AS RAZÕES GEOPOLÍTICAS POR TRÁS DOS CONFLITOS ENTRE ARMÊNIA E AZERBAIJÃO

Existe o temor de que a qualquer instante um movimento inadequado possa gerar uma guerra total entre as duas ex-repúblicas soviéticas, e arrastar potências regionais, como Rússia e Turquia, para uma guerra  cujos resultados são imprevisíveis.

Enquanto o Azerbaijão é majoritariamente muçulmano, a Armênia é de maioria cristã. Caldeirão altamente explosivo quando se tem como vizinhos os xiitas do Irã.

 

Conflitos recentes elevaram a temperatura no Cáucaso, agravando ainda mais as relações nada pacíficas entre o Azerbaijão e a Armênia, países vizinhos que disputam a região montanhosa de Nagorno-Karabakh, situada no sudoeste do Azerbaijão e reconhecida pelas leis internacionais como parte do seu território. Contudo, os armênios étnicos rejeitam o domínio do Azerbaijão.

As disputas entre o Azerbaijão e a Armênia sob o território de Nagorno-Karabakh datam de 1920-1921, quando foram definidas as fronteiras entre esses dois países, então repúblicas socialistas soviéticas. Foi Josef Stalin, em 1921, quem decidiu que Nagorno-Karabakh, onde a maioria dos moradores eram armênios, teria o status de uma subdivisão administrativa e territorial autônoma  (Oblast) no Azerbeijão e não na Armênia.

Em 1988, os armênios que viviam em Nagorno-Karabakh declararam a intenção de se separar do Azerbaijão e unir-se à Armênia. Logo depois, em 1991, os armênios realizaram um referendo em Nagorno-Karabakh e declararam a independência da República de Nagorno-Karabakh. O revide foi um conflito sangrento na “Nova República” que levou 200.000 armênios a fugir do Azerbaidjão para Nagorno-Karabakh e Armênia, assim como 185.000 azeris fugiram da Armênia e 45.000 de Nagorno-Karabakh para o Azerbaijão.

Depois disso, os armênios étnicos, que constituem a maioria da população de Nagorno-Karabakh, cerca de 150 mil habitantes, passaram a rejeitar o domínio azeri. Daí porque, desde então, administram seus próprios assuntos com o apoio da Armênia. Desde que as tropas do Azerbaijão foram expulsas na guerra de 1990, a região de Nagorno-Karabakh depende quase que totalmente dos recursos enviados pela Armênia e das doações da diáspora armênia em todo o mundo.

Eis as razões, em traços largos, das rivalidades entre Azerbaijão e Armênia que já duram décadas, com perdas de soldados e de civis em ambos os lados.

Certamente, a comunidade internacional está atenta e reativa a tudo que se passa no Cáucaso.

Sabe-se que desde 1992, o “Grupo de Minsk”, formado por Rússia, França e Estados Unidos, associados a Belarus, Alemanha, Itália, Portugal, Holanda, Suécia, Finlândia e Turquia, assim como a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), têm tentado, por todos os meios diplomáticos e pacíficos, um cessar fogo na região e um acordo de paz entre Armênia e Azerbaijão.

Diante do recrudescimento dos conflitos e expressivo número de civis mortos na região, desde pelo menos os anos 80, a Assembleia Geral da ONU, em 2008, aprovou a Resolução 62/243, na qual exige a retirada imediata de todas as forças militares armênias de Karabakh.

Recentemente, no mês de setembro passado, os confrontos aumentaram na região de Nagorno-Karabakh, e mais civis foram mortos e outros desalojados de suas casas e obrigados a fugir para a Armênia ou Azerbaijão.

Em plena pandemia que assola a todos, os azeris lançaram uma forte ofensiva aero-terrestre, com blindados de última geração, drones e helicópteros, com massivo apoio material turco.

Mas o que está em jogo na guerra entre Armênia e Azerbaijão?

Por que  devemos nos preocupar com o xadrez regional no Cáucaso?

Por que especialistas têm advertido que as diferenças entre Azerbaijão e Armênia podem ser o estopim de um conflito ainda maior e mais sangrento no Cáucaso, região que separa a Europa da Ásia, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio?

As respostas convergem para o potencial que os conflitos entre Armênia e Azerbaijão têm de se transformar em uma crise ainda maior com consequências imprevisíveis. Isso porque, Turquia e Rússia, ademais de o Irã, têm interesses diretos na região.

A Turquia, país membro da OTAN, é aliada do Azerbaijão e não cultiva boas relações com a Armênia, por conta do genocídio dos armênios perpetrado pelos turcos no passado.

A Rússia, por sua vez, apoia a Armênia, mas também tem relações diplomáticas com o Azerbaijão. Entretanto, se os russos tiverem que optar por um dos lados, será o da Armênia, cuja localização é estratégica para acesso russo a outros países, ademais de manter em solo armênio importante plataforma militar e riscar seu território com um gasoduto vital para os russos escoarem óleo e outros derivados do petróleo.

Dias atrás, o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, num discurso no Parlamento turco, negou as acusações de que Ancara tem enviado combatentes sírios para  Nagorno-Karabakh, e reforçou o entendimento turco de que o controle do enclave deve ser entregue ao Azerbaijão.

A participação do Irá no acirramento dos debates se justifica na medida em que o país faz fronteira com a região.

Como se vê, existe o temor de que a qualquer instante um movimento inadequado possa gerar uma guerra total entre as duas ex-repúblicas soviéticas, e  arrastar potências regionais, como Rússia e Turquia, para uma guerra cujos resultados são imprevisíveis.

Enquanto o Azerbaijão é majoritariamente mulçumano, a Armênia é de maioria cristã. Caldeirão altamente explosivo quando se tem como vizinhos os xiitas do Irã.

Tudo indica que o ano 2020 não será lembrado apenas pela batalha contra a Covid 19.

 

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