EUA OU CHINA: QUEM VAI FICAR COM A ÁFRICA?

Se, de um lado, os EUA precisam parar no box para rever suas estratégias geopolíticas, por outro, a China parece consolidar sua “pole position”.

As relações econômicas entre China e África cresceram exponencialmente nos últimos anos – 70% de todo o comércio africano é com a China.

Os últimos lances da nova “guerra fria”, agora entre EUA e China, acontecem no continente africano, que se tornou palco de tensões entre as duas grandes potências mundiais, especialmente em razão da pandemia. A África, hoje, conta com mais de 1 milhão de casos de Covid 19 e cerca de 27 mil mortes. Contudo, buscar justificativas para o adensamento do estresse entre essas nações apenas no combate à pandemia no continente seria subestimar a estratégia expansionista da China, e superestimar a intenção dos EUA de ajudar os africanos a enfrentarem a crise de saúde que os assola.

Já faz um bom tempo que a China segue impetuosa no plano de aumentar sua influência pelo mundo, e aproveita a oportunidade para cravar sua bandeira em solo seguro da África. Os EUA, por outro lado, parecem demasiadamente aborrecidos com o crescimento dos chineses no continente distante, bem como com sua possível ampliação para outros pontos do mundo. A África, para os americanos, é mais uma movimentação estratégica, dentre tantas outras, bem conduzidas, no novo tabuleiro geopolítico em formação desde pouco antes da pandemia.

A nova guerra fria em curso entre os dois gigantes parece confirmar, portanto, que a história se repete como farsa.

Na plateia desse grande teatro, os africanos aproveitam para mandar um recado aos EUA. Se estão, de fato, insatisfeitos com a neo-influência chinesa no continente devem, então, aumentar seus investimentos por lá.

E estão certos.

Recentemente, em julho, a China assinou um protocolo para a construção da nova sede do “Centro de Controle de Doenças da União Africana”. Um prédio de 40 mil metros quadrados, em Adis Abeba, capital da Etiópia, ao custo inicial de U$ 80 milhões de dólares (R$ 449 milhões). Sob a justificativa de ajudar no combate a pandemia da Covid 19, esse “Centro” tem vocação de ir além, isto é, auxiliar o continente africano a enfrentar suas chagas abertas na saúde pública. O próprio Presidente Xi Jinping presidiu a reunião na qual esse documento foi assinado, e garantiu manter apoio incondicional chinês no desenvolvimento de todos os países da região.

Para os EUA, a China atropelou as negociações em curso entre americanos e africanos, no campo da saúde e, do nada, resolveu bancar o “Centro” sozinha.

Os chineses rebatem alegando que suas relações com os africanos são antigas. Tanto é verdade que foram eles, os chineses, que construíram a sede da mais importante organização internacional daquele continente conhecida como “União Africana” (UA). Esta congrega os 55 Estados-Membros que compõem o continente africano e tem sua sede também na capital da Etiópia, Adis Abeba.

Mesmo sendo antiga a parceria entre chineses e africanos, os EUA temem espionagem dos chineses, que usariam, segundo D. Trump, a nova sede do “Centro de Controle de Doenças” para grampearem autoridades mundo a fora. Razão pela qual, os americanos também nunca apoiaram a União Africana (UA) que seria, também, segundo eles, um local para prestar serviços de inteligência para Pequim – sob o disfarce de organização internacional voltada ao desenvolvimento do continente.

Certamente, os chineses aproveitam todas as oportunidades para solidificar e multidiversificar sua influência na África (e no mundo) e, diferentemente dos americanos, têm demonstrado total e irrestrito apoio ao etíope Tedros Adhanom, Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS). E com isso angariar a simpatia dos africanos.

Enquanto isso, D. Trump bate a cabeça nos âmbitos interno, com eleição que se aproxima, e internacional – no qual mais derrubou pontes do que levantou, nem mesmo consolidou as já existentes.

Não há dúvidas, ao se alinhar aos chineses, os africanos estão pensando em seus interesses. São os chineses que conseguiram, nos últimos anos, os maiores projetos em infraestrutura e celebraram os mais importantes contratos de exportação de matérias primas, por meio de grandes e milionários “business plans”.

Enquanto isso, os EUA resistem a negociar com a União Africana (UA) que está focada na melhoria do comércio internacional e das condições de vida das populações de seus países membros. Os EUA são contra a celebração de um único acordo de livre comércio com a UA, e preferem recorrer à sua antiga e superada estratégia de negociar acordos apenas bilateralmente. Sabe-se que, assim agindo, os EUA têm mais força de empurrar goela abaixo de cada país africano, separadamente, acordos nos quais os EUA obtêm retorno imediato, ao passo que o outro se beneficiará somente a longo prazo. Ademais, nesses acordos bilaterais, os EUA conseguem afastar o sistema de solução de controvérsias da OMC para outro sob a jurisdição americana.

Responsável pelo enfraquecimento do maior polo de multilateralismo do mundo, a OMC, os EUA retomam seu “Old Bilateralism”, dos anos 70 e 80 e, no que diz respeito à África, focam em áreas de cooperação que atendam seus interesses e prioridades direta e imediatamente, como, por exemplo, incentivos e investimentos em combustíveis fósseis, gás e segurança, os quais, como se sabe, são insuficientes para os africanos.

Se, de um lado, os EUA precisam parar no box para rever suas estratégias geopolíticas, por outro, a China parece consolidar sua “pole position”.

As relações econômicas entre China e África cresceram exponencialmente nos últimos anos – 70% de todo o comércio africano é com a China. Os chineses alegam que estão oferecendo uma espécie de “Plano Marshall” para a África em pleno séc.XXI, e são eles, os chineses, que a cada dia constroem um hospital, escola ou centro de pesquisa em algum dos países da União Africana. E os africanos agradecem abrindo-se ainda mais ao Oriente.

Enquanto os cães ladram aqui por perto, as caravanas passam lá longe.

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