Os servos da gleba do século XXI e o genocídio da Amazônia

Fotografia Lisboa Prelúdio para o pôr do sol - reprodução: Like3ZA
José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Em uma manhã de domingo tão quente de um verão tardio, já quase às portas do outono e em que, a partir do meio das tardes, os raios do Sol surgem em tons amarelados e dão cor e gosto aos últimos vagos das uvas que, daqui a breves semanas, irão para os lagares e transformar-se-ão em vinho, ocorre-me várias vezes um episódio ocorrido num dia da semana que passou, quando tomava o café da manhã num snack-bar juntamente com dois jovens com licenciatura na área das letras.

A nossa conversa era sobre as férias, onde estivemos e o que fizemos nesses dias de descanso. A dada altura, disse-lhes:  “Precisamos de descansar, porque já não estamos no tempo dos servos da gleba”.

Para meu espanto, aqueles dois jovens, que pensam ter o mundo na mão, ficaram surpreendidos com a expressão “servos da gleba”. Franziram a testa, perguntei-lhes se sabiam do que lhes falava, encolheram os ombros, disseram que não… Valentes doutores!

A minha inquietação não ficou por ali: precisamente, na mesma mesa onde decorria a nossa conversa, um cliente do snack-bar colocou à minha frente o jornal que a casa disponibiliza diariamente aos clientes. E logo os meus olhos passaram de relance os títulos da capa do matutino. Um deles veio mesmo a propósito, ao informar que uma escola-piloto de uma pequena cidade do distrito do Porto, em Portugal, atribui aos alunos férias de 8 em 8 semanas.

Não discuto a justeza desta medida, porque desconheço a realidade concreta desse estabelecimento de ensino, mas ficam-me dúvidas. O aproveitamento dos alunos até pode ser excelente, mas gostava de saber a metodologia aplicada de ensino – se uma metodologia de formação apenas de profissionais ou uma metodologia de formação de profissionais e cidadãos sujeitos ativos da história. Bem, já não será mau se esta escola cumprir, pelo menos, o primeiro desiderato, porque a escola do século XXI, na esfera das sociedades exageradas de consumo leva ao empobrecimento cruel das gerações que hão de tomar conta do mundo.

Não atribuo à escola, aos seus membros dirigentes e aos docentes a culpa pelas grandes lacunas que o ensino acusa. O problema não é só português, não é só brasileiro, não é só na escola pública, não é só nos estabelecimentos privados. É  transversal a todas as democracias, em que os atrativos da sociedade ultraliberal, a desresponsabilização por parte das políticas educativas, a desestruturação dos laços familiares e outros fatores sobre os quais os sociólogos saberão explicar estão a contribuir para um desastre cultural sem precedentes.

Depois de a humanidade ter alcançado conhecimentos avançados nas mais diversas áreas da ciência e da cultura, é assustadora a estupidificação reinante no mundo contemporâneo, que até se diz pós-moderno.

Esta estupidificação resulta de uma atitude que não é tomada por acaso, não é inocente, é ideológica e vem de uma filosofia antissocial e anti-cultural, com cidadãos maneáveis no pensamento, marionetas de um deus diabólico, que encanta, seduz e atrai o mundo ao precipício, que cria os servos da gleba do século XXI.

Veja-se o crime contra a mãe-natureza da Amazônia, contra o qual muita gente vociferou com justo motivo. O presidente Macron tomou uma posição muito positiva e corajosa, mas o mundo inteiro assobiou para o lado, cometendo a ignóbil atitude em apaziguar as culpas do poder político de Brasília, que nada fez para extinguir os incêndios, dada a sua conivência com os grandes interesses econômicos estabelecidos. Governos estrangeiros fecharam os olhos por implícitas cumplicidades com esse poder econômico; outros, mesmo discordando, apelaram ao referido apaziguamento por razões meramente diplomáticas.

Se as democracias ocidentais fossem autenticamente livres, os movimentos de cidadania de cada país teriam tomado a iniciativa de, em petição, exigir o apuramento das circunstâncias e as culpas do governo brasileiro. Ao matar o “pulmão” do mundo, não é só o Brasil que sofre; é o mundo inteiro. Mesmo que o Brasil fosse a única vítima, razões haveria para exigirmos o julgamento dos culpados. E digo mais: o crime contra a nossa mãe Amazônia, não sendo um genocídio direto como os ocorridos durante o século XX, é um genocídio gradual, com a extinção de incontáveis espécies animais e vegetais, com a  redução substancial do oxigênio no planeta, com uma série de doenças e mortes que hão de vir como consequência. O tempo nos dirá que estamos perante um caso não menos grave do que o ocorrido em Chernobyl.

Não será exagerado dizer que compete aos cidadãos do Brasil e de todo o mundo congregarem esforços e levarem o referido crime ambiental ao Tribunal Penal Internacional, para ajuizar com verdadeira justiça. Porque –  repito – estamos perante um genocídio gradual.

Porém, enquanto a escola formar doutores que não saibam o que eram os servos da gleba, não acredito que os países se livrem desta teia terrível baseada no dinheiro, no crime e na miséria de dependências sociais em rede, da qual o cidadão, que devia ser o sujeito da história, não consegue livrar-se do obscurantismo, da alienação do consumo, do ópio que anestesia as sociedades, que se dizem livres, mas, infelizmente, não são.

A escola é (devia ser) o primeiro quartel da democracia. Um quartel não militarizado, pois a cultura e a ciência são fontes persuasivas de humanismo e de paz.

Esta semana, inicia o ano letivo em muitas escolas de Portugal. Faço votos para que se formem homens e mulheres competentes a nível profissional mas com a vertente humana de cidadãos livres e intelectualmente autônomos. Em Portugal, no Brasil, em todo o mundo…