SOMBRAS DE UM MUNDO FECHADO

Para o Papa Francisco, em sua mais recente Carta Encíclica, reina um inaceitável silêncio internacional, incapaz de reconhecer que está em curso um processo de globalização e progresso sem um rumo comum.

Verifica-se uma deterioração da ética que condiciona e inspira a atividade internacional. Ademais de um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade.

É o império da “Cultura do Confronto” e não da “Cultura do Encontro”.

 

Sombras de um mundo fechado é o título do primeiro capítulo da Carta Encíclica do Santo Padre Francisco, tornada pública em 03 de outubro passado, com o título: “Sobre a Fraternidade e a Amizade Social”. Texto magnífico de grande erudição no qual o Papa  enfrenta temas áridos e controversos da nossa realidade atual, com tamanha clarividência, delicadeza e sapiência que nos convoca a reagir e lutar por um novo sonho no qual todos os seres humanos sejam iguais nos direitos e na dignidade e possam conviver entre si como irmãos.

Essa nova Encíclica é um documento fundamental da contemporaneidade e não apenas uma peça diplomática e doutrinária. Instrumento de direito das gentes de insofismável significado para a comunidade internacional, a Encíclica nos convida à esperança de uma nova realidade enraizada no mais fundo do ser humano, independentemente das circunstâncias  concretas e dos condicionamentos históricos em que vivemos hoje. Ela nos fala de uma sede, de uma aspiração, de um anseio de plenitude, de vida bem sucedida,  o que enche o coração e eleva o espírito para coisas grandes, como a verdade, a bondade, a beleza, a justiça e o amor.

Segundo o Santo Papa, a esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças e compensações que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna.

Nossos sonhos, ao longo da história, teriam sido desfeitos em pedaços.

Durante décadas, pareceu que o mundo tinha aprendido com tantas guerras e fracassos e, lentamente, seguia caminhando para variadas formas de integração.  Exemplo claro é o sonho de uma Europa unida, capaz de reconhecer as raízes comuns e regozijar-se com a diversidade que a habita. Basta lembrar a firme convicção dos países fundadores da União Europeia, que desejavam um futuro baseado na capacidade de trabalhar juntos para superar as divisões e promover a paz e a comunhão entre todos os povos do continente. A partir da formação da grande comunidade europeia (1951), o anseio de cooperação e integração chegou também à América Latina e a outros países e regiões. Houve tentativas de pacificação e reaproximação que foram bem sucedidas e outras que pareciam promissoras.

Contudo, alerta o Papa Francisco que a história da sinais de regressão, infelizmente.

Reacendem-se conflitos anacrônicos que se consideravam superados.

Ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos.

Em vários países, a noção de unidade do povo e da nação, tem sido maculada por diferentes ideologias, que criam novas formas de egoísmo e levam à  perda do sentido social – mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.

Os povos e, especialmente, seus governos, parecem ter esquecido que cada geração deve fazer suas as lutas e as conquistas das gerações anteriores e levá-las a metas ainda mais altas. O caminho é um só: o do amor, do bem, da justiça e da solidariedade.

Não é possível que nos contentemos com o que já se obteve no passado e ignoremos que muitos dos nossos irmãos ainda sofrem situações de injustiça que nos constrangem a todos.

Os conflitos domésticos, regionais e internacionais, assim como o desinteresse pelo bem comum, têm sido instrumentalizados pela economia global na tentativa de impor um modelo cultural único.

Uma cultura que unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque a sociedade cada vez mais globalizada nos torna vizinhos, e não irmãos.

Enfatiza o Santo Papa que nos encontramos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária da existência. Em contrapartida, aumentam os mercados, onde as pessoas desempenham funções de consumidores ou de espectadores.

O avanço deste globalismo, de hoje, favorece a identidade dos mais fortes que se protegem a si mesmos, e procura dissolver as identidades das regiões mais frágeis e pobres, tornando-as mais vulneráveis e dependentes.

O sentido da história se desagrega ainda mais.

É o fim da consciência histórica.

Está em curso uma espécie de “desconstrutivismo”, alerta o Papa, onde a liberdade humana pretende construir tudo a partir do zero. De pé, deixa apenas a necessidade de consumir sem limites e a cronificação de muitas formas de individualismo sem conteúdo. Assim procedem as ideologias de variados matizes, que destroem ou desconstroem tudo o que for diferente, podendo assim reinar sem oposição.

São as novas formas de colonização cultural.

Certos povos, cada vez em número maior, que alienam a sua tradição e imitam a violência imposta, toleram que se lhes roube a alma. Perdem justamente a própria fisionomia espiritual, a sua consciência moral e, também, sua independência ideológica, econômica e política.

Questiona o Papa sobre que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça e unidade?

Segundo ele, tais palavras têm sido manipuladas e desfiguradas para serem utilizadas como instrumento de domínio, com títulos vazios de conteúdo que servem para justificar qualquer ação.

Sem um projeto para todos, reina, hoje, em muitos países, o mecanismo político de exasperar, exacerbar e polarizar.

A política deixou de ser um debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efémeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro. Nesse mesquinho jogo da desqualificação, o debate é manipulado para o manter no estado de controvérsia e contraposição.

Hoje, um projeto com grandes objetivos para o desenvolvimento de toda a humanidade soa como um delírio. Aumentam-se as distâncias entre nós, e a lenta e dura marcha rumo a um mundo unido e mais justo sofre um novo e drástico revés.

Sem dúvida, uma luta de interesses que nos coloca a todos contra todos. Onde vencer se torna sinônimo de destruir.

Para o Sumo Pontífice, devemos nos envergonhar das expressões de racismo na medida em que demonstram que os supostos avanços da sociedade não são assim tão reais nem garantidos de uma vez por todas.

A riqueza aumentou, mas sem equidade, originando novas pobrezas.

Os direitos humanos não são suficientemente universais. Proclamados há mais de 70 anos no sistema das Nações Unidas, e conhecido de todos, persistem hoje no mundo inúmeras formas de injustiça, alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo econômico fundado no lucro, que não hesita em explorar, descartar e até eliminar o homem (adversário, concorrente, diferente).

Situações de violência vão se multiplicando cruelmente em muitas regiões do mundo, a ponto de o Santo Papa reconhecer que estamos vivendo, sem nos darmos conta, em uma “terceira guerra mundial em pedaços”.

A falta de horizontes, assim como qualquer guerra, acaba por destruir o próprio projeto de fraternidade, inscrito na vocação da família humana.

A desconfiança e o medo criam novas barreiras de autodefesa, de tal modo que deixa de haver o mundo, para existir apenas o “meu mundo”.

Muitos deixam de ser considerados seres humanos com a dignidade inalienável passando a ser apenas “os outros”. É nessa atmosfera que surge a tentação de fazer uma cultura dos muros, isto é, de erguer os muros: muros no coração e muros na terra para impedir o encontro com outras culturas, com outras pessoas.

Onde há muros, não há horizontes, nem alteridade.

Esses são fatos e realidades conhecidos de todos.

Entretanto, chama atenção o Papa Francisco que reina um inaceitável silêncio internacional, incapaz de reconhecer que está em curso um processo de globalização e progresso sem um rumo comum.

Verifica-se uma deterioração da ética que condiciona e inspira a atividade internacional. Ademais de um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade

Tudo isso contribui para disseminar uma sensação geral de frustração, solidão e de desespero. Nascem focos de tensão que oportunizam o acúmulo de armas e munições, em uma situação mundial dominada pela incerteza, pela decepção e pelo medo do futuro.

É o império da “Cultura do Confronto” e não da “Cultura do Encontro”.

A tecnologia, sem dúvida, registra progressos contínuos. Como seria bom se, enquanto descobrimos planetas longínquos, também descobríssemos as necessidades do irmão e irmã que estão ao nosso redor e as provêssemos.

Crescem as conexões e perde-se o interesse pela fraternidade.

Prisioneiros da virtualidade perdemos o gosto e o sabor da realidade.

Estamos diante, segundo o Papa, de um mundo que geme e se rebela.

Não há dignidade humana nas fronteiras. Há muitas vidas dilaceradas. Muitos fogem da guerra, de perseguições, de catástrofes naturais. Outros, com pleno direito, andam a procura de oportunidades para si e sua família. Sonham com um futuro melhor.

Lê-se na Encíclica Papal que as  migrações constituirão uma pedra angular do futuro do mundo, razão pela qual é fundamental não perder o sentido de responsabilidade internacional, sobre o qual se assenta toda a sociedade civil.

A ilusão da comunicação e o desrespeito à intimidade, em um mundo cada vez mais interconectado, além de darem ensejo a uma agressividade despudorada que invade até o mais recôndito da vida de alguém, incentivam movimentos de ódio e destruição, produzindo a falsa crença de existirem laços de amizade e afeto.

Os meios de comunicação digitais podem expor ao risco de dependência, isolamento e perda progressiva de contato com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento de relações interpessoais autênticas.

Fazem falta gestos físicos, expressões do rosto, silêncios, linguagem corpórea e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana.

A conexão digital não basta para construir pontes. Não é capaz de unir a humanidade. Tem aparência de sociabilidade, mas não constrói verdadeiramente um “nós”. Indubitavelmente, as comunicações eletrônicas dissimulam e ampliam o mesmo individualismo que se manifesta na xenofobia e no desprezo  pelos mais frágeis.

Ao ler a mais recente Encíclica do Papa Francisco é difícil não pensar no “Édito de Caracala”, de 212 d.C., no qual decretou que todos os habitantes livres do Império Romano, de onde quer que viessem, seriam, dali para frente, “cidadãos romanos”. Foi uma decisão revolucionária, que eliminou, da noite para o dia, a diferença legal entre governantes e governados e entre os súditos do Império. Cidadãos romanos e peregrinos passaram a ser iguais. Os peregrinos receberam a cidadania  romana. Como afirmou o Jurista Ulpiano: “todos os que se acham na urbe romana se tornaram cidadãos.

É disso que se trata a nova Encíclica Papal.

“Irmanados Todos” (“Fratelli Tutti”), como escrevia São Francisco de Assis, dirigindo-se a seus irmãos e irmãs ao convocá-los a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço. Feliz quem ama o outro, porque não há alienação pior do que experimentar que não se tem raízes, e não se pertence a ninguém.

Obrigada Papa Francisco por esta reflexão serena sobre o mundo de hoje, e por nos convocar a todos a sonhar, buscar e defender uma solidariedade comum e uma irmandade entre todos.

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