Por um plano global de confiança e cooperação internacional contra o Coronavírus

A ameaça do coronavírus surge como o estopim de profundas mudanças e rearranjos globais, que o mundo já (re)clamava pelos menos desde os anos 70 e 80 do século XX.
As consequências econômicas da pandemia podem gerar estragos sem precedentes na economia global. Contudo, saídas existem e são inexauríveis se no comando dos países estiverem homens de bem e líderes sensatos, vocacionados e competentes.
A humanidade precisa fazer uma escolha: vamos percorrer o caminho da desunião, ou vamos adotar aquele da solidariedade global?

A pandemia do coronavírus é, certamente, o maior desafio de cidadania que já enfrentamos, pelo menos em tempo modernos. O mundo está diante de duas, dentre outras, questões fundamentais. A primeira delas, de caráter imediato, indaga como vamos superar a ameaça da Covid-19 e, a outra, para ser enfrentada a médio prazo, mas cujas raízes estão fincadas no agora, diz respeito a que tipo de mundo habitaremos quando a crise passar. E ela vai passar.

Sobre tais indagações, o escritor Yuval Noah Harari, debruçou-se em artigo de leitura obrigatória, publicado, recentemente, no “Financial Times”, intitulado “O Mundo Após o Coronavírus”[1]. Segundo ele, estamos diante de uma escolha importante, qual seja, privilegiar o “isolamento nacionalista” ou entender o mundo como uma “sociedade global”. Isto porque, tanto a epidemia em si como a crise econômica resultante são problemas globais, que só podem ser resolvidos eficazmente por meio da cooperação internacional. Para derrotar o vírus, precisamos compartilhar informações e conhecimentos globalmente e rapidamente, diz Harari.

As pessoas precisam confiar na ciência, nas autoridades públicas e na mídia.

É sabido que nos últimos anos, políticos irresponsáveis têm deliberadamente minado a confiança na ciência, nas autoridades públicas e na mídia. Agora, esses mesmos políticos irresponsáveis podem ser tentados a seguir o caminho do autoritarismo, argumentando que não se pode confiar na ciência, nos médicos e nos meios de comunicação.

Mesmo em tempos anormais é importante destacar que, não obstante as poucas vozes contrárias, existe sempre um reservatório de confiança e amizade entre as pessoas e entre as nações.  As pessoas precisam confiar umas nas outras, na ciência, nas autoridades públicas e na mídia. Caso contrário, estaremos irremediavelmente perdidos.

Quando se defende um plano global de confiança e cooperação humanitária e econômica entre as nações, a primeira ação para se derrotar o vírus, é compartilhar informação globalmente, de forma aberta, e humildemente buscar conselhos e ser capaz de confiar nos dados e informações que se recebe de fontes técnicas, institucionais e respeitáveis. Também é fundamental desenvolver um esforço internacional para produzir e distribuir equipamentos médicos, principalmente os mais elementares como, por exemplo, kits de testes, maquinário de tratamento intensivo, luvas, máscaras, aventais, kits de higiene, limpeza e esterilização. Somente um esforço global pode levar a cabo um projeto no qual cada país produza localmente os equipamentos e produtos necessários e encaminhe aos outros seu excedente. Por meio de redes de cooperação eficientes e eficazes é possível fazer chegar material valioso a quem dele necessita.

O coronavírus exige que nos humanizemos e compartilhemos nossas linhas de produção.

A cooperação global também é vital no plano econômico, haja vista a natureza internacional da economia e das cadeias de fornecimento.

Os países precisam entender sem demora que não é possível fechar suas fronteiras totalmente, sem contemplar certas exceções, como, por exemplo, a entrada de viajantes essenciais: cientistas, médicos, técnicos informáticos, jornalistas, políticos, empresários, assim como nacionais e residentes que precisam retornar aos seus países de origem e regressar a estes também. Certamente, tais exceções devem ser objeto de controle, mas não é útil, nem razoável, deixar seus nacionais em país estrangeiro quando clamam por retornar, nem manter os estrangeiros que precisam retornar. Tampouco o “shutdown” deve ser tão severo a ponto de impedir as importações e exportações de produtos vitais, equipamentos médicos, gêneros alimentícios e fármacos entre os países. Decretação de estados de emergência são medidas imprescindíveis, muitas vezes, mas precisam de legislação flexível que proteja as pessoas, de um lado, e, de outro, mantenham o mínimo necessário do tráfego comercial internacional por razões humanitárias e salvaguarda de certos setores da economia.

Infelizmente, neste momento, não se está fazendo nada disso.

Há um vazio assustador de protagonismo de certos países na crise da Covid-19.

Nas crises financeiras de 2008, assim como na do Ebola, em 2014, alguns países, dentre os quais os EUA, assumiram papel de liderança. Todavia, na atual do Coronavírus, há total falta de uma liderança capaz de tomar a frente e fazer avançar um plano eficaz de ação global.

Infelizmente, o que se viu até agora, em certos países, são governantes que nunca assumem responsabilidades, que não admitem seus erros, que envenenam as relações internacionais, que jogam a culpa dos problemas para os outros e gostam, demasiadamente, de tomar para si alguma migalha de crédito por trabalhos realizados por outros.

Indiscutivelmente, existem governos trabalhando bem, porém não se vê uma liderança que tenha percebido que a atual pandemia do coronavírus é uma grande oportunidade de unir nações em torno do conceito de “humanidade”, assim como de compreender que a desunião global talvez seja o perigo mais grave que enfrentamos hoje.

Como chamou atenção Harari, em seu artigo no “Financial Time”, a humanidade precisa fazer uma escolha: vamos percorrer o caminho da desunião, ou vamos adotar aquele da solidariedade global?

NENHUM PAÍS PODE PARAR A TRANSMISSÃO DO CORONAVÍRUS SOZINHO

Por óbvio, a pandemia do coronavírus atingiu o Brasil em momento político e econômico bastante sensível, ademais de seus efeitos na saúde pública já tão combalida. Economia e saúde andam juntas. Não há saídas fáceis e nem alternativas isoladas, para um ou outro dos setores envolvidos. Tampouco, o isolacionismo nacionalista e as disputas diplomáticas em busca de um culpado ou responsável nos levarão a terras seguras e confiáveis.

Tanto isso é verdade, que o Secretário-Geral da OCDE, José Angel Gurría, enviou carta ao Ministro da Economia, Paulo Guedes, classificando a pandemia do novo coronavírus como uma “ameaça sem precedentes para a economia mundial”.

Como é sabido, a OCDE é o clube dos países ricos que reúne, principalmente, as maiores economias mundiais, como os EUA, França, Alemanha, Japão, Canadá e Reino Unidos, dentre outros. O sonho confessado do governo brasileiro atual é o de ingressar nessa organização.

Angel Gurría diz na carta que a pandemia, além de ameaça para a economia, é uma “tragédia humana”. Razão pela qual, sugere que o governo brasileiro implemente imediatamente gastos públicos “muito maiores para as empresas afetadas, com vistas a fortalecer a confiança do mercado e dos negócios, assim como apoie e estimule os bancos a facilitar prazos de pagamento para empresas e famílias temporariamente”.

Enfatiza o Secretário-Geral, que os desafios do momento são os mais significativos para o mercado financeiro internacional desde a crise de 2008.

Sabe-se que as empresas, para manterem os seus negócios, assumirão dividas em níveis sem precedentes. As indústrias mais expostas empregam milhares de trabalhadores e são a força vital de muitas economias dos países do G20. Por isso, a situação exige que se lance uma resposta fiscal ousada, abrangente e transfronteiriça.

O Brasil precisa de políticas econômicas imediatas. Não há tempo a perder.

Os custos de uma resposta política ambiciosa e inicial serão, certamente, minimizados se tais iniciativas forem implementadas oportuna e rapidamente. As economias interna e internacional serão muito mais impactadas se fizermos, no Brasil, muito pouco ou atrasarmos em demasia.

Os ministros das finanças e da economia, e outros implicados na crise, assim como os presidentes de bancos centrais do mundo todo devem agir com urgência e concertados, e precisam saber que podem contar não apenas com a OCDE, como também com outras organizações internacionais de fomento e desenvolvimento.

Sob essa ótica, o FMI e o Banco Mundial divulgaram comunicado conjunto, no qual os dois organismos afirmam que estão prontos para ajudarem seus países membros a lidarem com a “tragédia humana e o desafio econômico representado pelo coronavírus”.

Os dois organismos afirmam estar ativamente engajados com instituições internacionais e autoridades dos seus países membros, e dedicam especial atenção às nações mais vulneráveis.

A Diretora do FMI, Kristalina Georgiena, e o presidente do Banco Mundial, David Malpass, têm afirmado que usarão “todos os mecanismos disponíveis, incluindo financiamentos emergenciais, assessoria política e assistência técnica para auxiliar os países a enfrentar e superar os efeitos da pandemia”.

Ambos têm deixado claro que, particularmente, possuem instrumentos de financiamento rápido que, coletivamente, podem ajudar os países a responderem a uma ampla série de necessidades. Também, defendem a urgência de se fortalecer o monitoramento da saúde e dos sistemas de respostas nos níveis nacionais, na medida em que estes são cruciais para conter a disseminação do coronavírus e de qualquer outro surto futuro.

Como se vê, o FMI e o Banco Mundial estão totalmente comprometidos para prover o apoio que às pessoas e seus países membros necessitam.

O desafio de combater o coronavírus é enorme e sem precedentes.

Contudo, também são enormes as possibilidades de cooperação internacional que podemos obter nas esferas da saúde e da economia, por meio de em um plano consistente, confiável e eficiente de ação global conjunta.

Por outro lado, é preciso que se reconheça também que, na avalanche de acontecimentos, a ameaça do coronavírus surge como o estopim de profundas mudanças e rearranjos globais, que o mundo já (re)clamava pelo menos desde os anos 70 e 80 do século XX.

As dúvidas sobre o futuro são incalculáveis, e isso não podemos negar.

As consequências econômicas da pandemia podem gerar estragos sem precedentes na economia global. Contudo, saídas existem e são inexauríveis se no comando dos países estiverem homens de bem e líderes sensatos, vocacionados e competentes.

Em meio a tantas dúvidas, medo e insegurança, algumas certezas despontam a indicar que vem por ai, a reboque da pandemia do coronavírus, uma nova conformação do mundo e uma nova ordem civilizatória, mas sobre estas tratarei no próximo artigo.

 

[1] WWW.ft.com/content/19d90308-6858-11ea-a3c9- (acesso em 23 de março)

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