Política do confronto ameaça a paz entre Grécia e Turquia e surpreende o mundo

As manobras beligerantes do Presidente Recep Erdogan somente podem se justificar no anseio histérico do retorno da Dinastia Otomana. Sua intenção talvez seja aquela que levou os otomanos a acabar com o Império Bizantino ao conquistar Constantinopla, em 1453, aventura bem sucedida que deu a Maomé o titulo de “O Conquistador”, o mesmo pleiteado agora por Erdogan.

 

Os últimos dias têm sido de adensamento das tensões entre Istambul e Atenas no Mediterrâneo Oriental. A disputa chegou a tal ponto que os 27 países membros da União Europeia acordaram em impor sanções à Turquia se a temperatura não baixar na região, e convocaram uma reunião de cúpula, prevista para o dia 24 de setembro, próximo, em Berlim, para discutir o problema entre Grécia e Turquia.

Como se sabe, a Grécia faz parte da União Europeia e a Turquia espera ser aceita no seleto grupo, já faz um bom tempo. Contudo, suas chances, diante das últimas manifestações do Presidente turco, tornam o sonho de ingressar no bloco europeu cada vez mais distante, se não impossível.

O que está em jogo entre Atenas e Ankara é a soberania sobre uma zona do Mediterrâneo Oriental rica em hidrocarbonetos, os principais constituintes do petróleo, formados a partir da deposição de matéria orgânica no fundo dos mares e lagos, e da sedimentação desse material sob altas pressões e temperaturas.

Acerca de duas semanas atrás, os turcos avançaram em direção ao Mediterrâneo Oriental e iniciaram operações petroleiras de prospecção sísmica, com deslocamento do navio Oruç Reis para dentro de uma zona situada entre Creta e Chipre.

Para a Grécia, essas manobras turcas são ilegais e violam a soberania grega sobre seu domínio marinho. Em razão disso, o Ministro das Relações Exteriores grego afirmou que a Grécia não hesitará, sequer um minuto, em aplicar sanções, caso a Turquia não recobre a razão e volte a dialogar. Reafirmou, também, que a Grécia não vai aceitar provocações, ações arbitrárias e violações ao direito internacional. Por fim, ampliou o problema, sinalizando que a Turquia não se comporta como um aliado da OTAN.

Por outro lado, o comportamento de Recep Erdogan se justifica no que se pode chamar de “Síndrome do Tratado de Sèvres”, problema antigo e já historicamente superado, mas que parece ter atingido em cheio o Presidente turco.

O Tratado de Sèvres, celebrado em 10 de agosto 1920, logo após a Primeira Guerra Mundial, partilhou o Império Otomano entre o Reino da Grécia, o Reino da Itália, o Império Britânico e a República Francesa que, tanto cedeu territórios quanto criou zonas de influência. Ademais, o Tratado de Sèvres estabeleceu a independência da Armênia e a criação de um estado curdo. Todavia, esse Tratado acabou não sendo cumprido, tendo sua eficácia recusada pelo movimento nacionalista turco, chefiado por Mustafà Kemal Atatürk, vencedor da guerra da independência turca (1919-1922). Foi Mustafà que botou para correr as forças de ocupação estrangeiras. O Tratado de Sèvres foi, então, substituído pelo Tratado de Lausanne, assinado em 24 de julho de 1923, entre a Turquia, de um lado e, de outro, pela França, Itália, Reino Unido, Japão, Grécia, Romênia, Reinos dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, dentre outros.

O Tratado de Lausanne definiu as fronteiras da Turquia moderna que acabou por renunciar às antigas províncias árabes, à Ilha de Chipre e ao Dodecaneso – um grupo de 12 ilhas gregas localizadas na extremidade leste do mar Egeu, junto à costa sudoeste da Turquia. O território da Turquia passou, então, a limitar-se à Anatólia (ocidental e oriental) e à Trácia Oriental. Seguiram-se as trocas populacionais entre gregos e turcos – 1,6 milhões de gregos otomanos e 385 mil muçulmanos da Grécia.

Os aliados, que figuravam no Tratado anterior de Sèvres, obtiveram naquele de Lausanne importantes concessões por parte da Turquia, relativamente aos territórios árabes e europeus do extinto Império Otomano. Em contrapartida, os aliados renunciaram às suas reivindicações referentes à independência ou autonomia do Curdistão e da Armênia, previstas no Tratado de Sèvres. Os controles sobre as finanças e as forças armadas turcas foram suprimidos. Os estreitos dos Dardanelos e do Bósforo foram abertos sem restrições ao comércio.

Paralelamente, o governo turco celebrou o Tratado de Kars, com a União Soviética, por meio do qual os soviéticos entregaram à Turquia um território muito disputado e atribuído à Rússia pelo antigo Tratado de San Stefano, de 1878, povoado pelos lazos, meskhetes e armênios que foram, logo, expulsos e substituídos por turcos e curdos.

Portanto, as manobras beligerantes do Presidente Recep Erdogan somente podem se justificar no anseio histérico do retorno da Dinastia Otomana. Sua intenção talvez seja aquela que levou os otomanos a acabar com o Império Bizantino ao conquistar Constantinopla, em 1453, aventura bem sucedida que deu a Maomé o titulo de “O Conquistador”, o mesmo pleiteado agora por Erdogan.

Por essas e outras razões, o Presidente francês E. Macron, do Palácio do Eliseu, em Paris, dispara contra o Presidente turco: “esclareça suas intenções”, “abandone o confronto”, caso contrário a “União Europeia não será modesta nas sanções contra os turcos”.

Recep Erdogan, de Istambul, não deixa por menos, e retruca: “Presidente Macron, não se intrometa nos problemas da Turquia. O Senhor não tem conhecimento histórico”. E acrescenta: “a França não pode dar lições de humanidade à Turquia em razão de seu passado colonial na Argélia e de seu papel no genocídio perpetuado em Ruanda, em 1994”.

Se faltam conhecimentos a E. Macron, não é difícil concluir que R. Erdogan também gazeteou as aulas de história e geografia, especialmente aquelas sobre as concessões e divisões de territórios após o fim do Império Otomano.

Enquanto isso, daqui, de longe, acompanhamos o embate de titãs.

Para melhor se defender, a Grécia precisa se armar.

O Presidente turco não é homem com quem se brinque e não parece, neste momento, estar blefando. Razão pelo qual, o conselho dos franceses à Grécia é para que finalize, o mais rápido possível, as compras de novos aviões de combate, navios de guerra e armamentos franceses que, no período da pandemia, viram suas vendas diminuírem consideravelmente.

Ora, enquanto uns ganham, outros perdem.

Contudo, uma coisa é certa: a técnica do “confronto” na condução da política externa, em princípio, se sustenta na esperança de sucesso. Depois, vem a expectativa de que o adversário vai fracassar. Não demora muito, e surge a satisfação de ver que o adversário não se deu bem e, finalmente, a surpresa de ver que todos perderam.

 

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