A divulgação de (des)informação em tempos de pandemia, extremismos e polarização digital

Sem querer usar de maniqueísmos, um bom exemplo da manipulação de notícias através da exploração consciente da polarização digital, pautada no extremismo dos debates, é a divulgação feita por parte da população, de diversos vídeos com as opiniões mais escandalosas de Ítalo Marsili, um dos apontados para ocupar o cargo de Ministro da Saúde. Se por um lado, essas divulgações o tornaram para alguns uma figura desprezível; por outro é inegável que as mesmas postagens e divulgações o tornaram mais conhecido entre a parcela mais conservadora da população, e até mesmo entre aqueles que nem faziam ideia de quem ele era.

Essa dicotomia nos dá a oportunidade de refletir sobre a cultura digital de massa[1], e a manipulação intencional ou não dessas informações como catapulta de autodivulgação, feita através de “fake news”[2] ou até mesmo de notícias verdadeiras, propositalmente usadas de forma descontextualizada para causar desinformação.

É fácil perceber o uso dessa técnica (que não requer grande sofisticação) nos meios digitais, ainda mais agravados nesse período de pandemia[3]. Um indivíduo, até então pouco conhecido ou até mesmo conhecido, mas esquecido e desejando voltar a ser notícia, ou ainda, desejando simplesmente desviar a atenção da grande massa de assunto mais relevante, publica um artigo, faz postagens em redes sociais, dá uma entrevista ou grava um vídeo falando sobre coisas que ele já sabe que provocarão uma reação generalizada de revolta e repulsa em parcela da população. Na sequência, joga ou faz com que joguem este material em larga escala na rede.

O conteúdo é propositalmente direcionado, através da análise dos algoritmos, e disseminado por robôs, como vimos no Brexit [4] para ser acessado  pelas pessoas e plataformas que não concordam com aquela postura, a consequência lógica e esperada é que elas se revoltem e repudiem todas as coisas que foram noticiadas, e percebendo o perigo que determinado fato ou decisão possa vir a causar na sociedade, passam a alertar ao maior número de pessoas possíveis sobre o que está acontecendo.

Desta forma, milhares de pessoas, que nunca teriam tido acesso ao conteúdo original sozinhas, o leem ou assistem, passando a saber de quem se trata aquela pessoa, ou indo inclusive pesquisar melhor a respeito, tornando-a instantaneamente famosa e controversa. Estas, por sua vez, também revoltadas, repetem o ciclo de reprodução do conteúdo, como expressão de sua indignação, aumentando ainda mais a repercussão da mensagem e a visibilidade da pessoa.

Esta onda crescente que se forma, ajuda a consolidar, dentro do grupo que começou a disseminá-la a certeza de que aquela figura é perigosa e deve ser desmascarada. Em contrapartida, graças a polarização política em que vivemos hoje, esta capacidade de despertar em um lado a preocupação, na outra parcela, provoca não apenas simpatia, mas fama, podendo até se tornar um herói, pois se ele esta incomodando tanto os meus “opositores”, só pode ser meu “aliado”, pensamento raso, mas muito comum hoje em dia, quando a informação é utilizada com este viés de massa de manobra, como nunca antes se vivenciou na história.

A consequência disso é que a pessoa em questão assume, para o lado que ela representa, a condição de uma recém-promovida a celebridade, única e exclusivamente por ter a capacidade de despertar ódio do lado adversário, devendo ser ouvida, e se possível, indicada para assumir uma posição relevante de opinião ou de poder. A revolta de parcela da população é usada como trampolim de fama perante a outra parcela da população, melhorando suas chances de influência e poder.

É muito difícil evitar este fenômeno, nos encontramos em um circuito difícil de ser interrompido e que se retroalimenta, já que de um lado temos a necessidade de denunciar aquilo com que não concordamos, mas fazendo isso estamos ajudando a fortalecer a imagem de determinado indivíduo e aumento sua fama positivamente para outro grupo.

Além disso, não será possível reeducar em massa todas as pessoas de forma rápida, a educação digital ainda levará tempo, a ainda assim sempre existirá quem queira utilizar a ferramenta em proveito próprio.

É possível que estejamos diante de beco sem saída, no qual a patologia da polarização digital aliada aos extremismos políticos tenha tornado impossível repudiar de um a lado sem ao mesmo tempo fortalecer do outro determinado fato ou indivíduo. Por isso a necessidade urgente de uma cultura digital, a fim de aprendermos a identificar essas estratégias e sermos capazes de imunizarmo-nos contra essas manipulações.

[1] http://vanguardaonline.blogspot.com/2017/10/cultura-de-massa-x-cultura-digital.html

[2]https://www.migalhas.com.br/depeso/325902/o-poder-da-desinformacao-fake-news-desonestidade-intelectual-e-pos-verdade

[3]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/05/interna_politica,842460/brasil-tera-dificuldade-de-superar-polarizacao-politica-em-meio-a-pand.shtml

[4] https://www.poder360.com.br/opiniao/coronavirus/covid-19-derreteu-extremismo-e-fabricas-de-fake-news-na-politica-digital/

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