Desejo e transgressão (à lei) na pandemia

Foto reprodução - Noticias ao Minuto

A transgressão é um jogo, no sentido de mobilidade, instabilidade e prazer. Jogo entre o impossível, o proibido, a castração, o gozo, o desejo, a desobediência, a contravenção, o incumprimento e a violação. É o desejo, com todos esses matizes, que está em jogo na transgressão e no desrespeito à lei.

Noticias recentes nos informam que, em plena pandemia, e submetidos às leis de proteção e defesa contra o coronavírus, pessoas desrespeitam as regras, aglomerando-se na Orla, levando caixas térmicas, cadeiras e guarda-sol, servindo-se dos ambulantes que vendem seus produtos sem recato. Não bastasse, agrupam-se em bares, restaurantes e casas noturnas. Tudo isso sem máscaras ou qualquer tipo de proteção própria e do outro, como se não nos espreitasse um perigo eminente.

Como justificar tais transgressões?

A resposta não é difícil.

A transgressão é o combustível do homem. Da mesma forma que o mar não apaga os limites entre a terra e a água, nas marés cheias, quando transborda, o mesmo ocorre quanto à transgressão e a lei. A transgressão não é a negação da lei, na medida em que a lei compreende também sua negação.

Logo, os banhistas e demais infratores das regras que vigoram durante a pandemia sabem o que estão fazendo, e o prazer está justamente no gozo, na realização de desejos, muitas vezes secretos e interditados. Não se trata apenas de buscar alívio aos meses de reclusão e privações. Entra em jogo nas transgressões algo de muito primitivo, recalcado, sublimado no aparelho psíquico dos transgressores.

Mas, uma coisa é certa: a lei não se anula quando transgredida, ou negada.

Transgredir a lei é, de certa forma, confirmá-la, reconhecer sua existência, validade e eficácia.

Há uma tensão permanente entre lei e transgressão, porque o desejo está sempre presente no ato de transgredir. Segundo G. Bataille[1], o desejo é implantado no homem graças ao erotismo, enquanto experiência de um desejo ilimitado que pode ir até a morte, seja do outro ou de si mesmo. O erotismo é, inevitavelmente, transgressor, e subsiste no homem enquanto movimento que sempre excede os limites, e nunca pode ser reduzido, senão, apenas, parcialmente.

O desejo, portanto, impele ao descomedimento, enquanto excesso, violência e destruição. O desejo é também autodestruição, perda de si e do outro.

Para J. Lacan[2], o descomedimento em direção à transgressão implica avançar em direção ao gozo, à satisfação. Dai porque, a plenitude do gozo corresponde a um momento de perda total de si: E que se danem as regras, os protocolos, os regulamentos, as salvaguardas, as máscaras e o álcool em gel. Dito de outra forma: a vida é aqui e agora!

A transgressão, consequentemente, abre o caminho para o gozo, mas até que ponto se justifica enquanto possibilidade de arriscar a vida de quem viola as regras e dos outros?

A justificativa está na sua majestade “O Desejo”, enquanto uma tensão em direção a um fim que é considerado, pela pessoa que deseja, uma fonte de satisfação. Por isso, essencial à vida humana – anímica e somática. O desejo se relaciona, ao mesmo tempo, com a lei simbólica (que bloqueia o gozo) e com a lei do outro (que comanda o gozo).

A transgressão precisa da lei para se pôr em ação, porque é, acima de tudo, uma violência contra a ordem do mundo.

Como se vê, o desejo e a transgressão fazem parte da condição humana, impossível controlá-los, limitá-los totalmente ou livrar-se deles.  A transgressão é um gesto que diz respeito ao limite. O limite, intransponível, inicialmente, pode ser ultrapassado. Contudo, a linha que se ultrapassa é aquela que se torna a encontrar logo à frente. Trata-se de uma ação contínua que se afirma no vaivém entre o limite e o ilimitado. Entre o gozo e a castração.

Vale a máxima: Há permitido porque há interdito.

É, justamente, do lado de lá da fronteira ultrapassada que o desejo se esconde.

Como diz Lacan, a transgressão é como uma porta entreaberta. Porém, ver uma porta entreaberta, não é atravessá-la. Ao atravessar a porta entreaberta há consequências próprias e para os demais.

Sendo assim, a transgressão é um jogo, no sentido de mobilidade, instabilidade e prazer. Jogo entre o impossível, o proibido, a castração, o gozo, o desejo, a desobediência, a contravenção, o incumprimento e a violação. É o desejo, com todos esses matizes, que está em jogo na transgressão e no desrespeito à lei.

Não é difícil concluir que o homem não consegue viver sem transgredir, uns mais, outros menos. O desejo de transgredir pode ser recalcado, sublimado pelos instintos de autopreservação, quando o princípio do prazer se submete àquele da realidade. Este último princípio não abandona a intenção de, fundamentalmente, obter prazer. Contudo, o princípio da realidade condiciona, controla, limita, exige e efetua o adiamento da satisfação, e o faz mediante o abandono de uma série de possibilidades de obter satisfação imediata, e no desenvolvimento de uma tolerância (temporária) ao desprazer – como uma etapa no longo caminho para o prazer.

Nesse embate de forças psíquicas, o homem também tem seu querer e seu agir condicionados à vontade geral da sociedade, que se descortina somente quando a razão, a moderação e a justa medida se apresentam como fatores responsáveis pelo divino na vida. O caráter divino da faculdade de pensar e refletir, segundo Platão (“A República”), está ligado à capacidade própria de o homem agir no sentido da criação: fazer o bem e não praticar o mal. Mas essas forças se debatem no interior do homem até mesmo quando dorme e sonha.

O homem moderno, desejoso e transgressor é, via de regra, um narcisista, muitas vezes cruel e sem remorsos.

A experiência que resulta da observação cotidiana parece demonstrar uma espetacular redução de vida interior. Na nova era do espetáculo e do consumo exagerado e supérfluo, a primeira vítima é a vida psíquica e, a segunda, a constatação do fracasso histérico do “vaudeville” burguês.

O homem-consumidor atual resulta da sociedade do espetáculo, das relações líquidas (Z.Bauman), da beleza lisa (Byung-Chul-Han), e tem seu imaginário em pane, caldo de cultura para o aparecimento de transgressores, narcisistas, perversos, falsas personalidades, estados psíquicos-limites e de novos psicossomáticos.

Em tempos prolongados de pandemia, que exigem, mais do que nunca, nossa qualidade de “res cogitans”, enquanto coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que imagina, que sente, que cuida de si e do outro, o homem se encontra só. Suas famílias, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e até ele mesmo não se reconhecem mais e, tampouco, se suportam. Então, o alívio, a satisfação e, seu correlato, o prazer, encontrarão abrigo sólido e recompensador temporário, na transgressão, na subversão da ordem.

Nesse contexto, o homem e a morte, assim como, o desejo e o sofrimento, a ordem e a desordem, ficam frente a frente, e se instaura o chamado “dualismo”, tão bem descrito por Olavo Bilac, em poema homônimo: “Não és bom, nem és mau: és triste e humano…Como se, a arder, no coração tivesses o tumulto e o clamor de um largo oceano…Capaz de horrores e de ações sublimes … não ficas das virtudes satisfeito, nem te arrependes, infeliz, dos crimes… E, no perpétuo ideal que te devora, residem juntamente no teu peito um demônio que ruge e um deus que chora”.

 

[1] BATAILLE, G. (1943) L’expérience intérieure. Paris: Gallimard, 1954.

LACAN, J. (1966-1958) “La direction de la cure”, in Ecrits. Paris: Seuil.

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