A pandemia na esfera geoestratégica das potências mundiais

Em dezembro, éramos todos felizes e não sabíamos.

Um novo coronavírus, sobre o qual de quando em vez se lança uma teoria em relação à sua origem e as constantes mutações, veio para ficar, não por um trimestre, não por um ano… Sabe-se lá quando será definitivamente extinto!

Pandemias sempre as houve no decurso da história da Terra, mas são dúbias as circunstâncias sobre como o novo coronavírus apareceu e se propagou, tendo em conta uma inconfessável mas existente guerra fria, no contexto das potências mundiais, principalmente os EUA e a China – em plena disputa pela expansão comercial –, que, estranhamente, parece ser de todo o interesse para os beligerantes. Guerreiam-se, amando-se mutuamente, na lógica neoliberal que devora o mundo. Uma guerra silenciosa, não assumida (porque a hipocrisia é a tônica dominante na diplomacia planetária). A tecnologia 5G e a desvalorização do valor do trabalho são os imperativos desta falsa modernidade. Pelos vistos, já não há trabalhadores – agora, é chique dizer que somos todos colaboradores. E não venham os velhos marxistas-leninistas ou maoistas com cantiga de que a China, mesmo adotando o capitalismo mais selvagem, é importante para a esquerda no plano geoestratégico mundial! Tetras! Já não há partidos-irmãos! As democracias  ocidentais que, ao longo de décadas, se preocupavam tanto com os direitos humanos em Cuba acabaram por fechar os olhos ao massacre de Tiananmen, que está esquecido, da mesma forma que fecharam os olhos a um dos governos mais corruptos do mundo, o de Eduardo dos Santos, e aos tentáculos mafiosos da sua filha Isabel, porque a China e Angola há muito que aderiram à selvajaria neoliberal. Por outro lado, não se iludam aqueles que diariamente lutam pelos direitos laborais e sociais dos mais pobres e frágeis dos seus países e, ao mesmo tempo, também eles, fecham os olhos às desumanas condições dos trabalhadores chineses, que chegam a ser quase de escravatura! Não se iludam, porque a China vai acabar por apoiar a propagação de partidos de extrema-direita na Europa, para desestabilização da União Europeia, tal como Trump apoiou o estapafúrdio Jair Bolsonaro! São todos, todos mesmos, farinha do mesmo saco.

Dir-me-ão que estou a apadrinhar  teorias da conspiração. Seja o que for, esta pandemia é de todo o interesse para os donos do mundo, os donos da guerra e da economia. Quando, há mais de trinta anos, Ronald Reagan se tornou o cavaleiro andante da guerra biológica como princípio, meio e fim em nome do seu império, restaurou-se o pensamento de Hitler, Staline e Mao: o de que a ciência (incluindo a saúde), o militarismo, a economia e outras áreas são um só corpo, um todo, sem destrinça e autonomia.

Na Roma Antiga, à parte das guerras sangrentas na expansão do império, os atentados com maiores resultados políticos para os agressores eram feitos pela via do envenenamento, método que, segundo alguns historiadores, muito contribuiu para o declínio do império. Só que, nessa altura, os alvos eram figuras bem identificadas. Esta e outras guerras biológicas que virão não discriminam pela positiva, são violência indiscriminada, matam e matarão ainda mais que as guerras convencionais do século XX. Porque, na sua gênese imperial, pensam (mas não dizem) que, tal como Osama Bin Laden pensava (e dizia), não há inocentes, todos são culpados. Nós, vítimas do terrorismo. Em nome do interesse público, da sobrevivência humana, até acham que estão a fazer caridade. E, por falar em Osama, não nos iludamos: ele foi uma criação dos EUA, primeiramente, útil na resistência afegã à antiga União Soviética e, depois, novamente, útil para justificar a existência de um inimigo, que deu muito jeito à economia de guerra de Washington. O mesmo aconteceu, noutras circunstâncias, com os amigos Saddam e Kadafi, tornados inimigos, a preceito das agendas de guerra. Ah, a propósito! Lembram-se da febre dos blogues, na primeira década deste milênio? Muitos cidadãos chineses, principalmente jornalistas, escritores e de outras profissões intelectuais criaram os seus blogues anônimos em servidores norte-americanos, onde escreviam diariamente e por vezes denunciavam violações dos direitos humanos próprias de uma ditadura. As repercussões de leitura foram de tal ordem, no país, que as autoridades de Pequim solicitaram às empresas proprietárias dos referidos servidores a identificação dos IP dos autores. Depois de algumas recusas, acabaram por fornecê-los com a cumplicidade das autoridades de Washington. Resultado: pouco depois, os autores foram julgados e condenados, alguns deles estão desaparecidos.

Ainda sobre a origem e gênese do novo coronavírus, por vezes reflito sobre a eventualidade de estarmos perante uma pensada longa marcha de Mao Tsé-Tung ou uma futura Guerra das Estrelas, idealizada por Reagan. Donald Trump, ao contrário do que imaginávamos no início do seu mandato, ainda não operou uma invasão militar – recentemente, implicou com o Irão, mas a aventura não foi avante. Por outro lado, a pandemia conseguiu adiar o problema da China quanto aos protestos em Hong Kong…

Para mim, os impérios são o que são: competem uns com os outros, lançam as suas guerras e, ao mesmo tempo, aliam-se, porque a existência de um depende da existência dos outros. EUA, China, Rússia e, em menor dimensão, Israel, certos países árabes e outros são, de facto, farinha do mesmo saco. Quando um declinar, os outros declinarão também. A história prova-nos que os impérios não são eternos – uns darão lugar a outros, mas numa ordem sequencial e não paralela.

Há acontecimentos na humanidade, tais como as pandemias, que parecem loucura dos deuses… Ou dos humanos?

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