Por amor ao mundo

O amor ao mundo é a consequência ética de toda ação política. Consiste, portanto, em um genuíno interesse pela vida pública, cujo exercício promove espaços onde as singularidades podem divergir, dialogar, expor suas ideias e, acima de tudo, construir e agir em conjunto. Dessa forma, as virtudes da amizade, coragem e respeito são imprescindíveis, na medida em que delas originam-se elos que vinculam as individualidades a um mundo comum.

Em tempos recentes talvez nunca tenha sido mais oportuna a leitura do livro “O Homem em Tempos Sombrios”, da pensadora e escritora americana de origem alemã Hanna Arendt, exemplar de ser humano e intelectual de grande estatura acadêmica. Nessa obra lapidar, contextualizada em tempos sombrios do século XX, em meio a catástrofes políticas e desastres morais e éticos de todos os tipos, Arendt destaca o papel que a “amizade”, a “coragem” e o “respeito” possuem para o que chama de “amor ao mundo”, ou ainda, “responsabilidade política”.

Hannah Arendt em 1933 (Foto reprodução)

Segundo Hanna Arendt, o exercício da política exige “diálogo” e “ação”, contextualizados ao lado de outros fatores igualmente importantes como a “pluralidade” e a “singularidade”.

O amor ao mundo é a consequência ética de toda ação política. Consiste, portanto, em um genuíno interesse pela vida pública, cujo exercício promove espaços onde as singularidades podem divergir, dialogar, expor suas ideias e, acima de tudo, construir e agir em conjunto. Dessa forma, as virtudes da amizade, coragem e respeito são imprescindíveis, na medida em que delas originam-se elos que vinculam as individualidades a um mundo comum.

Situações tão peculiares, como as atuais, assoladas pelo “medo” e “angústia” e, especialmente, pelas “incertezas do isolamento”, ou afastamento social, põem em cheque a ilusão de liberdade. Delas também emergem reflexões importantes e capazes de ensinar a “aprender a pensar”, ademais de proporcionar a melhor administração e aproveitamento do “tempo”.

A angústia nos faz pensar se o novo mundo que se vislumbra pós pandemia será melhor ou pior, se a opressão do estado de direito e da lei, assim como aquela opressão do mercado darão, efetivamente, origem a um mundo mais justo.

É em meio a depressão e a melancolia, de que nos fala tão bem Lars von Trier em filme vigoroso, de 2011, que o indivíduo se vê como uma célula que integra o todo. Percebe sua individualidade como parte do todo, sua finitude e dá-se conta de que não pode realizar seus desejos e lidar com os limites, pessoais e temporais, a não ser que (re)aprenda a pensar e melhor relacionar-se com o tempo e, especialmente, consigo mesmo.

Então, o “pensar”, o “refletir” o “reinventar-se” ganham vida novamente.

Sentimentos, pensamentos, expectativas, sonhos, projetos, afetos, desafetos, pessoas, tesouros do passado, já considerados mortos ou esquecidos, ganham vida de novo, voltam a reivindicar espaço e revelam-se completamente diferentes das trivialidades já conhecidas e gastas. Isto é, surgem (re)significados e redefinidos.

Daí a importância do tempo – aquele que, até agora, nos tinha sido subtraído, roubado, ou que tínhamos deixado escapar.

Antes da pandemia, o nosso tempo era negligenciado e escandalosamente perdido. Passávamos boa parte da vida, como dizia Sêneca, fazendo as coisas mal, uma boa parte sem fazer nada e toda a nossa vida fazendo algo distinto do necessário ou desejado.

Parabenize-se quem tenha conhecido um homem que soubesse dar ao tempo o seu prêmio, reconhecendo o valor de cada momento, compreendendo que se morre um pouquinho a cada dia. Isto porque, tudo que pertence ao passado é do âmbito da morte. O simples ato de crescer, como no caso de uma criança, que se torna adolescente, vem como uma dolorosa abdicação do corpo infantil e suas significações.

O luto e a melancolia, reações normais à perda, de um ente querido, assim como de tudo o que tome as mesmas proporções, são, por conseguinte, fenômenos naturais e constantes durante o desenvolvimento humano. Razão pela qual, somente o tempo fará com que o enlutado descubra e aprenda o que de fato perdeu e se desiniba novamente.

Por essas razões, o isolamento social tem também a missão de nos fazer aprender que muitas coisas ficarão no passado e, principalmente, de que somos proprietários de todas as nossas horas e que ninguém está autorizado a privar-nos delas.

Somente o tempo é nosso. É nosso único bem. Somos menos escravos do amanhã, e das exigências que nos impomos para atingi-lo, se nos tornarmos donos do presente.

Aprender a pensar no tempo que nos transborda agora é o que talvez levaremos de mais valioso no pós pandemia. No seu transcurso é possível que não apenas reestruturemos nosso self, como também iniciemos sólida reflexão sobre o que acontece quando certas personalidades, quando certos tipos de mente são atirados no torvelinho da política e da vida pública. Tal reflexão deve vir associada a questões importantes para o futuro e que dizem respeito a quais serão os efeitos da tirania do poder, do ódio e do ressentimento quando a crise passar?

É inegável que, passada a tempestade e graças ao aprendizado que o tempo nos proporcionar, estaremos todos diante de novos tempos, em nossas vidas privadas e na seara pública. O futuro que se vislumbra exige não apenas que sejamos pessoas melhores, como também que tenhamos políticos com senso de proporção moral e responsabilidade intelectual. Agentes públicos que, no serviço das melhores forças e causas, sejam paradigmas na promoção do diálogo, do respeito e do amor ao próximo na sua singularidade e pluralidade.

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