NA ERA PÓS-PETRÓLEO UM NOVO ORIENTE MÉDIO

Com as mudanças profundas à vista no Oriente Médio, talvez tenhamos a chance de presenciar o arrefecimento da luta entre os mundos árabe e persa.

Dois fatos recentes devem nos aproximar um pouco mais da realização do sonho de “um novo Oriente Médio”, como antevia o israelense Shimon Peres, prêmio Nobel da Paz, em 1994. As recentes explosões no Líbano e o histórico acordo assinado, dias atrás, entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, sob os auspícios dos EUA, implicam reforços importantes em um contexto de mudanças geopolíticas em curso acelerado no Oriente Médio.

O séc. XXI, desde cedo, deixou claro que mudanças importantes estão a caminho naquela que é considerada a região mais tumultuada do mundo. O enfraquecimento da economia do petróleo obrigou os países da região a reverem suas politicas internas e externas, assim como o modo de se relacionar com Israel, inimigo antigo.

Até o final do séc. XX, as lideranças árabes governavam levando em conta três aspectos fundamentais: petróleo, ditadura e discurso ante Israel. Contudo, essa política precisou ser alterada frente à queda do preço do petróleo e seus efeitos na indústria petroleira – que passou a exigir fontes alternativas de energia.  Obrigados a modernizar e diversificar suas economias, os países da região voltaram sua atenção para Israel, principal polo de inovação no Oriente Médio, cuja economia se consolida, cada vez mais, com base na diversificação dos fatores produtivos.

Não demorou muito tempo e antigos adversários encontraram motivos para se aliar e abandonar a retórica contra Israel. De inimigo potencial, Israel tornou-se possível aliado estratégico.

Certamente, a transição à era pós-petróleo levou as monarquias do golfo Pérsico a se modernizarem e, para tanto, novas alianças descortinaram mudanças importantes no tabuleiro geopolítico da região.

Se até pouco tempo atrás as reivindicações palestinas eram um mantra no Oriente Médio, hoje não é mais. Isso fica evidenciado pelo acordo de paz celebrado entre os Emirados Árabes Unidos e Israel, por meio do qual não apenas se comprometem a intercambiar embaixadas e rotas áreas, como também a colaborar nos mais variados setores da economia, do turismo à tecnologia aeroespacial.

A narrativa ante Israel não é mais suficiente para unir a região.

As reivindicações palestinas, tampouco, condicionam as politicas dos países vizinhos.

É sabido que as lideranças árabes disputam zonas de influência no Oriente Médio e fica cada vez mais evidente que é chegado o momento de neutralizar o Irã, inimigo feroz de Israel, e sua tentativa expansionista na Síria, Iraque, Líbano e Iémen.

Na era pós-petróleo, é evidente a liderança da Arábia Saudita nas monarquias do golfo, assim como sua proximidade de Israel.

É inegável a preocupação do Ocidente na dança das cadeiras no Oriente Médio, especialmente depois das explosões no Líbano e do acordo de paz, patrocinado pelos EUA, entre os Emirados e Israel.

Em menos de um mês, o Presidente francês E. Macron visitou o Líbano duas vezes. Em entrevista coletiva em Beirute, Macron disse que as potências mundiais devem permanecer focadas na emergência do país por, pelo menos, mais seis semanas. Paris está pronta para ajudar a organizar e sediar uma conferência internacional com as Nações Unidas, em outubro próximo, com vistas a encontrarem juntos, Ocidente e Oriente, alternativas para reerguer o Líbano e estabelecer a paz na região.

Enviado sênior dos EUA também desembarcou nesta semana no Líbano, com a intenção de juntar-se à França na força tarefa de reconstrução do país, e cravar bandeira americana no cenário geopolítico em transformação no Oriente Médio.

Vê-se, portanto, que a tônica internacional do momento não se restringe à ajuda humanitária aos libaneses, como também, principalmente, à disputa geopolítica na região.

Essa contenda passa, necessariamente, por neutralizar a expansão de Teerã e seus planos de impor sua revolução no Oriente Médio. Há tempos, o Irã tenta, na maior parte das vezes com sucesso, influenciar e estender seu protetorado xiita aos iraquianos, sírios e libaneses, forçando uma aliança estratégica contra seus arqui-inimigos: EUA, Israel e Arábia Saudita.

Com as mudanças profundas à vista no Oriente Médio, talvez tenhamos a chance de presenciar o arrefecimento da luta entre os mundos árabe e persa.

Não é difícil perceber que o Presidente Macron assumiu a liderança do Ocidente no “novo Oriente Médio”, e procura comandar ambicioso projeto de redesenhar a geopolítica da região. As razões são óbvias. A França é aliada dos EUA e da Arábia Saudita, assim como mantém relações de cooperação sólidas com Israel e os Emirados Árabes. Com esse histórico não fica difícil para o Presidente Macron deixar de lado, por enquanto, seus quase insolúveis problemas de ordem doméstica, e desenvolver, no plano internacional, uma política multidimensional, cujos efeitos serão vistos e sentidos no mundo todo.

Com as mudanças em curso, as perspectivas de investimentos e alargamento do comércio, na era pós-petróleo, não trazem benefícios apenas para Israel e os Emirados Árabes Unidos, em decorrência do acordo recente, como também para o mundo todo, que poderá se beneficiar da entrada de novos “global players” ávidos por diversificar suas economias e rever suas políticas, internas e internacionais.

E que nessa caminhada não nos faltem otimismo, boa vontade e coragem para acompanhar o despontar de um novo mundo mais seguro, justo e pacífico – embalados por uma trilha sonora (imaginária), composta pelas mais belas composições de Nino Rota, criadas, especialmente, para o filme “Guerra e Pace”, dirigido por King Vidor, em 1956. Um clássico do bom cinema.

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