Educar em tempos de quarentena: O que fazer em casa? Qual o papel da família?

É fundamental pensar em promover tempo de qualidade: investir
na convivência familiar, com muito espaço para diálogo, e em atividades que gerem aprendizagens para crianças e adolescentes

A casa ficou cheia de uma hora para a outra! Crianças e adolescentes não estão indo à escola -, não se sabe quando as aulas presenciais serão retomadas. Muitos pais seguem trabalhando fora, normalmente, e há uma parte trabalhando em casa, no esquema home office. Por um bom tempo, ninguém vai mais sair para brincar na rua, andar de bicicleta em praças e parques nem frequentar espaços públicos para fazer amizades e gastar energia da criançada… Tudo por causa da pandemia do novo coronavírus (COVID-19).

Como cuidar da educação da garotada? Independentemente do cenário proposto pela escola (determinação de um período de férias, suspensão das aulas, realização atividades escolares online ou impressas em livros e apostilas), o primeiro ponto que tem de ficar claro é que os pais não são professores e não devem se sentir responsáveis por dar conta de ensinar os filhos conteúdos curriculares. “Isso é e continua sendo tarefa dos educadores. É importante que os pais, nesse momento, se dediquem à pensar como promover tempo de qualidade, tanto no que diz respeito à convivência familiar como a atividades que gerem aprendizagens diversas para os filhos”, diz Roberta Panico, pedagoga e diretora de Desenvolvimento Educacional da Comunidade Educativa CEDAC (CE CEDAC), pois aprendemos o tempo todo. Mas diante do novo cenário, sem a rotina de ir à escola, toda ajuda familiar é mais bem-vinda – é necessária para que todos sigam aprendendo. O papel mais importante dos pais, nesse caso, é cuidar da rotina dos filhos para que exista tempo de fazer as atividades escolares e outras que favoreçam a aprendizagens diversas (convivência familiar, artes, jogos, etc).

No caso de famílias que têm filhos em escolas que não estão enviando propostas para os alunos ou de pais que não possuem acesso à internet, têm pacote de dados reduzido ou não possuem computador em casa, a sugestão é criar vivências em que a própria casa é um espaço de aprendizagem, de acordo com as possibilidades de cada um. Essas vivências nada mas são do que situações diversas que ajudam a desenvolver, entre outras habilidades, a autonomia, a expressão corporal e o pensamento matemático, além de estreitar os laços familiares. Mais uma vez, é importante compreender que o propósito não deve ser suprir o papel da escola. Confira algumas propostas simples, porém interessantes e valiosas, para esse momento de reclusão:
– Convidar os filhos para conversar, respondendo a simples perguntas mas que podem render até horas e horas de diálogo sincero e envolvente. Confira 100 perguntas (material desenvolvido pela Comunidade Educativa CEDAC para o Movimento Todos Pela Educação). sobre sentimentos, cultura, esporte, educação, a criança e o jovem e o mundo, que podem ajudar a orientar o bate-papo em família.
– Jogar, criar e montar novos jogos para estimular o pensamento matemático, como dominó.
– Estimular que os filhos – os menores, com ajuda dos adultos, é claro – sirvam o próprio prato de almoço, aprendendo a dosar quantidades e colaborem no momento de pôr e tirar a mesa.
– Convidar as crianças para brincadeiras de roda e de palmas, para desafios de trava-línguas, recitar parlendas, inventar rimas…
– Fazer momentos de contação de histórias e de leitura de livros ou também de qualquer material escrito, como panfletos com informações relevantes, notícias de jornal ou recebidas pelo celular, em voz alta (no caso de crianças pequenas).

– Sugerir momentos para desenhar com giz e lápis de cor, e pintar em diversos suportes, como papel, azulejo (da cozinha, do banheiro…) e o próprio corpo (inclusive com tintas naturais, como a da beterraba).

– Participar de momentos de leitura silenciosa (no caso de crianças maiores), acompanhando o desenrolar da história e convidando para que contem sobre o trecho  lido recentemente.
– Pedir colaboração na organização da rotina do dia a dia das tarefas da casa: arrumar a cama, tirar o lixo do banheiro, guardar os brinquedos e outros objetos da casa antes de dormir.

– Estimular momentos de faz de conta e disponibilizar objetos variados (utensílios de cozinha, bijuterias e bolsas, por exemplo) para que sejam usados nas narrativas inventadas pelos pequenos.
– Sugerir que as crianças que estão em fase de alfabetização escrevam, da maneira que conseguirem, o próprio nome e o nome de familiares e palavras que tenham interesse.
– Fazer do momento de higiene pessoal, um tempo para aprender sobre a importância do autocuidado: escovar os dentes com cuidado e corretamente sempre após as refeições e lavar as mãos com atenção depois de brincar e antes de comer para eliminar sujidades e combater a proliferação de vírus, como o coronavírus e outros.

“Ainda é importante, se possível, que a família mantenha contato com a escola para estabelecer um diálogo a fim de ampliar o repertório de propostas para os tempos de quarentena”, fala Roberta. Algumas instituições estão em conversa com as famílias por meio de grupos de Whatsapp e mandam mensagens de tempos em tempos.

E, no caso de alunos que estão recebendo demandas da escola, é esperado que pais e responsáveis:
– Falem com a escola sobre o esquema adotado para as aulas/propostas virtuais. É importante que professores deixem claro o que esperam dos alunos, como deve ser feita a entrega das tarefas, o que é atividade obrigatória e o que é facultativa, o que pode ser feito com consulta a materiais e o que deve ser encarado como prova, qual é o espaço para tirar dúvidas, etc.
– Organizem um espaço adequado para o estudo e estipulem uma rotina, com horários para realização das atividades, brincadeiras e lazer

– Conversem com os filhos com frequência sobre quais são as tarefas, como eles estão se saindo, etc. Durante o tempo de home office, pode ser uma boa pedida dividir o espaço com os filhos, enquanto eles fazem as tarefas, para assim criar um momento de coletivo


Sobre a
CE CEDACA Comunidade Educativa CEDAC é uma organização social que, desde 1997, trabalha com redes públicas de ensino na formação continuada de profissionais da educação para a oferta de uma educação pública de qualidade para todos. A atuação da equipe compreende as áreas de formação e desenvolvimento profissional de educadores, mobilização da sociedade civil pela educação, assessoria a gestores públicos e produção de conteúdo e publicações.

Roberta Panico – Diretora de Desenvolvimento Educacional da Comunidade Educativa CEDAC. Pedagoga por formação, sempre atuou trabalhando diretamente ou assessorando Rede Pública de ensino. Foi professora em Embu e Taboão da Serra em SP, onde implantou e coordenou a Educação para Jovens e Adultos (EJA). Atuou como formadora do programa Parâmetros em Ação e assessorou a Coordenação de EJA do Ministério da Educação (MEC). Coordenou e co-produziu a Proposta Curricular de EJA do 2º segmento do MEC e contribuiu na elaboração e implantação do projeto PIC – Programa Intensivo do Ciclo da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, em 2006. Participa da Comunidade Educativa CEDAC desde 2003, onde começou como coordenadora regional do Escola que Vale. A partir de 2008, passou a coordenar os projetos e publicações na área de gestão escolar e educacional e, em 2010, os Arranjos de Desenvolvimento da Educação. Foi consultora pedagógica da revista Nova Escola – Gestão Escolar. Atualmente, como diretora, tem atuação em todos os projetos que possuem como foco o desenvolvimento das Redes de Ensino, seja na formação de gestores educacionais e escolares ou na mobilização pela educação da sociedade civil.