Ei psiu? Cadê você? Por onde anda você!

Com Gilda Matoso - Foto: Arquivo da Página oficial Vinicius de Moraes na internet

Onde anda você?

E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam os seus olhos
Que a gente não vê
Onde anda esse corpo
Que me deixou morto
De tanto prazer

E por falar em beleza
Onde anda a canção
Que se ouvia na noite
Dos bares de então
Onde a gente ficava
Onde a gente se amava
Em total solidão

Hoje eu saio na noite vazia
Numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares
Que apesar dos pesares
Me trazem você

E por falar em paixão
Em razão de viver
Você bem que podia me aparecer
Nesses mesmos lugares
Na noite, nos bares
Onde anda você

Vinicius de Moraes

A pandemia do coronavírus (Covid-19) tem mudado o cenário social nos últimos meses e trazido impactos de várias ordens à vida das pessoas. “A desigualdade (material e imaterial), maior problema do Brasil, se agudiza e isso mostra como temos acessos muito diferentes aos serviços de saúde, à informação, aos cuidados e ao autocuidado”, segundo Marília Veronese.

Nesse momento, o mais importante é cuidar de si e do outro, ouvir e ser ouvido, e fortalecer-se nos vínculos de afeto e aprendizado mútuo. “É muito importante fomentar a entreajuda, a conversa e diálogo, por meios virtuais ou a distância segura, pois precisamos mais do que nunca de amparo. Somos seres relacionais e de vínculos, desde que nascemos, estabelecemos vínculos sócio-afetivos, ou sequer vingaríamos como espécie. Nossa cognição funciona articulada com nossos afetos”, explica Marília.

Para o professor José Eli da Veiga, num curto prazo, será difícil apontar algum efeito colateral benéfico desta crise. Mas, em alguns anos, quando essa pandemia estiver superada, provavelmente com o aparecimento de alguma vacina, certos efeitos positivos poderão ser notados. “É preciso pensar a longo prazo, como, por exemplo, o que poderá acontecer lá em 2030, quando talvez poderão se observar os efeitos de um eventual recuo das petrolíferas e um avanço das energias renováveis, apesar de isso ainda não acontecer”, observa o professor. De imediato, o que pode ser notado é que muita gente tem sido obrigada a entrar no mundo digital. “A única sobrevivência dos negócios está apontando para o mundo digital.”

A Covid – 19 mudou nossas vidas. Não estou falando aqui simplesmente da alteração da rotina nesses dias de isolamento, em que não podemos mais fazer caminhadas no Minhocão ou ir aos nossos bares e restaurantes preferidos. Sim, rudo isso mudou nosso cotidiano – e muito mais. Mas o meu convite para você é para pensarmos nas mudanças mais profundas, naquelas transformações que devem moldar a realidade à nossa volta e, claro, as nossas vidas depois que o novo coronavírus  baixar a bola. Por isso talvez seja melhor mudar o tempo verbal da frase que abre este texto e dizer que o coronavírus vai mudar as nossas vidas. Mas como? Que cenários prováveis já começam a emergir e devem se impor no mundo pós-pandemia?

Vários futuristas internacionais dizem que o coronavírus funciona como um acelerador de futuros. A pandemia antecipa mudanças que já estavam em curso, como o trabalho remoto, a educação a distância, a busca por sustentabilidade e a cobrança, por parte da sociedade, para que as empresas sejam mais responsáveis do ponto de vista social.

Outras mudanças estavam mais embrionárias e talvez não fossem tão perceptíveis ainda, mas agora ganham novo sentido diante da revisão de valores provocada por uma crise sanitária sem precedentes para a nossa geração. Como exemplos, podemos citar o fortalecimento de valores como solidariedade e empatia, assim como o questionamento do modelo de sociedade baseado no consumismo e no lucro a qualquer custo.

Confira as 10 tendências para o mundo pós-pandemia

  1. Revisão de crenças e valores
  2. Menos é mais
  3. Reconfiguração dos espaços do comércio
  4. Novos modelos de negócios para restaurantes
  5. Experiências culturais imersivas
  6. Trabalho remoto
  7. Morar perto do trabalho
  8. Shopstreaming
  9. Busca por novos conhecimentos
  10. Educação a distância

Estabelecimentos antes lotados, agora fechados; ruas dominadas por carros e transeuntes, esvaziadas; escolas e universidades presenciais, agora em modo digital para os mais privilegiados; conhecidos tratados como desconhecidos, sem as cortesias do contato físico; e o silêncio dominical invadindo os dias da semana representam grandes mudanças no cotidiano. Confinados dentro dos lares e ilhados por informação (de qualidade ou não), as emoções negativas podem dominar, entre elas confusão, ansiedade e, principalmente, solidão.

Diante de um inimigo invisível, muitas pessoas buscam por explicações que julgam estar à altura da calamidade pública. Muitas vezes, o refúgio para o medo está nas desinformações, notícias falsas (fake news) e teorias conspiratórias. Ficamos vulneráveis ao espalhamento das notícias negativas, tão contagiosas quanto o próprio vírus, e os temores se amplificam. Nessa hora, o distanciamento social pode exacerbar a alienação, desumanização, discriminação e violência subjacentes à vida contemporânea na era da informação (ou digital).

“Para lidar com a solidão é importante usar as várias tecnologias de conexão de duas vias, que permitam encontros simultâneos entre as pessoas. A forma como interagimos tem origem na sincronização de movimentos, de sons, etc. Nesse momento, muito disso está restrito pelo isolamento. Mas o velho e bom telefone assim como as salas de conversa, como Zoom e Google Hangouts, podem ajudar bastante”, enfatiza Boggio e acrescenta, “A solidão também pode ser combatida com atividades em que as pessoas se sintam coletivamente engajadas tanto em ambientes virtuais (por exemplo, aulas de meditação online, clubes de leitura e conversa, apresentações musicais), quanto por atividades reais (por exemplo, rodízio de pessoas entregando medicamentos e alimentos àquelas que fazem parte dos principais grupos de risco).”

Belos exemplos de solidariedade, cooperação, altruísmo, empatia e compaixão também transbordam mundo afora seja entre familiares, vizinhos ou desconhecidos. Simples atitudes como ajudar com compras, entregar correspondências e falar ao telefone ganham novos contornos e significados em uma sociedade antes magnetizada e hibernada pelos smartphones, mesmo em meio ao convívio social intenso.

E assim fechamos…

A cura (ou No tempo da pandemia)

E as pessoas ficaram em casa
E leram livros e ouviram música
E descansaram e fizeram exercícios
E fizeram arte e jogaram
E aprenderam novas maneiras de ser
E pararam
E ouviram mais fundo
Alguém meditou
Alguém rezava
Alguém dançava
Alguém conheceu a sua própria sombra
E as pessoas começaram a pensar de forma diferente.
E as pessoas curaram.

E na ausência de gente que vivia
De maneiras ignorantes
Perigosos, perigosos.
Sem sentido e sem coração,
Até a terra começou a curar
E quando o perigo acabou
E as pessoas se encontraram
Eles ficaram tristes pelos mortos.
E fizeram novas escolhas
E sonharam com novas visões
E criaram novas maneiras de viver
E curaram completamente a terra
Assim como eles estavam curados.

Catherine M. O’Meara

Enfim tudo vai passar e tudo vai mudar, para melhor…

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