NOVO CENÁRIO GEOPOLÍTICO DO ORIENTE MÉDIO APÓS EXPLOSÕES NO LÍBANO

“Não presumas que eu seja o que já fui…

Quanto fiz, fui guiado pelos ditames da honra,

Pela norma imparcial de minha alma.

Jamais heis de ver-me solicitar

Perdão indigno.

Se a verdade e a inocência me faltarem,

Irei para onde está meu rei defunto

E lhe direi quem me mandou após ele.”

(Palavras do “O Grande Juiz” desferidas contra Sir John Falstaff, na peça “Henrique IV (2ª Parte), de Willian Shakespeare).

 

Há algo de muito mais importante e significativo nas visitas do Presidente francês, Emmanuel Macron, semana passada, e do Ex-Presidente Michel Temer, em representação do Brasil, esta semana, ao Líbano.

A ação diplomática de ambos, em primeiro lugar, tem por objetivo levar ajuda humanitária aos libaneses que enfrentam os severos efeitos das explosões ocorridas no país, originadas da detonação de 2.750 toneladas de nitrito de amônio, armazenados de forma incorreta no porto de Beirute. O saldo da irresponsabilidade governamental deixou, segundo dados oficiais libaneses, mais de 150 mortos, cerca de 5.000 feridos, bairros inteiros destruídos e dezenas de desabrigados e famintos. O Presidente do Líbano, Michel Aoun, cambaleante no poder em decorrência de anos de autoritarismo e eleições questionáveis, assim como de inúmeras denúncias de corrupção e malversação do dinheiro público, afirma que serão necessários mais de US$15 bilhões para recuperar o país e voltar à rotina anterior à pandemia do coronavírus e ao desastre recente.

Em segundo lugar, e talvez tão relevante quanto o primeiro objetivo, tais visitas diplomáticas estão relacionadas também às teias de interesses políticos e econômicos, seculares na região, mas que ganharam novos contornos nos períodos históricos mais recentes.

Isso se explica pela viagem, imediatamente após o desastre, do Presidente Macron ao Líbano, país ex-colônia francesa que se tornou ponta de lança do Irã, graças a uma bem planejada estratégia dos aiatolás, desde a Revolução Islâmica de 1979, de expandir a autoridade de Teerã e impor sua revolução no Oriente Médio.

A reação do Ocidente para tentar neutralizar o corredor xiita que busca aumentar a área de influência do Irã também aos territórios iraquianos e sírios pode ser vista, claramente, na aliança de seus arqui-inimigos, Estados Unidos, Israel e Arábia Saudita.

No que diz respeito aos Estados Unidos e Israel, a disputa com Irã se justifica por razões ideológicas e à defesa de valores ocidentais e democráticos, regurgitados pelo Irã. Quanto à Arábia Saudita, as animosidades encontram suas raízes em questões éticas e, especialmente, no confronto entre os mundos árabe e persa, como também na própria origem dos iranianos e em suas tradições religiosas. Sauditas seguem a vertente sunita do islamismo, ao passo que no Irã prevalece a linha xiita.

Herdeiros do nacionalismo persa, os iranianos buscam avançar sobre territórios hoje dominados por americanos e sauditas, na quebra de braço por maior influência no Oriente Médio, que garantiria ao Irã maior ascendência do Iraque ao Líbano, do Iémen à Síria.

Não foi por acaso que, em 1982, em plena guerra civil, representantes dos aiatolás foram enviados ao Líbano com enorme auxílio financeiro e logístico para ajudar a fundar o Hezbollah, versão libanesa do fundamentalismo de matriz iraniana. Sabe-se, hoje, que o Hezbollah tornou-se a força dominante no Líbano, garantindo ao Irã continuar roubando a cena do ponto de vista geopolítico na região.

Por conseguinte, não é difícil perceber que o Presidente Macron, ao assumir a liderança internacional de levar ajuda humanitária ao Líbano, busca, também, comandar ambicioso projeto de redesenhar a geopolítica do Oriente Médio. Ninguém melhor do que o jovem Presidente francês para tal intento. Aliado, mas “non troppo”, dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, Macron é o homem certo. Para recuperar prestígio em seu próprio país, após meses de desgaste no confronto com os coletes amarelos e com a recente derrota nas eleições municipais, tenta impor, com galhardia, uma politica multidimensional, que possa pavimentar seu caminho em direção à liderança europeia, cargo que ficará vago com a aposentadoria de Angela Merkel, proximamente. E, com isso, Macron visa despontar, também, como a mais nova e promissora liderança internacional.

Parece indubitável, que uma aliança diplomática, politica e econômica entre o Líbano, Estados Unidos e Arábia Saudita, contra o Irã, liderada pela França, é o “leitmotiv” da viagem de Emmanuel Macron. E essa aliança tem delineamentos ainda mais definidos ao receber reforço da diplomacia brasileira, cuja tradição não poderia estar em melhores mãos do que naquelas do ex-Presidente Michel Temer.

Sabe-se, ademais, que Brasil e Estados Unidos vêm se apoiando mutualmente. Logo, o envio de uma missão de bons ofícios brasileira ao Líbano encontra justificativa mais ousada do que apenas a de acompanhar o envio de doações aos libaneses.

Não bastasse, nesta semana, o Presidente Donald Trump, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e a sua Alteza Sheikh Mohammed Bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi e Vice-Comandante Supremo das Forças Armadas dos Emirados Árabes Unidos, apresentaram uma “Declaração Conjunta”, por meio da qual deram início a, provavelmente, o mais importante movimento da história diplomática recente, cujo objetivo é promover a paz na região do Oriente Médio e traçar um novo caminho que destravará o grande potencial da região. De agora em diante, representantes dos três países não vão medir esforços na preparação de acordos bilaterais, entre eles, com vistas a transferir investimentos, desenvolver o turismo, implementar voos diretos, melhorar a segurança, bem como prover desenvolvimentos tecnológicos e dos meios de comunicação, energia, saúde, cultura, meio ambiente e o estabelecimento de embaixadas recíprocas.

O mais representativo dessa ação diplomática, sem precedentes em tempos recentes, é o compromisso assumido por Israel de não continuar e impedir futuras anexações dos territórios palestinos. Os três países, por meio desse ambicioso plano que já é chamado de “Visão Pela Paz”, reiteram que continuarão seus esforços para alcançar uma resolução justa, abrangente e duradoura para o conflito israelo-palestino. Ademais, reafirmam que os muçulmanos podem visitar e rezar na Mesquita de Al Aqsa, e em outros locais sagrados de Jerusalém, os quais deverão permanecer abertos para adoradores pacíficos de todas as crenças.

Como se vê, os novos movimentos de convergência liderados por EUA, Israel e Emirados Árabes Unidos nesse novo plano de paz médio-oriental, associados às iniciativas francesa e brasileira, têm consequências importantes na definição da geopolítica internacional do Séc. XXI e não apenas naquela do Oriente Médio.

Segundo a lógica Weberiana[1], antecipada por Shakespeare nas quatro peças que receberam o nome de “Henríada” (Ricardo II, Henrique IV (Partes 1ª e 2ª) e Henrique V[2]), não há garantias de que existe qualquer conteúdo por debaixo do verniz imaculado de uma grande liderança. Contudo, também não se pode afirmar o contrário. Cumpre-nos, portanto, acreditar nas autoridades legítimas, assim como no poder afável que se plasma à psique, em vez de discipliná-la e submetê-la a coações e proibições. Sem perder de vista, sempre, que a retórica não significa, necessariamente, realidade, assim como a audácia não implica autoridade.

 

[1] Max Weber, palestra proferida em 1919: “Politics as a Vocation” (A Política Como Vocação).

[2] Por volta de 1599.

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