Lotação: Seção Técnica de Crimes Contra a Vida
Atuação: Perícias de local de morte violenta.

A perícia criminal é uma das carreiras da polícia científica, um ramo da atividade policial que aplica métodos específicos para a coleta de provas materiais que ajudam a deduzir a ordem dos fatos e a autoria dos crimes investigados. Pelos desafios exigidos pela área, como analisar cenas de crimes violentos, manipular cadáveres e correr diversos riscos em locais insalubres, a profissão costuma ser mais associada aos homens.

Em publicações de ciências forenses, pesquisadores acreditam que seriados de televisão com temática policial e protagonistas femininas atuando como peritas ajudaram no crescimento da participação de mulheres nessas áreas. Ainda que a presença feminina não seja tão marcante nas áreas STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), é avassaladora na ciência forense: os principais cursos especializados para trabalhar na área de ciência forense são feitos por mulheres, alguns até somando acima de 70%.

No Brasil também não é diferente, o número de mulheres que atuam na perícia criminal tem aumentado consideravelmente, principalmente em locais de morte violenta.

Uma perita em especial tem nos chamado atenção, Michelle Moreira Machado. Perita Criminal de MG desde 2009. Lotada desde 2014 na Seção Técnica de Crimes Contra a Vida, atuando em perícias de local de morte violenta. Professora e palestrante na área de Perícia Criminal. Professora de Criminalística. Autora do e-book de questões comentadas de Criminalística. Editora associada da Revista Criminalística e Medicina Legal. Possui graduação em Veterinária e Mestrado em Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal pela Universidade Federal de Minas Gerais. Com seu rostinho de “fadinha de desenhos infantis”, delicada, meiga, em suas redes sociais, tem compartilhado suas experiências relativas a sua prática profissional e tem movimentado, além de chamar atenção da vida dos amantes da perícia criminal.

Bora saber um pouco mais da vida profissional de Michelle…

Algumas pessoas dizem que o perito que atua em local de morte violenta é uma pessoa fria, mas, com meus 12 anos de perícia, discordo de tal afirmação. Trabalhando nessa área, mudei minha visão sobre a vida. Ver a morte tão de perto me fez aceitar e crer que realmente a vida é uma breve passagem. Me tornei uma pessoa mais desconfiada, mas ao mesmo tempo mais sensível aos pequenos detalhes do dia a dia.

Michelle Moreira Machado. Perita Criminal de MG desde 2009. Lotada desde 2014 na Seção Técnica de Crimes Contra a Vida,

Minha primeira experiência foi na Academia de Polícia. Durante as aulas de Crimes Contra a Vida, eu tinha um verdadeiro choque e pensava que a profissão não serviria para mim, que eu não seria capaz de desempenhá-la. Mas já nas primeiras aulas práticas, lidando com casos reais, eu passei a entender melhor o trabalho do perito e que em um local de crime a morte, com todo respeito à vítima, vira um detalhe. Obviamente, tem casos que nos marcam. Enfim, a área pela qual eu tanto temi na Acadepol, tornou-se minha paixão e onde trabalho atualmente.

A perícia não era minha opção quando terminei minha graduação. Na verdade, eu não conhecia a profissão e resolvi prestar o concurso porque eu precisava trabalhar, pagar minhas contas. Hoje vejo que foi o acaso mais feliz da minha vida, pois eu me encontrei na profissão, eu a exerço com muito carinho e dedicação.

Não é fácil lidar com tanta violência, com mortes, então o que eu sempre busquei foi uma reflexão sobre o que é a vida, tornar as experiências em aprendizados.  Tem um texto que eu gosto muito, de autoria desconhecida, gostaria até mesmo de saber quem o escreveu, pois acho fantástico, que diz muito sobre isso: “Se afeta minha vida? Afeta sim, dói, machuca. Você passa a olhar para os lados, ficar desconfiado. Muita coisa na sua vida acaba mudando, às vezes eu acredito que a gente se embrutece. É tanta violência que acabamos nos tornando mais duros, mais brutos, mas sem deixar de ser sensível pelas pequenas coisas. É aí que nós começamos a prestar atenção nos detalhes, a valorizar o banho de chuva, o pôr do sol, e aí a vida começa a ter valor por uma série de coisas que passam a acontecer ao seu redor, e você passa a observar.”

Quando iniciei minha carreira, fui trabalhar no interior de Minas Gerais e muitos homens julgavam que eu “com rostinho de boneca” (palavras deles) não conseguiria desempenhar tal função. Mas com pouco tempo, fui demonstrando minha dedicação e que eu era capaz.

Eu sou uma pessoa multitarefas (risos) e graças a Deus estou cercada de pessoas boas sempre dispostas a me ajudar. Tenho uma família e marido maravilhosos com quem posso sempre contar. Isso faz muita diferença!!!

Atuar em local de morte violenta me trouxe o benefício de ver a vida com outros olhos, como eu mencionei. E os malefícios seriam o estresse emocional que acabamos carregando involuntariamente.

Em relação à prática profissional o que ela nos diz, sobre como atua?

As técnicas de marcação de vestígios são variadas conforme a natureza do vestígio. Normalmente nós utilizamos as marcações com giz no piso ou utilizamos plaquinhas numeradas. Infelizmente, o isolamento e preservação de local nem sempre são tratados de forma adequada, então, não é incomum encontrarmos os vestígios já marcados o que prejudica o trabalho da perícia, além de contrariar o que preceitua o Código de Processo Penal.

Eu não me vejo como uma profissional referência. Sou alguém em busca constante do conhecimento, sempre disposta a ajudar e aprender com os colegas. A perícia foi uma das maiores realizações da minha vida, pois eu adoro minha profissão. Obviamente, que tem problemas, mas eu tenho um desejo muito grande de ver a perícia se aperfeiçoando e ocupando cada vez mais o lugar de destaque que merece.

Agradeço o convite de poder falar sobre algo que é tão importante na minha vida e a você que dedicou seu tempo nesta leitura.

Enfim esta é a realidade de vida de uma mulher que desenvolve uma atividade profissional um tanto desafiadora e que faz com maestria, mal sabe ela o número de pessoas que a acompanham e admiram seu trabalho e principalmente os comentários positivos. Obrigada por existir Michelle, você é um modelo a ser seguido.