Somos todas “PIRRALHAS”

Greta Thunberg representa o “poder afável”, mais influente e prestigiado do que o repressor. Seu poder escapa do que é visível e ruidoso. É mais permeável e afetivo.

O exercício do poder requer inteligência, ambição, valentia e firmeza. São imprescindíveis sensatez e caráter. Tudo isso regado a doses generosas de astúcia, genialidade e certa malícia. Transpor favoravelmente obstáculos e inconvenientes é pré-condição. Ademais, elegância é fundamental. Violência e intolerância devem ser substituídas pela negociação e condescendência – que reformam o que nos opõe e fortalecem o que nos une.

Quem disse que se vive melhor quando todos circulam pelo mesmo lado da rua (seja na direita ou na esquerda)?

Quem disse que precisamos, todos, pensar da mesma forma e defender ou não as mesmas causas?

Já estamos acostumados aos “rompantes reverberatórios”, como diria Odorico Paraguaçu, do escritor Dias Gomes, de nosso presidente Jair Bolsonaro, cujas falas e aparições públicas esbanjam falta de moderação, adequação e sensatez. Depois de ter insultado chefes de estados importantes, artistas amantes do Brasil, mirou e disparou seus cartuchos contra a jovem ativista Greta Thunberg.
“Pirralha”! Não sabe o que diz! Nunca viu um índio de perto! “Fedelha”!

E ela arremessou em sua defesa: “Pirralha” sim, afinal sou “bambina”, sou “menina”.

Greta Thunberg – foto reprodução (Skepticalscience)

Garota, ainda, Greta Thunberg sabe mais sobre “liderança sensata” do que o experiente ex-deputado federal e hoje presidente, Jair Bolsonaro.

É na sua “pirralhice” que Greta Thunberg nos ensina que quanto maior o poder, mais silenciosamente atua. Ele existe sem ter que apontar barulhentamente para si mesmo o tempo todo. Diferentemente de muitos políticos tradicionais e calejados, ela exerce um “poder inteligente”. Não nos impõe nenhum silêncio.

Pelo contrário, dá voz a revoadas incansáveis de jovens e crianças que até pouco tempo só prestavam atenção às telas de seus smart fones.

Essa “pirralha” nos convida a compartilhar incessantemente opiniões, experiências, preferências e desejos, e nos obriga a refletir, a rever a nos reinventar. É ela que nos faz ver que toda associação política, inclusive o estado, como já ensinava Aristóteles, tem por fim não apenas sua existência material e de todos os seus associados, mas também e, principalmente, sua felicidade e sua virtude.

Greta Thunberg representa o “poder afável”, mais influente e prestigiado do que o repressor. Seu poder escapa do que é visível e ruidoso. É mais permeável e afetivo.

Greta Thunberg exerce uma técnica de poder que não rejeita ou oprime a liberdade, mas a explora e revigora. Ela substitui o “livre arbítrio” pela “livre seleção” entre várias ofertas disponíveis.

Com sua aparência afável e franzina traz um gigante no peito. Ela personifica a força, a altivez e o destemor. Ela estimula e seduz.

Seu “poder inteligente” é muito mais efetivo do que qualquer um que ordene, ameace e prescreve.

Essa “pirralha”, líder internacional das “fedelhas”, tremula sua bandeira de defesa do meio ambiente. Nada mais, nada menos que a salvaguarda da vida e da saúde humana. Sua luta e exército atravessam fronteiras e têm dimensão mundial. Sua missão é a de alertar para as implicações nefastas dos danos ambientais: destruições, mortes, efeitos nocivos, muitos irreversíveis, em curso hoje em grande parte do planeta.

Greta Thunberg não está preocupada com seu presente de natal, como a maioria das garotas da sua mesma idade, nem mesmo se sairá de uma das lojas de grifes desejadas pela gurizada da escola. Suas atenções estão voltadas aos perigos resultantes das explosões nucleares, do uso irresponsável dos elementos radioativos, da poluição atmosférica, do derramamento de petróleo nos oceanos, dos acidentes e naufrágios de navios e embarcações carregadas de material tóxico e pesticidas.

Ah!! Como diria Tom Jobim: “Se todas as “pirralhas” fossem iguais a você, existiria a verdade, a verdade que ninguém vê”.

Por essas e outras razões, o presidente deve desculpas à Greta Thunberg, e a todos nós que defendemos a mesma causa – aquela do direito fundamental de existir – das gerações atuais e das futuras.

Desta vez presidente Jair Bolsonaro, o Senhor abusou. Contudo, como já disseram Antonio Carlos & Jocáfi: “abusou sim… mas não faz mal, isso é tão normal no seu governo.. é tão usual seu destempero.. é tão cafona e sofredor.. que eu já não sei se é “meninice” ou cafonice o seu (des)amor”.

Maristela Basso
Maristela Basso é Professora de Direito Internacional e Comparado da USP (Faculdade de Direito do Largo São Francisco), Sócia responsável pelo núcleo de Direito Internacional e de Arbitragem do Nelson Wilians & Advogados Associados e colaboradora do portal Na Pauta Online

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