Perito Criminal de Local de Crime

Em nossa sociedade, o trabalho é mediador de integração social, seja por seu valor econômico (subsistência), seja pelo aspecto cultural (simbólico), tendo, assim, importância fundamental na constituição da subjetividade, no modo de vida e, portanto, na saúde física e mental das pessoas. A contribuição do trabalho para as alterações da saúde mental das pessoas dá-se a partir de ampla gama de aspectos: desde fatores pontuais, como a exposição a determinado agente tóxico, até a complexa articulação de fatores relativos à organização do trabalho, como a divisão e parcelamento das tarefas, as políticas de gerenciamento das pessoas e a estrutura hierárquica organizacional. Os transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho resultam, assim, não de fatores isolados, mas de contextos de trabalho em interação com o corpo e aparato psíquico dos trabalhadores. As ações implicadas no ato de trabalhar podem atingir o corpo dos trabalhadores, produzindo disfunções e lesões biológicas, mas também reações psíquicas às situações de trabalho patogênicas, além de poderem desencadear processos psicopatológicos especificamente relacionados às condições do trabalho desempenhado pelo trabalhador.

Atuar como perito criminal exige que esses trabalhadores desenvolvam estratégias onde eles possam atuar coletivamente, individualmente e diariamente com a violência e os crimes, que não são estáticos, mantendo a saúde mental e a qualidade de vida. Necessitam se abrir para sanções nas áreas de saúde e segurança do trabalho de maneira que as ações preventivas, treinamentos contínuos e a conscientização da importância dos cuidados permanentes nas áreas citadas acima são primordiais para manutenção da integridade de suas vidas e manutenção de sua saúde.

Nada melhor que uma bela entrevista com profissional especialista e atuante na área para conhecermos a realidade de um local de crime…

Daniel da Costa e Silva Coelho Soares
Perito Oficial Crimina da POLITEC/MT
Ex-gerente de Perícias em Mortes Violentas da POLITEC/MT
Analista de Manchas de Sangue – Membro da IABPA
Membro do GAPE (Grupo de Atuação em Perícias Especiais)
Coordenador da Câmara Técnica de Local de Crime – SESP/MT
Chefe de Operações da POLITEC no CICR/MT durante copa 2014
Chefe de Operações da POLLITEC na chacina de Colniza- Abril 2017
Professor da ACADEPOL/MT
Professor da Academia de Peritos da POLITEC/MT
Mestre em Ciências com ênfase em Química Analítica pela USP
Especialista em Gestão Pública pela UFMT
Bacharel em Química pela UFSCar
Licenciado em Química pela UniFan

1- Qual a sua graduação?

Sou formado em Química pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP).

2- Chegou a atuar em sua área de graduação?

De certa forma até hoje eu atuo em minha área de formação, uma vez que no local de crime é necessário se ter diversas áreas de conhecimento.

Mas em relação ao laboratório especificamente falando, eu atuei pouco tempo quando ingressei na Perícia e logo em seguida consegui minha transferência para a Identificação Veicular, gerência onde fiz amplo uso de meus conhecimentos químicos para realizar exames metalográficos (revelação de numeração oculta de chassi e motor).

3- Quando entrou na área de perícia criminal?
Estou a 9 anos na área da Perícia Criminal, ingressei em 2011.

4- Logo que foi lotado em serviço público como perito criminal, já foi para local de crime?

Sim, pois eu cheguei a acompanhar alguns plantões de local de crime durante o curso de formação e após o mesmo. Entretanto, primeiramente fui lotado em outras seções e após 2 anos de perícia criminal que fui lotado no plantão de local de crime, inicialmente como clínico geral (fazendo todos os tipos de perícias externas: vida, trânsito e patrimônio) e atualmente como especialista em crimes contra a vida.

5- Como foi sua primeira experiência em local de crime?

A primeira vez em si foi bem tranquila, pois eu já vinha me preparando para o trabalho que eu havia escolhido para mim, tanto emocionalmente quanto psicologicamente. A única vez que me vi abalado com meu trabalho, de forma a ficar relativamente consternado foi a primeira vez que fiz perícia em um local onde um recém-nascido com poucos dias de vida havia sofrido uma morte por asfixia, ele se engasgou com seu regurgito e veio a óbito. Aquela cena mexeu comigo naquele momento pois eu estava preparado para fazer perícia de tudo, acidente de carro, tiro, facada, um, dois, dez corpos, homens, mulheres, idosos, mas nunca havia imaginado fazer perícia em um recém-nascido.

6- Como você lidou com questões emocionais e psicológicas?

Eu tento entender que todos nessa vida possuem uma missão e quando esta missão é completada, somos levados, bem como acredito muito na lei do retorno, onde tudo aquilo que semeamos ao longo de nossa vida, uma hora nós vamos colher.

Estas coisa de certa forma me confortam e acalmam meu coração, pois quando vejo uma cena, que para muitos é aterrorizante, eu vejo ali um objeto de trabalho, um local onde alguém ainda vai colher o mal que ela fez ao próximo e para que isso aconteça eu preciso dar o melhor de mim naquele lugar, independentemente de quem seja, independentemente se o cadáver que está ali esteja colhendo aquilo que semeou a um tempo atrás, não cabe a mim e a ninguém julgar o outro, então eu apenas vou e faço o meu trabalho da melhor forma possível.

7- Você já tirou alguém atestado médico relacionado à sua prática profissional?

Nunca precisei tirar nenhum atestado médico, entretanto vejo constantemente excelentes
profissionais que estão na lida diária, adoecerem devido ao nosso objeto de trabalho, uma vez que trabalho com cenas muito fortes, impactantes e com uma carga emocional negativa acima do comum.

8- Já sofreu alguém acidente de trabalho?

Nunca sofri nenhum tipo de acidente de trabalho, mas vou lhe dizer a verdade, foi porque a sorte até hoje sempre esteve ao meu lado. Pois trabalhamos em condições totalmente fora das ideais, em terrenos muitas vezes acidentados, sem todos ou até mesmo sem nenhum equipamento de segurança necessário.

Enfim fazemos muito pelo amor a profissão e pela população que necessita de nós.

Durante uma perícia recente, acabei caindo dentro do esgoto durante o deslocamento para
recuperar um vestígio importante para os exames periciais, por sorte não me machuquei e nem adoeci.

Mas já tive colega que trabalho que durante a perícia caiu e quebrou o braço e outra que foi atropelada durante um exame pericial de acidente de trânsito, ela teve que passar por diversas cirurgias e ficou com sequelas físicas permanentes devido a esse fato.

9- Qual foi o pior momento que você já passou em um local de crime?

Sem dúvida os piores momentos que já passei durante a minha carreira como Perito Criminal foi quando tive armas apontadas para mim.

De longe o mais tenso de todos foi quando apontaram uma arma na minha cabeça enquanto eu realizava o levantamento pericial em um local de homicídio e nessa época eu não andava armado.

Entretanto teve uma outra vez, onde eu me deslocava sozinho em uma viatura caracterizada, retornando de uma perícia, e neste exato momento ocorreu um roubo a uma mulher, um indivíduo armado roubou a bolsa com os pertences da mulher, então a mulher se jogou na frente da viatura e pediu a minha ajuda e então o indivíduo apontou a arma pra mim e para a viatura. Como na época eu também não andava armado eu nada pude fazer, apenas falei para que ela adentrasse na viatura que eu a conduziria à base da PM mais próxima para relatar a ocorrência e assim o fiz.

10- Já esteve em algum local de crime onde foi necessário o uso de arma de fogo? Houve troca de tiros?

Sim, certa vez estava em um local de crime onde todos os vestígios me apontavam que o tiro que matou a vítima havia sido disparado de dentro de uma mercearia, a qual era anexa a uma residência, que estava com a porta abaixada e havia a possibilidade do autor ainda estar dentro da mercearia. Eu tinha duas opções ou entrava junto com a polícia civil na mercearia ou ficava sozinho na rua, em um bairro onde havia acabado de ocorrer um homicídio. Como eu possuo alguns treinamentos táticos, eu avaliei e cheguei a conclusão de que a minha opção mais segura era adentrar ao imóvel juntamente com os policiais civis. Infelizmente o indivíduo não se encontrava mais lá. E graças a Deus nunca participei de nenhuma troca de tiros.

11- Em relação aos crimes já atendidos, houve algum que te marcou?

Acredito que mesmo sem percebermos todo crime deve acabar marcando alguma coisa em nós. Mas acredito que a Chacina que atendi em Colniza no ano de 2017, é algo que sempre irei lembrar, tanto pelo grau de dificuldade da perícia (terreno, necessidade de preparo físico, decomposição dos corpos, dificuldade de acesso, logística, entre outros), quanto pela quantidade de corpos, o grau de brutalidade das lesões, o protocolo de atendimento diferenciado que tivemos que usar, pois usamos os protocolos de atuação da INTERPOL para desastres em massa, bem como a brilhante atuação da equipe frente as dificuldades encontradas.

12- Existe algum tipo de crime que você evita atender?

Por questões de afinidade eu evito atender acidentes de trânsito, não porque eu não saiba ou porque ausência de conhecimento técnico. Mas apenas por questões de gostar mais dos crimes contra avida, tanto que hoje sou lotado na Gerência de Perícias e Mortes Violentas e atendo apenas homicídio, suicídios ou mortes suspeitas.

13- Você conhece os riscos ocupacionais de área de atuação?

Conheço alguns, certamente desconheço vários. Sei sobre as questões de insalubridade,
periculosidade, AVC, uso abusivo de álcool, tabagismo, uso de drogas e alguns transtornos psicoemocionais que podem surgir em decorrência da minha atividade laboral.

14- Você conhece as doenças relacionadas ao trabalho?

Conheço algumas, as mais comuns: dengue, tétano, tuberculose, hepatite, Febre amarela, AIDS, depressão, síndrome do pânico e ansiedade.

15- Como você imagina sua saúde mental relacionada ao trabalho para o futuro?

Nunca parei para pensar nisso de forma mais contundente, sempre pensei muito no agora e sei que por enquanto meu trabalho ainda não afeta minha saúde mental, mas ouço muitos colegas de trabalho relatarem e observo também no cenário geral, que o Perito tem uma vida laboral relativamente curta, principalmente o de Local de Crime, todas as cenas que vemos e situações que passamos, sem qualquer tipo de acompanhamento psicológico contínuo por meio do Estado, me fez perceber que alguns colegas mais antigos adoeceram, alguns de forma mais profunda do que outros, porém que hoje precisam fazer tratamento psicológico constante, seja por depressão, por ansiedade ou síndrome do pânico. Eu sempre tento fazer meu autodiagnostico e tentar saber o quanto isso ou aquilo mexeu comigo. Tenho amigos jovens que solicitaram remoção entre seções pois observaram que o trabalho estava mexendo psicologicamente com eles.

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