. E o mundo perderá a chance de ver as chaves dos cofres mais importantes do mundo serem confiadas a quem, de fato, as merece.

As perspectivas, portanto, não são alvissareiras.
Tanto lá, como cá, reverbera o lamento de que os partidos políticos não tenham conseguido, nos últimos anos, formar e apresentar novas lideranças, capazes, responsáveis e preparadas para bem governar, com sobriedade, prudência, sabedoria, comprometimento com a “res publica” e humanidade.

A falta de temperança e a ambição desmedida, especialmente de D. Trump, são evidências da disfunção democrática que assola o país e que também ecoa em outros cantos do mundo. Cabe aos norte-americanos, e não apenas a eles, duvidar dos modelos que se repetem e recusar as profecias de salvação e os arautos de catástrofes.

2 COMENTÁRIOS

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