TODAS AS MULHERES DO PRESIDENTE

Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Farejando os fatos e os últimos acontecimentos não é difícil constatar, ainda que neguemos, uma enorme frustração e decepção com as representantes do sexo feminino eleitas para o parlamento brasileiro. Especialmente, aquelas que engrossaram as fileiras do, então, partido do Presidente da República eleito. O simples fato de serem mulheres não significa que lá estão representando as causas femininas.

Já ficou claro que não adianta eleger qualquer mulher, ou um grupo orquestrado delas, para que se garanta o equilíbrio e a certeza de que o universo feminino será ouvido, respeitado, contemplado em suas justas demandas e causas.

Quando observamos atentamente o entorno feminino do Presidente vemos, com espanto, que de porta-vozes do povo nas ruas, de inconformadas com o Brasil corrupto, injusto, misógino e obscuro, depois de eleitas tornaram-se panos de chão, capachos, garotas de recado, mensageiras das trevas.

Elas mudaram depois de eleitas? Ou sempre estiveram lá no mesmo lugar em que estão agora e não vimos porque dissimuladas e combativas nos enganaram com seu canto profundo?

As últimas eleições foram tão perniciosas para o Brasil que conseguiram, inclusive, dar nascimento a um novo feminismo. O feminismo presidencial. Aquele que gosta do sopapo, do grito, dos maus tratos, da pegada firme no braço, do cala boca, público e privado, disparado ao improviso. Aquele feminismo que se vê e se sente agradecido e inferior ao macho, que gosta do bruto, do urso, do rude, do cru e o disfarça com a subserviência.

Nunca houve tanto desserviço às causas das mulheres.

A tropa de choque cor de rosa presidencial, enquanto serve de claque e faz coro com o negacionismo, o terraplanismo e a negação da ciência, obstaculiza discussões importantes sobre o aborto, minimiza as hipóteses de prática de crime em razão do estupro, assim como defende teses retrogradas e antidemocráticas nas comissões de justiça, cidadania e meio ambiente, dentre outras.

Nenhum avanço vimos nos últimos dois anos no que diz respeito aos problemas crônicos de uma sociedade machista, misógina, antifeminista, injusta e desigual.

Mulheres podem correr como lobos. Podem seguir com um passo tão leve, que torne possível uma movimentação livre pelas estradas que escolhem percorrer, inclusive, aquelas do poder. Como uma loba, a mulher pode seguir qualquer coisa que passe pelo seu território. Pode colher, assim, as melhores informações. Transmitir os mais preciosos ensinamentos. Manifestar-se. Transformar-se em clareiras em meio a escuridão. Servir de farol onde reinam as trevas. Abrir caminhos somente com a força do seu amor e a energia do seu olhar.

Contudo, infelizmente, as mulheres do Presidente não sabem disso. Nem têm as qualidades indispensáveis para pôr em marcha as transformações necessárias. A elas faltam compaixão, sinceridade, sorriso largo, olhar sereno e, sobretudo, intuição.

A intuição é o tesouro da psique da mulher. Ela atua como um instrumento de adivinhação, como um cristal por meio do qual se pode ver com uma visão interior excepcional.

A intuição é como uma velha sábia que está sempre com as mulheres, que diz exatamente se elas devem virar à esquerda, à direita ou permanecer ao centro. Diz ainda se estão em boa ou má companhia.

É a intuição que falta às mulheres do Presidente.

E disso resulta a solidão que enfrentamos quando as causas femininas do Brasil contemporâneo não logram sucesso no Parlamento Nacional.

Às mulheres que não nos representam (mais) fica o alerta de que sempre há tempo de desenvolver a própria conscientização quanto ao perigo, às intrigas, à política. É preciso tornar-se alerta sozinha, para seu próprio proveito, deixar morrer o que deve morrer em si mesma. Deixar partir a “filha-boa-demais” dos velhos arquétipos femininos e permitir que nasça aquela mulher capaz de vencer os novos desafios, de atingir um desenvolvimento mais profundo que a conduza a um processo natural de amadurecimento.

O mundo não é maternal conosco, por isso espera-se das mulheres escolhidas para representar outras mulheres, que sejam capazes de não se intimidar, seguir adiante, entrar na mata, oferecer toda a resistência possível, abrir as clareiras necessárias e fazer avançar a cultura. As mulheres podem alcançar o mundo que desejam e esperam, a despeito das decepções e agruras. Ele existe. É real. É possível. É delas. Civilização é isso: o processo de libertar algumas mulheres de certos homens.