Vladimir Puttin é a face da Rússia

Não obstante as críticas a este homem que administra o país à moda dos czares do passado, é inegável sua responsabilidade pelo retorno da estabilidade política e pelo progresso econômico da Rússia. Em 1999, a Rússia ainda procurava se levantar dos escombros do fim da União Soviética. E foi graças a primeira gestão de Putin (1999-2008), que o lucro real aumentou e os salários mais que triplicaram. O desemprego e a pobreza caíram em mais da metade, e a satisfação de vida da população russa aumentou significantemente. Contudo, os progressos na economia, nas artes e na ciência não foram suficientes para que a Rússia de Putin perdesse seu lado sombrio.

 

O êxito da manobra de Vladimir Putin para permanecer na presidência por, pelo menos, mais 15 anos, contados do final de seu atual mandato previsto para se encerrar em 2024, avilta ainda mais a frágil democracia russa e o estado de direito, como conhecido na cultura ocidental. Ademais, escancara sua bizarrice autoritária e sua falta de vocação para a construção do consenso e promoção do pluralismo. Daí porque não surpreende que tenha conseguido aprovar no parlamento seu pacote de reforma à Constituição do país, no qual aumenta os poderes presidenciais para, além de alterar a composição e o número de membros da Suprema Corte, indicar premiês-adjuntos e ministros, assim como nomear e demitir o procurador geral, seus adjuntos, procuradores federais e juízes.

O mesmo conjunto de reformas determina que a fé dos russos deve ser em Deus, e apenas nele, pondo fim ao estado laico. Estabelece, também, que o casamento civil é apenas entre homens e mulheres e, em meio a tanta desfaçatez, estabelece que o presidente só pode servir dois mandatos – e zera a contagem para Putin que poderá permanecer no poder após 2024, se vencer as próximas eleições, e também, se reeleito, em 2030.

Trata-se, em síntese, de um amontoado de 206 emendas que alteram 14 artigos da Constituição russa, adensando os valores conservadores e consolidando os alicerces de uma narrativa histórica, na qual Putin, “O Grande”, terá uma longa passagem triunfal e os partidos liberais não contarão sequer com um único parágrafo.

Pesquisas independentes registraram um empate em Moscou na consulta feita a população nos últimos dias: 51% sim ao pacote de reformas, 49% não, e uma derrota em São Petersburgo, cidade natal de Putin: 56% não, 44% sim.

Contudo, o resultado já era previsível, até mesmo porque Putin tinha ordenando a edição e publicação da Constituição russa com as novas regras, fazendo-a circular por todo o país. O plebiscito, portanto, serviu apena para enganar os troianos, porque entre os russos já estava tudo combinado.

Putin é o homem mais influente dos tempos modernos na Rússia, graças à sua inusitada combinação de modernidade, autoritarismo e brutalidade. Não faz muito tempo, o posto de grande estadista russo era ocupado pelo político Piotr Stolypin, Primeiro Ministro de Nicolau II, de 1906 a 1911.  O mandato de Stolypin foi marcado por tentativas de reprimir grupos revolucionários e, graças às suas bravatas, o regime imperial viu sua derrocada, em 1917, quando muitos nós de forca foram feitos para eliminar os dissidentes.

Ex agente e chefe do serviço secreto soviético e russo (KGB), Putin está no poder desde 1999, quando foi ungido a Primeiro Ministro. Depois disso elegeu-se Presidente quatro vezes. Seu atual mandato deve se encerrar em 2024, por isso a pressa de emplacar as reformas constitucionais. Não há a menor chance de convencer Putin a voltar para casa antes de completar 83 anos, quando, provavelmente, encerrará seu último mandato, e entrará para a história como o homem público mais longevo no poder na Rússia.

Não obstante as críticas a este homem que administra o país à moda dos czares do passado, é inegável sua responsabilidade pelo retorno da estabilidade política e pelo progresso econômico da Rússia. Em 1999, a Rússia ainda procurava se levantar dos escombros do fim da União Soviética. E foi graças a primeira gestão de Putin (1999-2008), que o lucro real aumentou e os salários mais que triplicaram. O desemprego e a pobreza caíram em mais da metade, e a satisfação de vida da população russa aumentou significantemente. O primeiro governo de Putin foi marcado pelo grande crescimento econômico: a economia russa cresceu de forma consistente por oito anos seguidos, ensejando um aumento de 72% no PIB. Analistas atribuem essas conquistas à boa gestão macroeconômica, às importantes reformas fiscais, ao aumento do fluxo de capitais, ao acesso às finanças externas de baixo custo e a um aumento de cinco vezes no preço do petróleo e gás – os principais produtos de exportação da Rússia.

Sem dúvida, as condições de vida na Rússia melhoraram, porém, o projeto de modernização da economia, defendido por Putin, parece de difícil realização e muito longe ainda do desejado.

Se, de um lado, a situação econômica melhorou no país e seu PIB engordou,  por outro, as liberdades civis passaram a ser mais duramente tuteladas pelo Estado e a imprensa independente acossada. A oposição, nas ruas e no poder legislativo, existe, mas não é viável nas urnas e não tem musculatura para fazer frente ao uso que Putin e seus asseclas fazem da máquina pública.

Cumpre destacar também que o país, na era Putin, recuperou espaço importante na geopolítica internacional, não apenas militar, como nos campos diplomático e estratégico.

Sua política externa é pautada pelo “hard power”, isto é, na força bélica, como se viu em suas aventuras militares na Ucrânia e na Síria, mais recentemente. Para tanto, dedica especial devoção à coleção de armas nucleares russas, com a qual assusta o Ocidente e consolida sua permanência no Kremlin.

Como se vê, os progressos na economia, nas artes e na ciência não foram suficientes para que a Rússia de Putin perdesse seu lado sombrio.

Mas, mesmo assim, o país ainda povoa o sonho de turistas, artistas, estudantes, intelectuais e militantes políticos.

Consultar a população sobre o futuro da nação, neste momento, sem dúvida, revela a astúcia e inteligência de Putin, que subtrai o foco dos problemas econômicos domésticos decorrentes, em grande parte, da queda de demanda e do preço do petróleo devido à pandemia.

Mesmo em meio aos problemas que assolam o mundo, hoje, há um espaço de atenção à sucessão na Rússia – o que se explica pelo simples reconhecimento de que todo e qualquer debate sobre temas relativos à paz e à segurança internacional não pode passar ao largo da Europa Oriental.

Daí as dúvidas que nos assolam: terá o Czar do Século XXI folego para enfrentar as reivindicações de um povo que clama por estabilidade, prosperidade e segurança? Permanecerá a elite russa atrelada a Putin ou encontrará refúgio em novas lideranças?

Como se vê, muitas são as questões que permanecem e encontrarão suas respostas no futuro. Porém, uma delas é certa: reescrever a Constituição russa à luz dos próprios desejos e aspirações não faz de Putin um presidente vitalício. Para tanto, terá que dobrar um povo altivo, bravo, cada vez mais resistente à tirania e ocidentalizado.

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