Dia Internacional da Mulher em tempos de pandemia

O Dia Internacional da Mulher, com a incidência da pandemia no mundo todo, passa a ter um acréscimo aos elementos historicamente reconhecidos de luta por melhores condições de vida e de trabalho, que é o reconhecimento da grande contribuição das mulheres que atuam na linha de frente no combate à COVID-19..

Com sua gênese no final do século XIX, a partir do movimento das mulheres para mudar uma realidade de desigualdades, pela jornada excessiva de trabalho, salários bem inferiores aos dos homens e sem qualquer direito de assistência à maternidade, mulheres de vários locais do mundo se organizavam em manifestações por conquistas sociais, políticas, profissionais e econômicas.

O dia 8 de março, especificamente, marca a manifestação de mulheres russas durante a Primeira Guerra Mundial (1917), que ficou conhecida como “Pão e Paz”, porém, o somente em 1975 a Organização das Nações Unidas reconheceu como o Dia Internacional da Mulher.

A data festiva representa, na realidade, um marco de conscientização sobre a importância da igualdade de direitos entre mulheres e homens que deve ir além do texto legal, que no Brasil, está no artigo 5º, inciso I da Constituição Federal, porque sem a concretização desses direitos não há democracia plena, justiça nem equidade.

A pandemia trouxe como reflexo uma sobrecarga de trabalho e responsabilidades para mulher em relação aos homens. Isso porque durante o período pandêmico as mulheres foram especialmente afetadas pelo aumento da carga de tarefas principalmente em casa. Se normalmente as mulheres sempre tiveram dupla, tripla ou mais jornadas de trabalho, no último ano acumulou suas atividades cotidianas com aquelas decorrentes da orientação do isolamento social, passando a acompanhar os filhos nas atividades escolares, em razão da suspensão das aulas presenciais e muitas, ainda, cuidando dos doentes e idosos da família.

O home office compulsório exigiu adaptações rápidas e alterações significativas na vida das mulheres, pois, administrar a casa e os cuidados com a família não é fácil.

Outro ponto considerado de perda para as mulheres em tempos de pandemia, foi o profissional, tendo em vista que pelo fato de ocuparem postos de trabalho em áreas consideradas “não essenciais” como, por exemplo, a estética (salão de beleza, academias e etc.) ou categorias de empregos informais, como diaristas, domésticas, cozinheiras, manicure, passaram a ter maior vulnerabilidade econômica.

Com o necessário afastamento social a partir de março do ano passado, os empregados domésticos foram os primeiros a serem demitidos e muitos, foram dispensados sem remuneração ou qualquer amparo trabalhista, dada a informalidade que, infelizmente, ainda é assente no campo das relações trabalhistas.

Mais uma vez, as mulheres foram as mais prejudicadas porque engrossam a fila dos trabalhadores informais. Com isso tudo, a saúde da mulher também sofreu grande impacto diante da redução alimentar, principalmente, durante a gravidez.

Por outro lado, na área da saúde e serviço social (público e privado), percentual relevante é de mulheres, perfazendo aproximadamente 70%, segundo dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do IBGE.

Como se pode perceber os efeitos da pandemia vão muito além dos problemas atuais e atingirão as futuras gerações porque não se pode calcular os seus nefastos efeitos na vida, na saúde e na sociedade. Nada será como antes e isso é incontestável.

O ano de 2020 também teria sido um momento especial na vida política das mulheres se não fosse a pandemia. O aumento de candidatas e eleitas foi inferior ao que se esperava, porque muitas mulheres abriram mão de seu projeto político pelo acúmulo de atividades que as impediram de fazer suas campanhas eleitorais.

Um outro importante aspecto que não se pode deixar de referenciar é o aumento de casos de violência contra a mulher, em todas as suas dimensões: verbal, psicológica, sexual, física, patrimonial e a pior delas, o feminicídio.

Chama a atenção o paradoxo entre a oportunidade da aproximação e o convívio familiar, decorrente do confinamento social e a vulnerabilidade da mulher quando mantida no mesmo espaço que seu agressor. Infelizmente, as políticas públicas de acolhimento andam a passos muito mais lentos que o aumento exponencial dos casos de todos os tipos de violências contra as mulheres.

Assim, é preciso redimensionar o Dia Internacional da Mulher homenageando as históricas precursoras da luta pela conquista de direitos das mulheres e aquelas que enfrentaram enfrentam a pandemia.

Por isso, nossa homenagem neste dia neste dia 8 de março de 2021, vai para as mulheres que estão na linha de frente nos hospitais, ambulatórios, postos de saúde e por consequência, em exposição ostensiva ao coronavírus, e também às as professoras que, não contempladas com a vacina em um primeiro momento, colocam suas vidas em riscos para cumprir as determinações de aulas presenciais em locais, no país, em que a contaminação cresce exponencialmente. São elas as nossas verdadeiras heroínas.

A essas mulheres, não cabe qualquer traço de vitimização porque não há tempo para isso. Tudo é urgente quando o colapso social está por acontecer, como tragédia anunciada pela falta dos cuidados necessários e providências políticas emergenciais que a situação exige, sobretudo no último biênio.

Homenageadas também são todas as mulheres do século XXI, que vivenciam a pandemia e sofrem por elas e por todos que delas dependem e por quem, certamente, dariam suas próprias vidas.

Render homenagens à elas é um exercício de cidadania!