Perícia Criminal e os descuidos da prática profissional

 

 

 

Uma das profissões mais respeitadas da atualidade e uma das mais inseguras…

Após formação em academia os mesmos devem sair com um princípio fundamental em suas práticas profissionais, mas, no entanto, a realidade é outra. O que acontece com esses profissionais?

Os peritos criminas profissionais, atuam fazendo levantamentos periciais em locais onde ocorrem homicídios, suicídios, acidentes de trabalho, acidentes de trânsito, incêndios, furto de energia, furto qualificado, crimes ambientais, danos, entre outros, além da confecção do respectivo Laudo Pericial. Nas Perícias Internas são realizados exames periciais em veículos, armas de fogo, preliminares de constatação de entorpecentes, documentos cópicos e grafotécnicos, em celulares, em objetos e outros.

O que era para ser um sonho para muitos vira um pesadelo? O domínio sobre as diversas técnicas de perícia é quase que cem porcento, mas ao mesmo tempo percebe-se a falta de um conhecimento que é primordial a todo e qualquer trabalhador que tem amor a sua vida, família e trabalho…

Conforme relato de um perito criminal (nome fictício “Rosivaldo Lencor”), ao periciar seu primeiro crime, precisou de estômago forte. “Logo após o almoço, fui requisitado para um exame de corpo de delito em local onde havia achado um cadáver. A vítima, de homicídio, tinha diversas perfurações e encontrava-se em adiantado estado putrefato, pois tinha morrido há três, quatro dias. A imagem da vítima desfigurada pelas lesões e pelo processo natural de decomposição do cadáver, junto ao forte odor e a sensata insegurança de início de carreira, certamente marcaram este primeiro atendimento”.

Este momento foi marcante, contudo ele não foi despreparado por completo, pois após passar no concurso público foi para a Academia de Polícia, em seu curso de formação policial, que proporcionou a ele bagagem teórica e pratica para atuação nos mais variados exames periciais, além de preparação técnica e psicológica para agir com profissionalismo e isenção, mesmo diante de crimes violentos e de comoção. Também nos primeiros meses de trabalho foi acompanhado por um Perito Criminal mais experiente.

Apesar de todo aparato, é impossível ficar totalmente isento, principalmente, quando a vítima é alguém conhecido. “O exame mais marcante foi um acidente de trânsito em que a vítima era uma amiga, com laços fraternos e contato quase que diário. No entanto, dado o impedimento legal, outro Perito Criminal foi requisitado a realizar os levantamentos periciais”, disse o perito entrevistado.

O que tem divulgado a rotina destes profissionais são as séries de televisão estadunidenses, como o CSI (Crime Scene Investigation) e isso tem levado cada vez mais pessoas a se interessarem por este tipo de atividade profissional.

“Isso é bom e muito positivo à carreira da perícia criminal, no entanto, a realidade brasileira diverge em certos aspectos da série, por exemplo: Os “CSI’s” realizam o trabalho equivalente ao dos Peritos Criminais e dos Investigadores de Polícia brasileiros, além (todavia) disporem de equipamentos, técnicas e tecnologias, muitas vezes não acessíveis ao mercado. Desta forma a nossa rotina não é tão glamourosa quanto à ficção, mas gera admiração, respeito e interesse das pessoas”, explica.

O RISCO CONTÍNUO DESSA PROFISSÃO

O perigo da rotina são as doenças que podem ser transmitidas por conta da atividade insalubre que assim como profissionais de saúde devem se atentar cada vez mais para os riscos expostos e não somente receber adicional de insalubridade como se estivessem vendendo suas saúde e vidas, por isso todos devem utilizar equipamentos de proteção individual, conforme a necessidade, seguindo as orientações específicas a área por exemplo o uso de EPI conforme o risco de exposição, mediante estudo especializado na área.

Milhares de profissionais não utilizam os EPIs adequadamente, pelo fato de acharem desnecessários, falta de conhecimento ou até mesmo confiarem muito em sua prática profissional de maneira que os mesmos não possam contrair nenhum tipo de doença ou até mesmo sofrer algum tipo de acidente de trabalho.

Além disso, outros estresses estão incluídos no “pacote” dos profissionais em segurança pública e/ou polícia técnico científica e/ou Polícia Federal. “Enquanto todos se divertem ou dormem, eles trabalham, seja dia útil, feriado, de dia ou de noite, faça sol, chuva, frio ou calor. Muitas vezes criticados e outras pouco reconhecidos, deixam suas famílias para cuidar das outras. Causa estresse, mas não reclamam, pois apesar disso eles amam pelo que fazem.

O amor é fundamental para a execução de um trabalho bem feito, mas chegar em casa para descansar depois de presenciar um crime bárbaro, não deve ser fácil!? Certo? Certo. Como esses profissionais lidam com estas situações, sem o devido acompanhamento profissional?

“Faço uma prece aos familiares e amigos das vítimas, para que Deus conforte vossos corações. Ao (s) autor (es) do crime, uma oração para que o Espírito Santo os incomode profundamente, de modo que se arrependam e aceitem a Jesus como seu único Salvador, seguindo, a partir de então, os seus ensinamentos.” relata um perito em entrevista.

O trabalho é de muita responsabilidade, assim o maior medo  é de cometer injustiças, “meu medo é de cometer conclusões equivocadas em meus laudos periciais. Deste modo, anseio a manutenção de meus princípios, consoante com uma passagem bíblica. ‘Não cometam injustiça num julgamento; não favoreçam os pobres, nem procurem agradar os grandes, mas julguem o seu próximo com justiça’ (Levítico 19:15)”.

E o que mais choca o perito, não são as cenas que presencia nos locais dos crimes, mas “a inversão de valores, a corrupção, a covardia, a ganância, a mentira, as relações humanas desgastadas (familiares e sociais), as desigualdades sociais, e desrespeito e ausência de amor ao próximo, entre outros fatos geradores de crime”, finaliza André Kiyoshi.

Mas, e os peritos? Quem se preocupa com eles? Quem cuida desses seres humanos que lidam diariamente com cenas chocantes, condições de trabalhos inadequadas, falta de EPIs e falta de conhecimento a cerca dos cuidados com sua saúde física e mental?

O índice de atestados médicos por variados motivos tem sido alarmante, pois os peritos estão constantemente adoecendo cada vez mais e mais. O que nos preocupa, são os próprios peritos não perceberem que seu estado de saúde se encontra adoecido, debilitado, eles continuam lidando como se tivessem “poderes mágicos” e fossem protegidos contra toda e qualquer situação que os possa adoecer, machucar ou até mesmo ceifar suas vidas.

Pelo contrário quanto maior o risco mais cuidado deve-se tomar, mas assistência devem ter, em conversas com peritos considerados referência na área, percebo uma visão de despreocupação em relação aos cuidados que devem ter consigo mesmo, durante jornada laboral. Já cheguei a ouvir de profissionais que são referências nacionais em redes sociais e na mídia que não se importam com a saúde do trabalhador e segurança do trabalho, pois como jamais pegaram nada, imaginam que não irá acontecer.

Todos os anos temos surtos, epidemias, pandemias de doenças infecto contagiosas como gripe H1N1, dentre milhares de outras doenças que são transmitidas pelo ar e os mesmos, frequentam lugares que não se sabe o que se possa encontrar por ali, se expondo a riscos inimagináveis.

Vejo profissionais divulgando fotos que são verdadeiros “suicídios”, auto extermínios, pois utilizam EPIs inadequados para o tipo de atividade e local onde se encontram, quando utilizam, se expondo diariamente a todo e qualquer tipo de riscos nos locais onde realizam suas atividades e até mesmo gerando riscos para familiares e colegas de trabalho.

A CARREIRA TÃO SONHADA

Para ingressar na Perícia Criminal é necessária a aprovação em concurso público de provas e títulos. As etapas do concurso público são regulamentadas por edital específico, consistindo basicamente nas seguintes fases: prova escrita objetiva, prova de títulos, avaliação psicológica, médica-odontológica, teste de aptidão física, investigação social e curso de formação policial.

Admite-se os Bacharéis em Análise de Sistemas, Biologia, Ciências Contábeis, Ciência da Computação, Engenharia Ambiental, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica, Farmácia, Farmácia-Bioquímica, Física, Fonoaudiologia, Geologia, Medicina Veterinária e Química, com registro no respectivo Conselho Regional da classe, dentre outros profissionais que concorrem a vagas que exigem somente nível superior em qualquer área.

A carga horária de um Perito Criminal é de 40 horas por semana. O trabalho de ocorre em regime de plantão para alguns dependendo da área de atuação. Até a chamada para atender ocorrência, eles ficam no Núcleo de Criminalística redigindo Laudos, realizando pesquisas complementares, discutindo técnicas e vestígios apurados em locais de crime com os demais peritos, e quando é requisitado, desloca-se ao local do crime, além de outras áreas de atuação como laboratórios etc.

Segundo vários peritos, uma das principais dificuldades da profissão é a preservação e isolamento em local de crime feito inadequadamente, que dificultam expressivamente, e por vezes inviabilizam, o trabalho da Perícia Criminal. Neste sentido, a Secretaria Nacional de Segurança Pública e Secretaria de Justiça e Segurança Pública, tem realizado cursos de qualificações aos profissionais de segurança pública por exemplo policiais militares e civis, bem como definirem procedimentos padrões de atuação em local de crime. Soma-se ainda a este cenário a ausência de cultura de preservação de local de crime, pela população, que mesmo agindo sem intenção, atrapalha as tarefas periciais.

Bate um aperto no peito em ver profissionais tão capazes, tão competentes, tão importantes para sociedade e ao mesmo tempo tão descuidados, tão descompromissados com sua própria saúde e vida. Necessário se faz que este conteúdo seja cobrado nos editais de concursos e que durante a formação esses conhecimentos sejam priorizados também aulas práticas que os levem a ter mais consciência, responsabilidade e cuidado consigo mesmos.

Afinal uma vida é colocada em risco em prol da verdade e da solução de crimes, que permitem que sejam realizadas atividades seguras e que possam garantir um final de vida com qualidade a estes profissionais, basta que se queira.

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here