Poema na morte de Dom Pedro Casaldáliga

Foto: Instituto Humanitas Unisinos

Portugal, agosto de 2020 – Não obstante serem inevitáveis as leis da natureza, que ditam a vida e a morte dos seres que nela habitam, torna-se comovente e nostálgico receber a notícia do falecimento de um grande ser humano, que ocorreu no passado dia 8, aos 92 anos de idade. Era do tamanho da sua simplicidade e entrega ao próximo mais do que a si mesmo.

Trata-se do bispo católico espanhol Pedro Casaldáliga, nascido na Catalunha e radicado no Brasil desde 1968 (por coincidência, o ano do tenebroso Ato Institucional n.º 5), quando decidiu seguir a sua missão pelo mapa dos mais pobres, nomeadamente os camponeses sem condição social alguma, os analfabetos, os marginalizados, os povos indígenas, os oprimidos e todos os outros seres humanos sem uma réstia de esperança e de direitos.

Casaldáliga, antigo prelado de São Félix do Araguaia, pertence ao grupo de cardeais e bispos católicos do Brasil que fizeram oposição cerrada à ditadura militar (1964-1985), como, por exemplo, os gigantes dos direitos humanos e da liberdade dom Paulo Evaristo Arns e dom Helder Câmara, bem como dom Tomás Balduíno, dom Moarcin Grechi, dom José Maria Pires, dom Ivo Lorscheiter, dom Mauro Morelli e dom Aloísio Lorscheider.

Este grupo de prelados corajosos, cuja lista de figuras podemos prolongar, ousaram denunciar a repressão, a violação dos direitos humanos, a falta de liberdade, de democracia e de direitos sociais. Falaram bem alto, foram muito destemidos, por vezes sofrendo perseguições e até ameaças de morte.

Estou a falar, sem dúvida, de um grupo de clérigos pertencentes (uns mais, outros menos) à Teologia da Libertação, que, ao contrário do que se pensa em Portugal e no resto da Europa, não é um manto unilateral e uniforme de conceitos e de ação ou apêndice de regimes políticos. Quis e, de certo modo, conseguiu alterar as circunstâncias e até algumas das estruturas socioeconômicas do seu país de forma a que os benefícios sociais daí decorrentes estivessem mais de harmonia com o Evangelho, de Jesus Cristo, a “opção preferencial pelos pobres”. Pelo que conheço, este movimento teológico é um conjunto de comunidades de base que estabelecem ligação radicalmente próxima e implicada com as pessoas mas de forma diferenciada de comunidade para comunidade, mantendo assim a democraticidade dos vários pensamentos de ação e respeitando as diversidades sociológicas nos pontos geográficos onde se instalou. Não é um partido ou uma confederação de partidos. Não quis nem quer instalar regimes políticos; insere-se no destino do Homem Novo a partir de uma peregrinação interior, uma revolução amorosa a partir de cada coração humano. É um apelo convicto e lutador, não é uma imposição. É uma Utopia (com letra inicial maiúscula), mas realizável; portanto, não é uma quimera. É uma teologia que incomodou o poder político na América Latina e até a própria Cúria Romana, assim como incomoda ainda hoje em certos domínios da esfera político-econômica e até eclesial, porque fala da injustiça. Felizmente que o papa Francisco, ao contrário da posição anteriormente assumida pela Cúria, tem sabido dialogar e receber os membros deste movimento; abraça-os e ouve-os até para redação de documentos pontífices.

Francisco, papa argentino e profundo conhecedor das questões profundas da América Latina, sabe que este grupo de clérigos salvou a imagem da Igreja Católica no Brasil, que denunciou os algozes e a ditadura, que acolheu e salvou presos políticos, que deu e dá conteúdo social e emancipação de cidadania a muitos brasileiros. Sim, salvou a imagem da Igreja, tornando-a mais humana e missionária, ao invés de outros prelados que, emaranhados nas comezinhas tarefas do conformismo ancestral e do comodismo institucional, provocaram a saída em massa  de muitos fiéis – de mal a pior – para as seitas neo pentecostais, adeptos da extrema-direita que se portam como empresários da fé, vendilhões do Templo. Por ironia do destino, estes uniram-se aos padres católicos da Canção Nova na campanha para a eleição de Bolsonaro.

Recentemente, perguntei a um bispo português se a Teologia da Libertação foi difamada em Portugal e na Europa. Respondeu-me prontamente: “Claro que sim, meu amigo. Foi muito difamada. Há 40 anos foi-nos dada uma imagem errada, como se tratasse de um grupo terrorista, quando, na verdade, acudiu aos humanos que eram tratados como bichos”. Nessa conversa, o meu amigo bispo lamentou com um nó na garganta, e por duas vezes, a atitude do Vaticano quando não valorizou as ameaças de morte a Óscar Romero, arcebispo de El Salvador, que acabou por ser assassinado a 24 de março de 1980 por um atirador de elite do Exército ao serviço da ditadura naquele país. Tendo-se queixado a João Paulo II pouco tempo antes do sucedido, o papa da altura ter-lhe-ia respondido assim: “Não exageres!”.  Francisco canonizou o mártir salvadorenho a 14 de outubro de 2018.

Na hora da partida-regresso de Pedro Casaldáliga, que também era poeta e autor de vários livros, dedico-lhe um poema, uma humilde homenagem, que não é memorialista mas de encontro com o futuro, de concretização plena da Utopia, do Homem Novo. A sua partida-regresso dá-se numa fase tão difícil da história do mundo, em tempos de crise pandêmica, com os efeitos nefastos já demonstrados. Por isso, é urgente, é imperioso trazer o bispo-poeta de novo à existência terrestre para nos dar inspiração e vontade para acreditarmos que não encontramos Cristo em aposentos dourados do conformismo institucional mas nas margens do rio da cidade grande, desprovido de si mesmo e à espera de O acolhermos na nossa mesa, comendo todos do mesmo Pão, a fonte da Vida!

Poema na morte de Dom Pedro Casaldáliga

Voltaste ao centro da Terra como um astro clemente

Sem luzes, sinfonias ou discursos. Morreste

e voltaste na hora da partida, sabendo que há ruas e abrigos

onde moram os seres inúteis, sem fala ou condição.

Vieste de novo, na emergência da ressurreição dos mortos,

que o fim de mundo que há de vir está nas paragens dos autocarros,

parados na margem da cidade grande,

a pátria que não dorme e por vezes se injustifica.

Morreste e vieste de novo

e virás com lágrimas de esperança

sempre que um menino chorar, em qualquer parte que seja,

faminto do seu próprio ser. Porque é preciso desconformar

o cântico dos anjos anunciando o fim do mundo. Oremos

com o canto da terra, donde viemos e seguiremos em frente

na construção dos edifícios

e do homem novo!

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José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, residente em Portugal. É membro fundador (e ativo) de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, e fundador e mentor do bem sucedido movimento cultural Tertúlias Itinerantes. Licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o Mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online.

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito linda está crônica em homenagem a dom Pedro. O bispo humano das causas dos pobres e injustiçados. Obrigada, amigo José Carlos!

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