Como a direita radical altera as relações de poder e separa os amigos

O poder costuma ser um potente estimulante, por isso atinge as pessoas em qualquer parte do mundo. Daí as crescentes preocupações com a ascensão ao poder de uma “Direita Radical” que arremessa muitos de nós ao empobrecimento geracional, intelectual, moral e ético. Ademais, nos conduz, dramaticamente, a um autoritarismo vulgar, xenófobo, homofóbico e tosco.

A palavra poder, derivada no latim “potere”, significa a capacidade ou faculdade de fazer algo, implica mando e imposição da vontade. Ao longo da história da humanidade, a sociologia e a filosofia têm discutido formas e teorias sobre o poder, sugerindo definições distintas, segundo os cenários históricos, políticos e sociais de cada época. Isso porque, o poder é uma força que permeia as relações sociais desde o início da sociedade humana.

O poder, com o evoluir da civilização, se faz sempre mais vivo, sobretudo, quando esgrimido em um embate de forças. Contudo, também pode ser nefasto enquanto força em si mesma.

Vários são os pensadores, em diferentes momentos históricos, que enfrentaram as questões relativas ao poder e seus efeitos, por meio de teorias sempre mais complexas. Entretanto, é com o filósofo francês Michel Foucault que encontramos reflexões mais contemporâneas sobre o tema. Pelo menos no que diz respeito ao poder que os outros podem exercer sobre cada um de nós e aquele que exercemos sobre as nossas próprias vidas. Em curso ministrado em 1983, no Collège de France, Foucault compartilhou questões que o preocupavam relacionadas ao poder, publicadas, mais tarde, em livro, no qual disserta sobre o que chama de “governo de si”, enquanto pessoal e intransferível, assim como sobre qual o limite que devemos impor ao governo dos outros sobre nós mesmos. A partir dessas reflexões, Foucault se situa em relação à sua herança filosófica e problematiza o status da sua própria fala e poder, enquanto intelectual de seu tempo[1].

Certamente, a Revolução Industrial e o advento do capitalismo liberal podem ser considerados marcos importantes no que diz respeito à forma pela qual o poder é exercido. Antes disso, as antigas monarquias concentravam o poder nas mãos do Rei e a ideia de um poder, como diz Foucault, era aquele de dimensão “macrofísica”, grande e concentrado.  A consequência disso era a diminuição do “governo de si”, ou seja, de cada indivíduo sobre si mesmo.

Com o capitalismo industrial liberal, o poder acabou se dissipando em várias instituições de controles diferentes, que passaram a fiscalizar os comportamentos sociais, prevenindo e corrigindo os que não se enquadram às normas sociais.

Para o filósofo italiano Norberto Bobbio existem várias formas de poder e diferentes meios de obtê-lo e exercê-lo na sociedade: o poder econômico, o poder ideológico, o poder político, o poder social etc. Daí porque, a teoria do “anarquismo” defende, justamente, a supressão do Estado e das instituições de poder.

A importância de voltarmos as atenções ao tema do poder, neste momento, está no inegável naufrágio da “Direita Liberal” e, por via de consequência, na emergência de uma “Direita Autoritária”. Fato inquestionável. Essa nova “Direita” abriga um ou mais grupos de indivíduos com capacidade de influenciar a sociedade, por meio de discursos, de seu carisma pessoal e pela posse de meios com grande capacidade de difusão de suas ideias.

Mas por que o poder tem sempre, e em todos os tempos, um efeito afrodisíaco sobre as pessoas?

A resposta é fácil: porque é sempre melhor ter um lugar na mesa de quem manda.

Em livro recente, a jornalista americana Anne Applebaum, vencedora do prêmio Pulitzer, quando escreveu extensivamente sobre o comunismo e o desenvolvimento da sociedade civil na Europa Oriental e Central, hoje editora da revista “The Economist”, publicou importante e atualíssima contribuição às discussões sobre o poder.

No livro “Twilight of Democracy: The Failure of Politics and the Parting of Friends”[2], Applebaum afirma que a palavra “Direita” mudou espantosamente nos últimos 20 anos e, com isso, a alocação do poder. No final do séc. XX e início do séc. XXI, a “Direita” acreditava ainda na democracia liberal, no mercado livre, nos sistemas de freios e contrapesos, assim como no Estado de Direito, na União Europeia e no multilateralismo.

Hoje, quando procuramos entender o que aconteceu com a “Direita”, vemos que pregam o contrário. Isto é, o nacionalismo econômico, o controle do poder judiciário, o isolacionismo internacional, o fim do mercado comum europeu, do comércio livre e da OMC. Se essa se consolidar como a “Direita de 2020”, diz-nos Applebaum que não vai mais fazer parte dela. Assim como muitos outros de nós.

E o pior é perceber que, são nesses momentos, nos quais intelectuais públicos revelam suas mudanças de posições e, também, suas frustrações e decepções com antigas escolhas, que perdem amigos. Esses se separam e, pouco a pouco, muitos deles, se transformam de pensadores importantes e consistentes em “cheerleaders” de sujeitos como Viktor Orbán, Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro, deixando transparecer uma disposição autoritária, até então camuflada, um gosto extravagante pela homogeneidade e o nacionalismo, bem como uma terrível inclinação a narrativas pobres, vazias e simplórias.

Os tempos atuais são, portanto, de imperiosa e urgente reflexão.

O poder costuma ser, sem dúvida, um potente estimulante, por isso atinge as pessoas em qualquer parte do mundo. Dai as crescentes preocupações com a ascensão ao poder de uma “Direita Radical” que arremessa muitos de nós ao empobrecimento geracional, intelectual, moral e ético. Ademais, nos conduz, dramaticamente, a um autoritarismo vulgar, xenófobo, homofóbico e tosco.

[1] Michel Foucault. “O governo de si e dos outros”. São Paulo: Editora Martins Fontes.

[2] Tradução livre: “Crepúsculo da Democracia: O Fracasso da Política e a Separação dos Amigos”.

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