ECOS E REVERBERAÇÕES DA PANDEMIA NA NOVA ORDEM MUNDIAL

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A “Nova Ordem Civilizatória” tem por desafios garantir que a comunidade internacional se paute, e se conduza, efetivamente, pelo regime democrático e que seu sistema de tomada de decisões inclua todos os países, e não apenas alguns deles. Ademais, terá que vencer anacronismos, assimetrias, impedir e bloquear os jogos de poderes entre os blocos econômicos, cujas decisões, via de regra, são tomadas sem levar em conta os países mais pobres. Sob essa “Nova Ordem” os países buscarão desenvolver e estimular maior e mais efetiva cooperação.
A capacidade de o indivíduo, desde a infância, se adaptar, reinventar e sobreviver às novas realidades produzidas diante das perdas e do luto, serve sempre como modelo, compondo um repertório reativo em experiências futuras novas e gratificantes.

A pandemia do coronavirus pode ser considerada o estopim de profundos rearranjos globais. A preocupação generalizada diz respeito a como se dará a reconstrução do mundo depois que a tempestade passar. No momento reina uma verdadeira “desordem” na comunidade internacional. “Desordem” no sentido de “certa ordem que convém aos países” no enfrentado da crise com reflexos na saúde e na economia. Os tempos são de fechamento e isolamento que geram, por assim dizer, um certo “equilíbrio instável”, isto é, quando a mudança é uma constante e inúmeras são as variáveis.

As dúvidas sobre o futuro são incalculáveis.

As consequências econômicas da pandemia podem gerar estragos sem precedentes nas economias nacionais, assim como naquela internacional.

Contudo, em meio a tantas dúvidas, despontam algumas certezas a indicar que vem aí uma nova conformação do mundo, uma nova (re)acomodação de poderes e jogos de interesses no já complexo tabuleiro geopolítico global.

As mudanças não são apenas de caráter global, como são também de ordem interna, psíquica dos indivíduos – forçados a entrar em uma nova realidade que não planejaram e, tampouco, sentem-se preparados.  Da mesma forma, a pandemia traz consigo efeitos nas ordens nacionais, domésticas dos países que, além de suas complicações rotineiras, passaram a ter que responder e fazer frente aos perigos reais da pandemia, e a ter que apresentar soluções imediatas aos sintomas sociais que afloram com enorme rapidez.

Frente a esse cenário, é certo afirmar que não estamos caminhando apenas em direção a uma “Nova Ordem Econômica Internacional”. Trata-se de um fenômeno muito mais profundo e transformador. Podemos afirmar, sem medo de errar, que estamos diante de uma “Nova Ordem Civilizatória”, cujo desafio é responder às novas demandas dos países e das pessoas que neles habitam.

A “Nova Ordem Civilizatória” tem por desafios garantir que a comunidade internacional se paute, e se conduza, efetivamente, pelo regime democrático e que seu sistema de tomada de decisões inclua todos os países, e não apenas alguns deles. Ademais, terá que vencer anacronismos, assimetrias, impedir e bloquear os jogos de poderes entre os blocos econômicos, cujas decisões, via de regra, são tomadas sem levar em conta os países mais pobres. Sob essa “Nova Ordem” os países buscarão desenvolver e estimular maior e mais efetiva cooperação.

Sob essa ótica, vale lembrar que FMI e o Banco Mundial estão comprometidos a prover o apoio que as pessoas e os seus estados membros necessitam, disponibilizando financiamentos, assim como a assistência técnica de que precisarem para superar os efeitos nefastos da pandemia. Além do mais, Insistem que a cooperação internacional é a melhor alternativa para lidar com o impacto do coronavírus na saúde e na economia. Igualmente importante, segundo esses dois importantes organismos internacionais de fomento, é o fortalecimento da confiança nas autoridades públicas e na mídia responsável.

As evidências de que se aproxima uma nova ordem global já eram percebidas desde antes da pandemia. Fatores importantes comprovam tal afirmação, dentre outros: a perda do protagonismo da ONU; o enfraquecimento da União Europeia, que acabou por se agravar, no curso da pandemia, com o fechamento das fronteiras nacionais, inclusive para os cidadãos europeus dos seus países membros, pondo em risco a livre circulação das pessoas e o Acordo de Schengen, pilares fundamentais da organização; os desgastes da OPEP e a queda do valor do petróleo; o aprofundamento do papel econômico da China, intensificado frente às ameaças sanitárias e econômicas; os esforços da Rússia na criação de um bloco oriental com a China e a Índia; a retomada da hegemonia dos EUA; o fortalecimento do dólar e as próximas eleições americanas.

Na avalanche de acontecimentos, e diante de um contexto dinâmico, é difícil traçar panoramas objetivos e definitivos diante da complexidade do cenário e das inúmeras variáveis que surgem a cada segundo.

Entretanto, uma nova conformação mundial pode ser observada sem grandes esforços.

No campo geopolítico internacional, o mundo revela novos rearranjos que tendem a se fortalecer durante e após a pandemia.

De um lado, é possível observar o chamado novo “Grupo Ocidental” composto pelos EUA e Inglaterra, recém saída da UE. Nesse bloco, outros países, aliados e concertados a essas duas grandes nações, poderão ingressar, inclusive o Brasil.

Por outro flanco, desponta o “Grupo Oriental”, composto pela China, Rússia e Índia, com vantagens demográficas e econômicas expressivas.

No centro, um pouco decadente, mas que ainda guarda certo charme, temos o “Bloco Europeu”, especialmente composto, na linha de frente, por Alemanha e França, logo atrás pela Itália, Espanha e Portugal, tentando ficar de pé e, na retaguarda, os demais países vizinhos com menor poder econômico, em cujos territórios a pandemia será ainda mais cruel – sob as perspectivas humanitária e econômica.

Isolado, em voo solo, podemos ver o Japão, que, entretanto, busca parceria com Taiwan e Singapura para comporem juntos uma forte ponta de lança dos EUA na Ásia.

Por certo, outras configurações podem ser apontadas. As elencadas acima são, digamos, assim, as mais óbvias no momento. Todavia, cabe destacar que, em toda e qualquer análise que se empreenda sobre os princípios e fundamentos da “Nova Ordem Civilizatória”, o “homem”, com suas necessidades, idiossincrasias e valores, terá sempre lugar de destaque e primazia.

A capacidade de o indivíduo, desde a infância, se adaptar, reinventar e sobreviver às novas realidades produzidas diante das perdas e do luto, serve sempre como modelo, compondo um repertório reativo em experiências futuras novas e gratificantes.

Sigmund Freud, em “Luto e Melancolia” (1915), afirma  que a reação à perda de um ente querido, mas também a algo que tome as mesmas proporções, é um fenômeno natural e constante durante todo o desenvolvimento humano. O enlutado sabe exatamente o que perdeu. O trabalho do luto é concluído quando a realidade prevalece e quando atingido certo grau de catexia – nesse momento a libido é desligada e o ego se vê livre e desinibido outra vez. Então, acontecem as restruturações interna (do “self”) e as externas, nacional e global.

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