Uma política de mulheres

Foto reprodução - Carta Capital
Sabrina Garcêz é Advogada, Vereadora e Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal de Goiânia (Foto: Arquivo Pessoal Perfil Facebook)

Nessa Terra Brasilis, em que os números de violência doméstica e feminicídios são alarmantes, somos acordadas com mais uma notícia que corta como faca amolada: deputados articulam em Brasília “abrandar” a participação feminina nas próximas eleições municipais. Uso o termo entre aspas porque, na prática, esse é um processo que já está em curso.

Somos novamente vítimas de uma política de silenciamento e eliminação dos espaços públicos e de poder. Uma política que tem como reflexo o assassinato de uma mulher a cada duas horas. Esse jogo de bastidores dos líderes políticos – muitos dos quais sempre criticaram e reprovaram a obrigação do número mínimo de candidaturas femininas – é simbólico em nossa cultura machista.

Os donos dos privilégios nunca se conformaram com os novos tempos e com a ascensão de grupos marginalizados. “Narciso acha feio tudo que não é espelho”, já dizia Caetano Veloso em Sampa. Torcem os seus narizes brancos, heterossexuais e masculinos para todos que não são os seus reflexos, e agem para acabar com as conquistas mínimas desses outros que não importam.

Em um país que se orgulha de sua diversidade – em tese, já que os números de segurança pública mostram que essa “diversidade” é a que mais sofre violência – ocupa a 156º posição, entre 190 países, em representação feminina em suas casas. Fica atrás de países como Ruanda, Bolívia, Nicarágua e (vejam só!) Cuba.

E vejam bem, ainda que o percentual mínimo de candidaturas seja de 30% de mulheres candidatas, nós ocupamos apenas 15% das vagas no Congresso. Detalhe importante: esse percentual sempre se mantém na casa dos 30%, eleição após eleição. E sabem o porquê? Porque nós mulheres temos nossas candidaturas negligenciadas pelos partidos. Se partimos para uma análise por raça, esses dados são ainda mais preocupantes, pois, mulheres negras encontram ainda mais obstáculos que as brancas nos partidos.

Não recebemos o mesmo financiamento que os homens e não somos consideradas como nomes a serem trabalhados em alguns partidos. Ainda somos vistas como “a cota obrigatória”. Somos negligenciadas e nossas candidaturas impossibilitadas. E quando eleitas temos que lidar diariamente com a violência machista de nossos pares, com a desconfiança e o descrédito.

É urgente que nos levantemos contra esse ultraje. Não podemos deixar que as decisões sobre as nossas existências, que são plurais, sejam tomadas por um grupo de homens brancos, heterossexuais e conservadores.