Perturbações na Cultura do Dissenso e nos Princípios Democráticos

Recuperar o tônus democrático requer um novo saber,
cuidadosa ponderação e inovação em vários níveis. A estrutura
da esfera pública precisa ser revista enquanto fórum
permanente de dissenso e busca do consenso. É preciso
desenvolver uma cultura adequada do uso da língua e do
dissenso que aceite a diversidade e, ao mesmo tempo, seja capaz
de estabelecer limites às interações e confrontos, que devem
transcorrer dentro de princípios democráticos.

Os estilos linguístico e de argumentação mudaram na esfera pública, tanto no parlamento, como nos diálogos pessoais e nas mídias sociais. E as razões são muitas. Dizer algo simplesmente razoável já é quase uma garantia de não ser notado. O que importa mesmo são as competições pessoais e os excessos retóricos que dominam os discursos eletrônicos, nas novas mídias, há algum tempo. Conclusões precipitadas e tendência à histeria revelam narrativas de declínio democrático, ressentimento, desamor e dissenso patológico.

Não é fácil conviver em um espaço democrático quando o discurso de ódio tornou-se uma constante e o exercício do dissenso saiu de moda.

O dissenso, fundamental no exercício da democracia, significa falta de entendimento, de concordância, implica contradição, contraste, discrepância, dissensão e discórdia dentro de uma atmosfera de paz, respeito, compostura e educação.

A democracia, como se sabe, é um arranjo politico ambicioso que se alimenta do dissenso e do seu oposto o consenso, e o equilíbrio entre ambos a sustenta ou faz cair.

Uma sociedade liberal nunca poderá ser uma sociedade sem dissenso. Contudo, este não acontece simplesmente e deve ser amplamente aceito. A coesão de uma sociedade em torno de uma comunidade democrática exige que seus integrantes saibam resolver seus dissensos, suportá-los e superá-los.

Garantir autonomia, responsabilidade e respeito aos espaços de liberdade são os maiores desafios que enfrentam os regimes democráticos atuais.

As arenas nas quais os dissensos públicos acontecem estão cada vez mais diversas e indistintas, impregnadas de discussões estéreis, desnecessárias e manipuladoras, e o pessimismo educativo parece ter tomado conta delas.

Os desafios atuais, portanto, dizem respeito à necessidade de um novo entendimento sobre a cultura do dissenso e do uso da linguagem. O que equivale a dizer que retóricas apocalípticas da exacerbação devem dar lugar àquela que valoriza uma interação tecnicamente correta, oportuna, distanciada e civilizada no tom.

Nesse contexto, a pergunta que se insurge diz respeito ao que pode estar causando reiteradas violações da cultura do dissenso e da língua – que já excedem casos individuais e isolados e são percebidas com frequência cada vez maior.

Certamente, as causas são diversas.

Os meios de comunicação de massa tradicionais, tais como a TV, o rádio e a imprensa, estão sendo completamente transformados e modificados pela comunicação online, a qual oferece a possibilidade de incluir muitas pessoas com suas opiniões e visões, grande parte das vezes, contraditórias. Diante disso, o campo da esfera pública fica mais vulnerável e se reduzem a possibilidade do controle de qualidade e a pertinência do uso da linguagem, assim como a atenção às regras práticas do dissenso e do bom senso.

As arenas públicas que se desenvolvem sem a cultura adequada do dissenso e do uso da linguagem dão margem a interações tecnicamente incorretas, distanciadas do objeto propulsor, que lhe deu causa, e incivilizadas no tom.

Contudo, as várias mudanças na forma e estrutura da esfera pública não são as únicas razões na crise da cultura do dissenso e do uso da língua.

O descontentamento, isto é, a raiva que extrapola o tema objeto do discurso e atinge a pessoa, enquanto indivíduo único e independente, associado às transformações das mídias frente a uma comunicação mais veloz e anônima, amplifica-se no campo político onde se confrontam, sem piedade, a ética, a razoabilidade e a autocrítica, e põe em confronto apoiadores e opositores, que destas posições passam a gladiadores contumazes.

Recuperar o tônus democrático requer um novo saber, cuidadosa ponderação e inovação em vários níveis. A estrutura da esfera pública precisa ser revista enquanto fórum permanente de dissenso e busca do consenso. É preciso desenvolver uma cultura adequada do uso da língua e do dissenso que aceite a diversidade e, ao mesmo tempo, seja capaz de estabelecer limites às interações e confrontos, que devem transcorrer dentro de princípios democráticos.

Outro fator responsável pelas transformações nos princípios democráticos diz respeito às formas de manifestação do poder, cujo exercício se expressa reafirmando ou negando liberdades.

O poder, segundo as modalidades que assume, pode habilitar os governantes a impor sua vontade, por meio da violência verbal e dissuasória, dentre outras, contra aquela dos submetidos ao poder.

O sujeito submisso não é nunca consciente de sua submissão. O contexto de submissão permanece inacessível a ele, dai porque ele se sente em liberdade. Contudo, não está.

Foto reprodução – cadenaser

Como observa o filósofo Byung-Chul Han[1] “é o poder inteligente que se plasma à psique, em vez de discipliná-la e submetê-la a coações e proibições. Ao contrário, ele, o poder, quando bem exercido, nos convida a compartilhar incessantemente, participando, dando opiniões, comunicando necessidades, desejos, preferências, contando sobre nossa própria vida”.

Trata-se de um poder afável, por assim dizer, mais poderoso do que o repressor, seja a repressão direta ou indireta. O poder afável, de que nos fala Chul Han, escapa a toda visibilidade.

Sem dúvida as transformações dos princípios democráticos, atualmente, estão relacionadas com a crise atual de liberdade, na medida em que o poder instalado no Brasil limita, oprime e rejeita a liberdade e não a explora, incentiva e promove. A livre escolha parece ter desaparecido em prol de uma livre seleção entre as ofertas oferecidas pouco ou nada democráticas.

É no poder inteligente e afável, liberal e propulsor da livre escolha que a cultura do dissenso encontra seus fundamentos, e nenhuma forma de submissão pode ser admitida ou tolerada na cultura democrática do dissenso.

Quanto maior é o poder, mais silenciosamente deve atuar e se desenvolver – sem ter a todo o momento que apontar para si mesmo. É o poder inteligente e afável que estimula o dissenso civilizado e republicano e reafirma os princípios democráticos que devem pautar os debates hoje.

[1] In “Psicopolítica – O Neoliberalismo e as Novas Técnicas de Poder”. Belo Horizonte: Editora Ayiné. 2018.

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