Um texto para dizer que eu não consegui escrever

Enquanto muitos têm reclamado do tédio em tempos de distanciamento social, meus dias seguem mais agitados do que nunca. Detalhe: estou de férias! Ontem, depois de horas de gravação de aulas em estúdio, fechei o dia; melhor dizendo, a noite, com a participação em uma live sensacional sobre relacionamentos abusivos. Para hoje, o meu projeto era acordar cedo e me concentrar, dentre outras coisas, na elaboração deste ensaio, que provavelmente seria sobre o tema tratado na atual ferramenta queridinha do Instagram.

E eis que deu tudo errado… Acho que, cada vez mais, a vida insiste em me dizer que tenho controle sobre quase nada. Vida de mulher, mãe, professora, advogada, dona de casa e etc e tal é um troço complicado. Definitivamente não é para as fracas, opção que, sinceramente não acredito ser dada à maioria das mulheres.

São tantos os bastidores dos nossos compromissos publicamente assumidos que, sem dúvidas, se pararmos para pensar, piramos. No meu caso, uma gravação de três horas de conteúdo para uma aula demanda, no mínimo, uns dois dias dedicados à preparação. Para participar de uma live, se o tema for do meu “domínio”, são necessárias umas cinco ou seis horas para estudo e estabelecimento de um roteiro. Acho importante mencionar esses detalhes, porque, com frequência, ouço elogios à minha suposta inteligência. Não que eu me ache burra, mas, gente, eu só consigo falar como uma maritaca – sim, eu falo muito – sobre os aspectos processuais penais da Lei Maria da Penha sob a perspectiva ontológica do Estado Democrático de Direito sob a égide das teorias feministas contemporâneas (fiquem tranquilos porque esse título propositalmente não faz o menor sentido), porque eu estudo muito. Isso leva tempo; muito tempo. Para falar a verdade, anos a fio…

O mesmo vale para o meu pretenso “dom” da oratória. Aqui, vale lembrar uma história de bullying que me acompanhou nos célebres tempos do ensino fundamental. Quem já me conheceu loquaz talvez nunca acredite, mas eu tinha muita vergonha de falar em público. Quando algum trabalho precisava ser apresentado oralmente, em público, eu ficava com o rosto absolutamente ruborizado, vermelho mesmo, vermelhaço. Isso me rendeu, por anos, o apelido de “Camarão”, usualmente mencionado nas minhas exposições faladas, elevando a tensão natural a níveis estratosféricos. Aliás, para a história não ficar sem fim, a alcunha deixou de ser bradada, bastante tempo depois de sua criação, quando eu passei a chamar o seu autor, dotado de um nariz avantajado, de “Napão”.

Isso tudo é para dizer que fazer alguma coisa razoavelmente bem demanda tempo, persistência e energia. E também superar “traumas”, como o do “Camarão”, né?

Agora, persistência e energia são as palavras de ordem para que eu consiga lidar com as minhas duas pequenas e adoráveis “tiranas”. Duas menininhas de 7 e 2 anos, respectivamente, cheias de personalidade e, principalmente, de vontades. Como fazer a leitura de uma obra filosófica de conteúdo denso ao som de uma competição de gritos agudos de “Mamãe”? Como desenvolver um raciocínio lógico quando duas pequenas estão guerreando com espadas fictícias de cabos de vassouras? Como escrever um texto sério, coerente e com o devido concatenamento de ideias quando, num piscar de olhos, essas miúdas conseguem achar o esconderijo dos produtos tóxicos usados para fazer slime e começam a se olhar com carinhas de Gremlins? O “problema” é que no momento em que eu estou irritadíssima e dou início aos trabalhos que precedem uma bronca homérica, vejo aqueles olhos de cachorrinho sem dono e ouço as vozes, agora mansinhas, a suplicar “Brinca com a gente?”.

Larguei tudo e, por hoje, foi o que deu. Um desabafo real, com vocabulário coloquial e sem quaisquer referências bibliográficas. E o mais importante: está tudo bem!

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