A democrática mudou profundamente o mundo, enquanto ordem política cuja força está na submissão do exercício do poder ao consentimento dos governados. O poeta Charles Bukowski já dizia que a diferença entre democracia e ditadura resulta do fato de que na primeira se pode votar antes de obedecer às ordens de alguém. É por meio da democracia e do regime da liberdade, que a história humana se tornou uma narrativa de dignidade e progresso.

Contudo, à medida em que se observa com mais atenção fatos recentes constata-se, sem grandes esforços, que a democracia vem passando por transformações e enfrentado inúmeras tensões. Dito de outra forma, o horizonte foi se escurecendo. Já não se trata mais de reforçar o processo democrático naqueles países onde ainda encontra-se frágil. E, sim, de proteger e defender até mesmo naqueles países nos quais o regime democrático já está estabelecido faz tempo.

O fenômeno da “polarização” (ou “radicalização”) é um dos sintomas do adensamento das tensões e da falta de competência e habilidade da política partidária de dar respostas às principais insatisfações das populações.

No Brasil, o percentual de descontentes com o funcionamento da democracia atinge 77% da população, deixando o país só atrás da Croácia com 81%, de acordo com estudo da “Fondapol – Fondation Pour L´Innovation Politique”, um “think tank” liberal e progressista europeu.

Certamente, há diferenças marcantes entre os 42 países analisados pela Fondapol. Entretanto, o estudo revelou traços comuns na percepção dos pesquisados no que diz respeito ao funcionamento da democracia e ao sintoma da polarização e radicalização dos discursos à direita e à esquerda.

Grande parte das razões da insatisfação das pessoas e da simpatia pelos discursos radicais, especialmente dos falsos mitos, oportunistas vociferantes, tem origem no processo de globalização e modernização tecnológica dos mercados, que deixa à margem da riqueza e do processo produtivo, sobretudo, pequenos empresários, funcionários do setor de comércio e serviços, desempregados e operários. Da mesma forma, jovens e pessoas entre 35 e 59 anos também têm avaliado negativamente a democracia, tendo ido se abrigar em grupos das extremas direita e esquerda, independentemente dos vínculos ideológicos, privilegiando o pertencimento ao grupo, à massa, ao líder.

Em uma escala de zero a dez, o Brasil recebeu nota 2,8 no que se refere à satisfação com o regime democrático vigorante no país. Ainda que a avaliação tenha sido baixa e o nível de insatisfação seja grande, os brasileiros não pretendem ver instaurado (no país) um novo regime militar. Todavia, tendem a se refugiar na polarização e radicalização cuja lógica é quase a mesma: autoritária, ditatorial, retrógrada, rançosa e nada democrática.

Para 67% dos entrevistados brasileiros, a democracia é o melhor sistema possível e é insubstituível. Na pergunta sobre qual sistema de governo seria o mais eficaz para o combate a corrupção, a democracia recebeu maior percentual de apoio (24%), comparativamente ao autoritarismo (14%).

São dados alarmantemente baixos e revelam que o tecido político-social está enfermo.

O fato de o estudo da Fondapol revelar, principalmente no que tange aos brasileiros, insatisfação com o funcionamento da democracia, indica, claramente, que não há adesão expressa e clara ao autoritarismo. Todavia, o brasileiro nos dá a notícia de que, ao se abrigar na polarização radicalizada e ao se deixar guiar pela figura do líder autoritário, fica preso na armadilha do seu próprio desmentido: valoriza o regime democrático se as regras forem ditadas pelo seu profeta preferido.

É inegável que a insatisfação com a democracia e a identificação com os discursos radicais estão diretamente relacionadas com o estado da economia.

As questões relacionadas ao desemprego e à crise financeira e fiscal também estão dentre as principais preocupações dos brasileiros

Implicam angústias, igualmente significativas para os brasileiros, a delinquência e a segurança pública. Problemas sujeitos a soluções mágicas que brotam dos discursos fáceis dos chefes autocráticos e carismáticos. Diferenças religiosas, nacionalismo exacerbado e orientação sexual são temas sempre usados como ponta de lança que caracterizam e diferenciam os extremos – mais pelo que têm de desacertos e incoerências do que pelo conteúdo que carregam de correção e adequação com a mentalidade e sensibilidade médias de uma nação.

Contudo, enquanto a democracia vai apanhando à direita e à esquerda, polarizadas, os partidos moderados ao centro, pulverizados e narcísicos, debatem-se em busca do poder.

Exemplo recente da falta de concertação em nome de uma pauta de moderação e da prerrogativa do interesse público, nos chega do Chile, cujas eleições prévias para presidência do país catapultou ao segundo turno, previsto para 19 de dezembro, dois candidatos nas extremas esquerda e direita. Enquanto o centro, expresso nas tradicionais “Concertação de Centro Esquerda” e “Unidade Democrática de Centro Direita”, desunidas e desarticuladas, apresentaram mais de cinco candidatos – todos derrotados. Deixaram as prévias presidências diminuídas, fragmentadas, desconcertadas e desunidas.

Na Venezuela, em eleições recentes para cargos públicos no executivo e postos nos legislativos regionais, a oposição desorganizada e desarticulada, novamente não fez nem sombra ao partido do governo de N. Maduro.

Não precisamos olhar mais longe.

No Brasil, a polarização, radicalização e vociferações de ódio não resultam apenas da competência e carisma dos caudilhos forjados em argamassa ruim, mas sim da inaptidão dos partidos de centro, centro esquerda, centro direita e compares, de encontrar o fio de Ariadne para deixar o labirinto com alternativas plausíveis, lógicas, capazes de fazer da vida partidária um jogo democrático cuja última casa é a realização do bem comum.

Sentimentos de desapontamento, de ceticismo e de frustração de expectativas, como temos visto aqui e acolá, devem servir de alerta para que se renove constantemente a cultura democrática de liberdade e de valorização do homem, assim como se fomente a alternância política e geracional no poder pelo bem de todos.

Certamente, “não há santos nos regimes democráticos” (Paulo Freire), mas “todos os males da democracia se podem curar (apenas) com mais democracia” (Alfred Emanuel Smith).