Livros de ativistas pró-democracia desaparecem de bibliotecas em Hong Kong

Livros de autoria de ativistas pró-democracia de Hong Kong têm sido retirados do catálogo das bibliotecas públicas do território, mostram sistemas de consultas online, dias após a entrada em vigor de uma rígida lei de segurança nacional imposta pelo governo chinês.

Entre os livros que foram retirados estão títulos escritos por Joshua Wong, um dos ativistas pró-democracia mais conhecidos da cidade, e Tanya Chan, uma parlamentar filiado ao Partido Cívico, uma legenda liberal e pró-democrática. Ambos ganharam proeminência em 2014 durante a Revolução dos Guarda-chuvas, como ficou conhecida a série de protestos para pedir eleições livres no território.

De acordo com o jornal South China Morning Post, pelo menos nove títulos sumiram das bibliotecas. Entre eles estão títulos do acadêmico Chin Wan, considerado o ideólogo do movimento para a autonomia de Hong Kong

Joshua Wong foi o primeiro ativista a chamar a atenção para a remoção dos seus livros neste domingo (05/07). “Menos de uma semana após a implementação da Lei de Segurança Nacional, as bibliotecas públicas de Hong Kong começaram a colocar os livros em revisão e a suspender os empréstimos, incluindo dois dos meus livros, publicados em 2013 e 2015”, escreveu Wong no Twitter, ilustrando a mensagem com a foto da pesquisa no site rede de bibliotecas do território. “Hong Kong vive, agora, numa sociedade orwelliana do século 21”, completou.

O Departamento de Lazer e Serviços Culturais de Hong Kong, responsável pela gestão da rede de bibliotecas públicas, confirmou a retirada dos títulos  do catálogo enquanto durar uma análise para apurar se as obras violam ou não a nova lei de segurança nacional. “Durante o processo de análise, os livros não estarão disponíveis para empréstimo”, disse o departamento.

Promulgada na última terça-feira pelo Presidente chinês, Xi Jinping, após ser adotada pelo Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional, a nova lei prevê punições severas para quatro tipos de condutas consideradas contra a segurança do Estado: atividades subversivas, secessão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras que ponham em risco a segurança nacional.

Hong Kong foi devolvida pelo Reino Unido à China em 1997 sob um acordo que garantia ao território 50 anos de autonomia e liberdades que não são aplicadas no resto da China, sob um mecanismo de “um país, dois sistemas”. Mas a nova lei vem sendo encarada por críticos como um evento que efetivamente marca o fim das garantias especiais ao território.

Até o momento, dez pessoas foram presas por acusações no âmbito da nova lei, que inclui sentenças de prisão perpétua e permite que suspeitos sejam julgados na China continental em alguns casos.

A legislação foi amplamente condenada por países como EUA e Reino Unido, além de grupos e ativistas de direitos humanos. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse: “[A China] prometeu 50 anos de liberdade ao povo de Hong Kong e deu apenas 23.”

Já ONG Anistia Internacional afirmou em comunicado que a lei representa uma grande “ameaça” aos direitos humanos em Hong Kong e que “a partir de agora a China terá o poder de impor as suas leis contra qualquer um que considerar suspeito de cometer um crime”.

“A velocidade e o sigilo com os quais a China adotou essa legislação aumentam o medo de que Pequim tenha criado uma arma de repressão para usar contra críticos do governo, incluindo pessoas que apenas expressam as opiniões de maneira pacífica”, disse o chefe da organização para a China, Joshua Rosenzweig.

Entre 2015 e 2016, a China já havia sido acusada de tentar suprimir a divulgação de livros de ativistas pró-democracia no caso conhecido como os “Desaparecimentos da Causeway Bay Books”, quando cinco livreiros de uma livraria conhecida por vender títulos críticos aos líderes de Pequim foram detidos por vários meses na China continental.

Fonte: DW