Afeto e medo em tempos de crise

Não há “mito”, especialmente se fabricado às pressas,
que sobreviva à crise atual, com suas consequências
nefastas na saúde e na economia. Somente governantes e
líderes reais, morais, centrados e resolvidos com seus
afetos e batalhas particulares são capazes de sobreviver,
superar seus medos e guiar seu povo à terra firme.

Em tempos de crise, como o que estamos vivendo, o tema dos afetos ganha dimensão
e importância, talvez como nunca antes, pelo menos nos tempos modernos. O
“afeto”, enquanto conceito teórico, era recorrente no período Barroco, na medida em
que a música, o belo, e as curvas arredondadas e graciosas, influenciavam os
sentimentos e as emoções dos ouvintes e apreciadores, tendo em vista que as
partituras, e o conjunto de suas regras, davam vida a determinados recursos musicais e
estados emocionais específicos, na maioria das vezes, agradáveis, de gozo e deleite,
regados a enorme bem estar.

No período Histórico, por intermédio da música e da arte, os compositores e artistas
encontravam meios pelos quais exprimiam emoções e estados de espírito particulares,
com a finalidade de despertar e intensificar afetos.

Mas, de que “afeto” trato aqui?

Do “afeto” enquanto “afetação” – de como somos tocados, sensibilizados e de que
modo afetamos o ambiente e as pessoas ao redor. Dito de outra forma, que lugar
passamos a ocupar depois de sermos afetados por sentimentos ruins ou bons,
agradáveis ou desagradáveis, construtivos ou destrutivos, de segurança ou ameaças,
de certezas ou incertezas.

Spinoza[1], que dedicou parte importante de seus estudos a origem dos afetos, e a potência da mente sobre eles, entendia por “afeto” as afecções do corpo pelas quais uma potência de agir é aumentada ou diminuída. Portanto, as decisões da mente são tomadas tendo por base afetos e experiências vivenciadas na interação com outras pessoas, lugares, objetos etc.

Para Spinoza, somente amaremos um objeto ou ação quando afetarem habitualmente nossas mentes de alegria ou tristeza. Nosso bem estar e satisfação dependem de nossas memórias e lembranças sobre o bom e o ruim, o agradável e o desagradável, o belo e o feio.

Por óbvio, a localização geográfica, a cultura, as interações sociais, assim como o momento histórico, influenciam e determinam nossa forma de sentir e agir. Isto é, nossos afetos.

No campo da psicologia e da psicanálise, a “afetividade” é a capacidade do ser humano de experimentar tendências, emoções, paixões, sentimentos etc. São as atitudes, por conseguinte, que revelam o “afeto”.

O “medo”, o “temor” a “fobia” são estados afetivos suscitados pela consciência do perigo ou que, contrariamente, despertam essa consciência.

O “medo” nem sempre é um sentimento ruim. É o “medo” que nos move no sentido de proteção, de sobrevivência e de escapar dos perigos e ameaças. Por essas razões, crises e medos andam juntos e na mesma direção.

Quanto maior a crise e a escassez, maior será o “medo” de perder o que se tem e a quem se ama, ou seja, de perder os afetos.

A pandemia do Covid 19, dentre tantas outras afecções já passadas, trouxe consigo o “medo”. O “medo coletivo”, compartilhado com os demais, tanto nos níveis interno e internacional.

A cooperação e a solidariedade entre os povos, não conseguidas com grandes esforços de organizações internacionais importantes, como a ONU, OEA e OMC, dentre outras, são agora obtidas, surpreendentemente, por meio do sentimento comum do “medo”.

“Medo” da morte, do desabastecimento, do desemprego, do desconhecido, da solidão, da falta de prazer e da privação. “Medo” da incerteza, do imponderável.

Foi preciso um organismo viral, invisível, acelular, para unir pessoas, comunidades, grupos, etnias, tribos, adversários em uma só corrente – a do “medo”.

Não há “mito”, especialmente se fabricado às pressas, que sobreviva à crise atual, com suas consequências nefastas na saúde e na economia. Somente governantes e líderes reais, morais, centrados e resolvidos com seus afetos e batalhas particulares são capazes de sobreviver, superar seus medos e guiar seu povo à terra firme.

Antigas crenças e confianças, ainda que não tão longevas assim, não são mais capazes de unir as pessoas, antes irmanadas em uma só cruzada, ou levantá-las novamente diante de bravatas ficcionais.

As guerras, antes bélicas, tecnológicas e comerciais, que fizeram avançar e progredir tantos países, não são mais capazes de instaurar a paz e afastar o “medo”.

Chegou a hora de inventar e desenvolver novas ferramentas de salvamento físico e psíquico.

Uma breve história da humanidade, como a que nos conta Yuval Noah Harari,[2] em sua festejada obra “Sapiens”, revela que o grande diferencial do “homo sapiens”, em seu processo evolutivo organizacional de sobrevivência, deve-se à sua capacidade imaginativa de criar ficções e de acreditar nos mitos.

Parece que Harari, em breve, terá que acrescentar um novo capítulo em seu cultuado livro, relativo ao “fim dos mitos”, nas hipóteses nas quais estes não se dão conta de seus “medos” e inseguranças internos, e os recalcam; e, ademais, quando no interior desses “mitos” trava-se uma luta insana entre “Eros” e “Thanatus”. É sobre esses mitos, seus medos e nossos medos que trato aqui.

Certamente, sairemos maiores, mais fortes, maduros, afetivos e humanos desta crise viral.

Os traumas serão, como o tempo, curados e nossas sensações de alegria ou tristeza, empatia ou repulsa, segurança ou insegurança interferirão positivamente em nossos futuros (novos e renovados) desejos, afetos, relações e, especialmente, em nossas decisões e escolhas. São meus votos afetivos para depois da tempestade.

[1] Benedictus de Spinoza. “Ética”. Belo Horizonte: Autentica. 2018.

[2]Yuval Noah Harari. “Sapiens – Uma breve história da humanidade”. Porto Alegre: L&PM. 2018.

3 COMENTÁRIOS

  1. Um texto maravilhoso que vibra na luz e no bem. Temos um mapa de afetos que precisa ser esculpido todos os dias. Gostei muito dele. Tem muitas referências. Parabéns! Vamos sair sim, mais humanos e serenos se começarmos a praticar o amor agora.

  2. Querida
    Parabéns e muito maravilhosa as sua colocações servindo de aprendizado para quem tem a sorte de receber essa matéria escrita por você bj

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here