Os arruinados pelo êxito

O trabalho de análise e observação do comportamento de Jair Bolsonaro, especialmente ao ingressar em seu segundo ano de mandato presidencial, revela que ele está em processo aberto de auto sabotagem, isto é, entrou em rota de colisão frontal e mira com arma de precisão não só contra seus próprios eleitores, como, especialmente, contra ele mesmo, sua história, reputação e desejos.

Seria muito mais fácil e superficial, até certo ponto injusto, vociferar que o Presidente Jair Bolsonaro é “burro”, “não tem educação” e “é mau caráter”. Assim como, pode parecer surpreendente reconhecer que as pessoas possam adoecer e frustrar-se, em função do seu “êxito” e “sucesso”, isto é, por terem triunfado

Em artigo publicado não faz muito tempo[1] afirmei que certos políticos têm dificuldade para reconhecer os desejos, as necessidades e os sentimentos das demais pessoas. Falam de seus próprios interesses com alcance e detalhes inadequados. Sem inibição, dizem o que pensam. Buscam não depender de ninguém e de nada. São soberanos máximos.

Na ocasião tomei o Presidente Jair Bolsonaro como sujeito de observação, destacando, após certo tempo no exercício do cargo, que ele revela dificuldades na regulação da autoestima, com crises de ideais e valores, dizendo e desdizendo-se compulsivamente.

Julia Kristeva, filósofa e psicanalista búlgaro-francesa, com muita propriedade, refere-se a esses sintomas como “enfermidades da alma”[2]. Razão pela qual, as falas robotizadas, artificiais e vazias levam os analistas a inventarem termos como: transtornos narcísicos, casos limites, etc.

Contudo, com o tempo passado, desde a análise anterior, e em meio ao turbilhão de atos e declarações estapafúrdias das últimas semanas, é possível constatar que a falta de sensatez e senso público na condução das políticas sanitária, econômica e institucional do Presidente Bolsonaro não decorrem de possível falta de inteligência e premeditada má-fé.

O trabalho de análise e observação do comportamento de Jair Bolsonaro, especialmente ao ingressar em seu segundo ano de mandato presidencial, revela que ele está em processo aberto de auto sabotagem, isto é, entrou em rota de colisão frontal e mira com arma de precisão não só contra seus próprios eleitores, como, especialmente, contra ele mesmo, sua história, reputação e desejos.

Dito de outra forma, pessoas podem “adoecer” ou “tentar se autodestruir”, precisamente no momento em que triunfam. É como se essas pessoas não fossem capazes de tolerar sua felicidade  e gozar dela com altivez, regozijo e merecimento. Não há dúvida, no caso de nosso Presidente, de que existe uma ligação causal entre seu “êxito” ao vencer as eleições e o fato de “adoecer”, “desorganizar-se” ou “frustrar-se”.

Segundo S. Freud, em seu texto “Os Arruinados Pelo Êxito”, publicado em 1916[3], a privação ou frustração de uma satisfação real, de um desejo, é comumente considerada a primeira condição para a geração de uma “neurose”, muito embora, na verdade, esteja longe de ser a única.

Certamente, parece ainda mais surpreendente, sustenta Freud, e na realidade atordoante, quando se faz a descoberta de que as pessoas, ocasionalmente, adoecem precisamente no momento em que um desejo profundamente enraizado e há muito alimentado atinge a realização. Então, acontece algo de inusitado no aparelho psíquico dessas pessoas. É como se elas não fossem capazes de tolerar sua felicidade, sua realização e, impossibilitadas por mecanismos que elas mesmas desenvolvem em seu interior, partem desenfreadas em direção à sua própria ruína e autodestruição.

Nesses casos, vê-se que a pessoa consegue, com grande esforço pessoal, vencer os desafios a que se submete e, tão logo realiza-os e atinge uma posição de prominência e sucesso, não consegue se manter no lugar do êxito e põe termo a toda a fruição de contentamento, satisfação e gozo que dele decorrem.

Seria muito mais fácil e superficial, até certo ponto injusto, vociferar que o Presidente Jair Bolsonaro é “burro”, “não tem educação” e é “mau caráter”. Assim como, pode parecer surpreendente, reconhecer que as pessoas possam adoecer e frustrar-se, em função do seu “êxito” e “sucesso”, isto é, por terem triunfado.

Isso acontece porque estamos habituados a pensar que a “frustração interna” está potencialmente presente em todos os casos, e somente entra em ação quando a “frustação externa real” tenha preparado o terreno para aquela interna. Isto é, quando fatores externos da vida real impedem a realização dos desejos, planos, projetos e ambições acalentados no nosso interior.

Mas, existem casos excepcionais nos quais as pessoas adoecem, se frustram e sofrem por causa, justamente, do êxito que obtiveram na realização dos seus desejos. A frustração interna atua por si mesma. Na realidade, só surge depois que uma frustração externa for substituída pela realização de um desejo, pelo atingimento da satisfação.

À primeira vista, parece haver algo de muito estranho no que ora se afirma, porém, por ocasião de um exame mais detido, chega-se a conclusão de que não é absolutamente incomum para o ego tolerar um desejo na medida em que ele só existe na fantasia de alguém e cuja realização parece distante, difícil e até impossível. Contrariamente, porém, o ego pode defender-se ardentemente contra esse desejo tão logo este se aproxime da realização e ameace torna-se uma realidade.

Dito de outra forma, são as forças da consciência que agem sem mandado e proíbem ao indivíduo obter a tão almejada vantagem proveniente da feliz mudança da realidade.

Esse processo de tiranização de si próprio, frequente quando o indivíduo fracassa no sucesso, ou seja, não aguenta o lugar do triunfo e, então, boicota-se e mina o caminho que deve percorrer, parece em curso acelerado na vida de Jair Bolsonaro.

Os fatos são reveladores, infelizmente.

Desde a redemocratização do país, nenhum presidente desafiou praticamente todos os limites impostos pela Constituição Federal em tão pouco tempo de governo, assim como, feriu tão profundamente as instituições democráticas, com o objetivo claro de enfraquecê-las, e esvaziou por completo os princípios que norteiam a administração pública. Nenhum antes teria deixado seu gabinete de trabalho, em plena pandemia, para brincar de tiro ao alvo no campinho mais próximo. Nenhum teria dito “e daí?” diante de tantas mortes ou “vá perguntar ao coveiro”.

Por paradoxal que possa parecer, há um obscuro sentimento de culpa por parte do Presidente Bolsonaro, em consequência do êxito, muito provavelmente relacionado à sua relação como seus país. Razão pela qual, eles nunca aparecem em suas falas e reminiscências.

Essa culpa, ambivalência e desajuste também ficam evidentes no fato de que Bolsonaro se dirige aos (seus) filhos como “zero um”, “zero dois”, “zero três” e “zero quatro”. Isto é, todos são “zeros”. Por que não teria, ele Bolsonaro, sido capaz de gerar pessoas plenas, autônomas e produtivas que pudessem ser chamadas pelo nome próprio e não fossem apenas “zeros” – à esquerda? E por que a esses “zeros” não foi permitida uma vida outra que não fosse viver aquela do pai? Por que todos estão na vida pública? Não teriam outras vocações? Que pai é este que Bolsonaro teve que consegue, mesmo se não estiver mais entre nós, intimidá-lo a ponto dele, nascido Messias, não conseguir gozar da sua vitória, do seu sucesso e construtivamente do seu triunfo, para não, provavelmente, rivalizar com seu pai? Que trama fantasmática cerca pai e filhos e por que não conseguem se desvencilhar dela a ponto de todos, pai e filhos, entrarem juntos em processo claro de auto sabotagem e destruição?

As lições que ficam da reflexão e observação do que se passa como nosso “líder máximo”, tido como “mito” e, agora, mais recentemente, “profeta”, é de que as forças da consciência, que induzem à doença e à desorganização do aparelho psíquico, podem derivar, sim, do “êxito”, “do sucesso”, do atingimento de um desejo alimentado por muito tempo, em vez de, como normalmente se pensa, originar-se tão somente da “frustração”, enquanto não realização de um desejo.

Que Deus proteja essa família e os ajude a entender o que está acontecendo na vida deles e do país.

[1] https://napautaonline.com.br/2019/11/29/narcisismo-e-politica-brasileira-atual/

[2] “As Novas Doenças da Alma”, 2002.

[3] In “Sigmund Freud – Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud”, Vol XIV, Rio de Janeiro, Editora Imago, 1996, pág.331-346.

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