Desconforto e tensão na civilização atual

Os sentimentos relativos ao luto, medo, melancolia, raiva, insegurança, incerteza, dentre outros, presentes no momento civilizatório atual, decorrentes das consequências sanitárias e econômicas da pandemia, implicam, sim, renúncia ao princípio do prazer, na medida em que, quando este se depara com o princípio da realidade, a satisfação e os desejos” (pela opressão, repressão ou falta) se frustram. É nesse momento que instintos poderosos direcionados ao prazer e a felicidade são severamente represados e recalcados.

Em tempos de crise, como o que estamos passando, talvez nunca tenha sido mais oportuna a releitura dos chamados textos sociológicos de S. Freud nos quais se dedica ao tema do desconforto (ou sofrimento) na “nossa civilização”. Dentre eles, cabe destacar: “Reflexões sobre o Tempo de Guerra e Morte” (1915), escrito logo após o início da Primeira Guerra Mundial, “Luto e Melancolia” (1915), “O Futuro de uma Ilusão” (1927), “O Mal Estar na Civilização” (1930) e “Por que a Guerra” (1933).

Em artigo recente,  também publicado aqui, associei aos textos de Freud o trabalho de reflexão sobre felicidade e sofrimento da pensadora e escritora americana de origem alemã, Hanna Arendt, no livro “O Homem em Tempos Sombrios”[1]. Nessa obra lapidar, escrita em meio a catástrofes políticas e desastres morais e éticos de todos os tipos, Arendt destaca o papel vital  que os sentimentos  de “amizade”, “coragem” e “respeito” possuem para o desenvolvimento do que chama de “amor ao mundo” e no  correlato princípio da “responsabilidade política”, interna dos Estados e também internacional.

O amor ao mundo é a consequência ética de toda a ação política, para Arendt. Consiste, portanto, em um genuíno interesse pela vida pública, cujo exercício promove espaços onde as singularidades podem divergir, dialogar, expor suas ideias e, acima de tudo, construir e agir em conjunto.

 Situações tão peculiares, como as atuais, assoladas pelo medo e a angústia e, especialmente, pelas incertezas do isolamento e do afastamento social, põem em cheque a ilusão de liberdade e a visão do futuro.

A angústia nos faz pensar se o novo mundo que se vislumbra pós pandemia será melhor ou pior, se a opressão do estado de direito, assim como aquela do mercado darão, efetivamente, origem a um mundo mais justo depois que a crise passar.

A atmosfera de cooperação e a busca do multilateralismo, essenciais na reconstrução do mundo no pós Segunda Guerra, parece terem sido deixados à própria sorte com o final do governo de Barack Obama. Depois dele, o mundo  regrediu diplomaticamente e passou a flertar perigosamente com o isolacionismo, o autoritarismo e o populismo retrógrado de Donald Trump, como também de outros falsos líderes que se instalaram em diversas partes do mundo.

A pandemia da Covid 19 nos atingiu em momento de grande fragilidade política – nacional e internacional. No início de 2019 já era evidente a sabotagem americana ao multilateralismo e à globalização solidária. A OMC foi paulatinamente perdendo relevância e saindo de cena, e com ela a busca do consenso e do comércio livre, pressupostos fundamentais para a manutenção da paz e da segurança internacional, até o golpe final, recentemente, com a demissão do seu Diretor Geral, o diplomata brasileiro, Roberto Azevedo.

Portanto, depois dos escritos de Freud, um novo “mal estar” já havia nos atingido antes mesmo da chegada do coronavirus, tal como acontece no filme “Melancolia”, de Lars von Trier[2], no qual o indivíduo se vê como uma célula que integra o todo e percebe sua finitude e limites – pessoais e temporais.

Para Freud, em o “Mal Estar na Civilização” (1930)[3], se não podemos afastar todo o sofrimento, podemos, de certa forma, nos distanciar um pouco dele e mitigar outro tanto. A experiência de muitos milhares de anos nos demonstra isso. O que chamamos de nossa civilização é, em grande parte, a responsável por nossa desgraça, para a qual todos colaboramos.

É inegável que os homens se orgulham de suas realizações e têm todo o direito de ufanar-se. Contudo, parece terem se dado conta de que o poder recentemente adquirido sobre o espaço e o tempo e a subjugação das forças da natureza não aumentaram a quantidade de satisfação prazerosa que poderiam esperar da vida e não os tornaram mais felizes.

Parece certo, portanto, que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, assim como já não nos sentíamos naquela reinante no século XX. Por outro lado, é difícil formar uma opinião sobre, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão.

Os sentimentos relativos ao luto, medo, melancolia, raiva, insegurança, incerteza, dentre outros, presentes no momento civilizatório atual, decorrentes das consequências sanitárias e econômicas da pandemia, implicam, sim, renúncia do princípio do prazer, na medida em que, quando este se depara com o princípio da realidade, a satisfação e os desejos” (pela opressão, repressão ou falta) se frustram. É nesse momento que instintos poderosos direcionados ao prazer e a felicidade são severamente represados e recalcados.

Contudo, privar de satisfação um instinto não se faz impunemente.

Se a perda não for economicamente compensada, sérios distúrbios se farão notar. É nesse momento que a humanidade precisa de alternativas políticas, sociais e culturais que possam manter o senso comum que nos une enquanto pertencentes à mesma família humana, e também nos guiar em segurança a terras firmes.

Não resta dúvida de que nos meandros da anterior ordem global, que vigorou até pouco antes da pandemia, reinava soberana uma onda de mal-estar – um “mundo Prozac”, aborrecido, repetitivo, vulgar e superficial.

Ainda é cedo para tirarmos lições da pandemia do coronavirus. Porém, uma conclusão já é certa: aproxima-se, ou espera-se que se aproxime, contrariamente ao que acontece no filme de Lars Von Trier (Melancolia), uma “Nova Ordem Civilizatória e Cultural”, associada e impulsionada por uma “Nova Onda Iluminista”.

A tempestade vai passar.

Mas o que não pode passar é a oportunidade de a crise parir um novo homem, em sua melhor versão. Isto é, um “homem do futuro”, do qual só tínhamos notícias até agora pelas lentes iluminadas de F. Nietzsche[4].

[1] Hanna Arendt.  “O Homem em Tempos Sombrios”. São Paulo: Companhia de Bolso. 1980.

[2] “Melancolia”. Um Filme de Lars Von Trier (online cimena.org)

[3] S.Freud. “O Futuro de uma Ilusão, o Mal Estar na Civilização e outros Trabalhos (1927-1931)”. Rio de janeiro: Imago. Volume XXI.

[4] In “Humano, Demasiado Humano – Um Livro Para Espíritos Livre” (Ed Companhia de Bolso).