Cidades globais demandam política externa coerente e madura

A diplomacia internacional mudou muito nas últimas décadas, porque o mundo também não é mais o mesmo.

Prefeitos e governadores devem ter papel ativo nos processos políticos de definição das prioridades das políticas dirigidas ao exterior, na medida em que muitos temas e questões da agenda global afetam diretamente os seus espaços urbanos.

A condução da política externa não é mais a mesma, como ficou evidente, especialmente, nos anos de presidência de Donald Trump. Durante quatro anos caóticos, pelo menos no que diz respeito às relações internacionais, os Estados Unidos deixaram formalmente o “Acordo de Paris sobre Mudanças Climáticas”, ignoraram compromissos com a “Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável de 2030”, e lançaram dúvidas sobre alianças de longa data, como a da OTAN, por exemplo. Tudo isso, certamente, comprometeu o chamado “soft power” americano.

Entretanto, mesmo com grande empenho, Donald Trump não conseguiu cancelar totalmente os compromissos dos EUA no “Acordo de Paris”. Em 2017, em sentido contrário ao da administração Trump, mais de 300 cidades americanas se comprometeram a manter o pacto climático em nível local. Ademais, desde o início do governo Trump, muitas cidades passaram a se envolver em uma variedade de esforços com vistas a preservar e até mesmo construir novas relações transnacionais, enquanto a Casa Branca parecia determinada a dar marcha à ré.

Enquanto Donald Trump atacava as Nações Unidas, a cidade de Nova York impulsionava o movimento voluntário de revisão local das “Metas de Desenvolvimento Sustentável” da organização. A cidade de Los Angeles empenhou-se em construir novas e mais fortes relações com o México, o segundo maior parceiro comercial dos EUA, mesmo enquanto o governo central erguia muros nas fronteiras e separava os membros das famílias que tentavam entrar no território americano.

As cidades americanas têm sido, indubitavelmente, líderes internacionais no que diz respeito à mudança climática, sustentabilidade e equidade.

Não se trata aqui do chamado fenômeno das “jurisdições anárquicas”, muito pelo contrário, as cidades americanas e muitas de suas regiões, condados e localidades têm contribuído com o modo (novo) de fazer política externa coerente e madura.

Tudo poderia ter sido pior e mais arriscado no cenário internacional, nos últimos quatro anos, não fosse pelas cidades, prefeitos e governadores dos EUA. E há inúmeras razões para aumentar o otimismo sobre a política externa subnacional nos próximos anos, quando Joe Biden chegar à Casa Branca.

Da análise do Plano de Governo do candidato eleito, Joe Biden, há menção clara sobre o papel fundamental que as cidades e regiões podem desempenhar na diplomacia, inclusive como porta vozes das primeiras tentativas que o novo governo fará no sentido de reestabelecer a liderança climática dos Estados Unidos.

Os assessores de política externa de Joe Biden, nos momentos iniciais de preparação da transição do novo governo, têm destacado que os benefícios do engajamento global devem ser tanto compartilhados quanto compreensíveis. Entendimento corroborado pelo prefeito de Oakland, Libby Shaaf, ao afirmar que o engajamento global mais do que nunca requerer legitimidade doméstica.

Não há dúvida de que as cidades e os governos subnacionais, não apenas nos EUA, como em tantos outros países, o Brasil aí incluído, estão ativos no palco global. Ademais, é inquestionável, também, que a política externa precisa ter ligações mais fortes com o plano interno/doméstico para, assim, angariar maior legitimidade e reconhecimento dos seus nacionais.

A diplomacia mudou muito nas últimas décadas, porque o mundo também não é mais o mesmo.

O aparato responsável pela condução da política externa deve priorizar o diálogo sobre questões importantes, como mudança climática, sustentabilidade, biodiversidade e a Covid-19, engajando as cidades, localidades e regiões, em nível doméstico, como também interagindo com redes de cidades e organizações não governamentais, tais como, apenas a título de exemplo, o “C-40 Cities Network”, a “Urban Sustainability Directors Network”, a “Metropolis and Cities for Health”, a “United Cities” e, por fim, mas não menos relevante, o “Parlamento Global de Prefeitos” (https://globalparliamentofmayors.org/).

Prefeitos e governadores devem ter papel ativo nos processos políticos de definição das prioridades das políticas dirigidas ao exterior, na medida em que muitos temas e questões da agenda global afetam diretamente os seus espaços urbanos. Até mesmo porque são eles que conhecem e têm expertise urbana, rural, de fronteira, imigração etc. Incluir os líderes das cidades, regiões e localidades nos processos e estratégias internacionais contribui para a legitimidade dos acordos entre os países, em nível doméstico, e melhora a qualidade das tomadas de decisões quando o país está negociando nos níveis bilateral, regional e internacional.

Para tanto, é fundamental que o quadro técnico de funcionários diplomáticos e demais agentes públicos encarregados das relações internacionais esteja melhor capacitado a explicar as questões globais empregando a linguagem e os termos locais. Da mesma forma, precisam desenvolver habilidade e competência para trabalhar em conjunto com equipes das prefeituras, governos e regiões de todo o país melhorando e facilitando o diálogo e as trocas de informação e conhecimento.

Para fazer política externa é preciso não apenas conhecer os problemas que integram a agenda internacional, como, também, torna-se imperioso conhecer seu próprio país, apoiando, inclusive, as cidades e regiões no que diz respeito à mudança e condução da geopolítica que também os atinge.

Como se vê, a diplomacia internacional contemporânea deve ser capaz e estar habilitada a fazer face a uma geopolítica tumultuada e em constante mutação. Muitos são, portanto, os desafios que vêm pela frente. Infinitas são as incertezas. Contudo, uma coisa é certa: a geopolítica exige cidades e estados subnacionais globais, capazes de interagir com a diplomacia internacional, e interconectar suas demandas de urbanização, mudança climática, desigualdade, fome, saúde, educação e cibernética, dentre outros temas, com as diretrizes da política externa nacional e com a agenda global.

 

 

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