Os riscos da diplomacia do conflito

Foto: ONU/Elma Okic

Sob Jair Bolsonaro, a diplomacia brasileira assumiu, sim, viés
ideológico. Do estilo “nunca antes visto no Brasil”, dos governos
petistas, passamos ao do “Brasil acima de tudo”, inclusive do
direito internacional e do multilateralismo pragmático alinhado e
bem arrumado da velha Academia de Rio Branco.

O Presidente Donald Trump, quando assumiu a presidência dos EUA, em 2017, trouxe de volta ao cenário internacional a já em desuso “diplomacia do conflito”, ou “do confronto”, intensificou a aplicação de sanções internacionais e passou a denunciar acordos importantes, dentre os quais, o de Paris sobre a mudança do clima, assim como o de não proliferação de armas nucleares.

O governante americano prefere o confronto à negociação e despreza a “diplomacia do consenso”. Ele não tolera o dissenso, não suporta o contraditório e tem a pretensão de rever a ordem internacional da “pax americana”, inaugurada no pós segunda guerra mundial.

No período de pouco mais de três anos no poder, as “negociações” iniciadas por Donald Trump tiveram pouco sucesso, exceto no que diz respeito ao Acordo Comercial com a Coreia do Norte, cujo presidente, Kim Jong-un, demonstra traços de personalidade e caráter semelhantes àqueles do presidente americano, associados aos mísseis intercontinentais capazes de incrementar qualquer entendimento diplomático. Trata-se da mais clara disputa pelo ultrapassado e conhecido “hard power”, ou “diplomacia dos canhões”. Nessa toada, também abriu flanco para a revisão do Tratado NAFTA[1] que precisava melhor se adequar aos interesses da nova ordem econômica americana pretendida por Trump.

Por outro lado, o Irã, embora presente na lista de prioridades do presidente Donald Trump, não representa uma ameaça militar efetiva aos EUA, e as relações entre esses dois países sempre foi de desconfiança, hostilidade e permeada de conflitos. Ambos vivem às turras em uma relação de represálias recíprocas.

A América Latina não existe para Donald Trump e sua proximidade com o presidente Jair Bolsonaro, se de fato existe mesmo, é de “intuitu personae” (personalíssima), e não se estende ao Brasil como tal.

Sob Jair Bolsonaro, a diplomacia brasileira assumiu, sim, viés ideológico. Do estilo “nunca antes visto no Brasil”, dos governos petistas, passamos ao do “Brasil acima de tudo”, inclusive do direito internacional e do multilateralismo pragmático alinhado e bem arrumado da velha Academia de Rio Branco.

Jair Bolsonaro reintroduziu no país práticas abandonadas há décadas pela nossa tradicional diplomacia, inclusive algumas já sepultadas no pós-regime militar brasileiro. Ademais, rejeita a independência que tínhamos conquistado dos EUA e recrudesceu a aproximação que vínhamos costurando de forma exitosa com os irmãos africanos. Não bastasse, o presidente Jair Bolsonaro deixou de observar o princípio da não intervenção nos assuntos internos dos nossos países vizinhos, as boas relações com os europeus e também nosso pragmatismo histórico.

Tudo isso porque Jair Bolsonaro prioriza, ingenuamente, as afinidades pessoais e ideológicas com certos governantes, em detrimento dos verdadeiros interesses do Brasil.

Dito de outra forma, Jair Bolsonaro decretou, no Brasil, o fim da ponderação, sensatez, circunspecção e proeminência do Itamaraty na condução da nossa politica externa e passou, ele mesmo, a traçar diretivas, criar agendas e construir e derrubar pontes. Com Bolsonaro, ou sob Bolsonaro, instaurou-se no país a “diplomacia do conflito e da surpresa”. Isto porque, nosso presidente está sempre pronto a brigar, discutir, contrariar e chocar. Não sabe governar para todos, pacificar, construir consensos, tanto no âmbito interno (nacional) quanto internacional.

Segundo afirmou nosso ex-Ministro Celso Lafer[2], a diplomacia do governo atual rompe a tradição do Itamaraty por ser de “enfrentamento”, que conduz a uma “diplomacia de combate”.

A tradição do Brasil sempre foi a da “diplomacia de cooperação”. Sempre primou pela solução pacífica das controvérsias, internas e internacionais, pela prevalência dos direitos humanos, do império do Direito e, em especial, pela elegância hermenêutica.

Em um mundo tensionado como o atual, com disputas importantes entre os EUA e a China e os renovados conflitos no Oriente Médio, o diálogo tornou-se fundamental e a diplomacia precisa ser construtiva.

A identificação de Jair Bolsonaro com Donald Trump, e outros líderes autoritários, não contribui para o fortalecimento do Brasil, nas suas esferas complementares interna e externa.

Jair Bolsonaro segue entrincheirado na zona de conflito, porque sabe fazer politica apenas por meio de altercações, brigas, escaramuças e ataques, foi assim que conduziu sua campanha eleitoral, com esse “modus operandi” se elegeu e com atritos exerce suas politicas, doméstica e externa, comunica-se com a imprensa e tenta desacreditar oponentes e dissidentes.

Como se vê, a diplomacia do “hard power” foi retomada pelo presidente Donald Trump. Já, no Brasil, nosso presidente inaugurou, no contexto da diplomacia internacional, o que pode ser chamado de “lost power”.

Porém, nem tudo está perdido.

A boa notícia para os brasileiros é que alguns de nossos governadores estão assumindo papel importante no cenário internacional, ocupando espaço na condução de políticas (regionais) internacionais. Passaram a celebrar, diretamente, acordos internacionais de cooperação em múltiplas áreas, trazendo, assim, investimentos estrangeiros para as suas regiões, e construindo parcerias com importantes players internacionais, servindo-se do que se chama de “sharp power”. Isto é, penetrando e perfurando o ambiente político e informativo dos países que mais interessam, desenvolvendo habilidades e ferramentas próprias com o intuito deliberado de influenciar e atrair politicamente nações estratégicas, seus governantes e investidores.

[1] Acordo de Livre Comércio Entre Canadá, Estados Unidos e México.

[2] Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2018/02/06/O-que-%C3%A9-sharp-power.-E-como-ele-pode-minar-governos

 

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